A importância de atividades ao ar livre para a saúde mental

A realização proposital de atividades ao ar livre fortalece a ideia de que o contato com a natureza é importante para o bem-estar mental. Entenda!

O contato com a natureza é apontado como algo que faz falta no dia-a-dia das pessoas nos grandes centros urbanos. À medida que pesquisas avançam, percebemos que o contato com ambientes naturais pode ajudar não apenas na recuperação de enfermidades como também na prevenção e na melhora do bem-estar em geral.

Tendo isso em mente, há também pesquisas com enfoque na relação entre exposição à natureza e saúde mental. Embora as pesquisas tragam evidências bastante positivas, ainda fica a dúvida: a mera exposição é o suficiente, ou realizar atividades ao ar livre pode potencializar esse efeito? É isso que buscamos compreender neste texto.

O que são atividades ao ar livre?

Atividades ao ar livre (em inglês nature-based activities) são atividades realizadas em ambientes abertos em contato com a natureza. Em outras palavras, são atividades feitas fora de casa, do ambiente de trabalho ou de estudos, de preferência em locais com abundância de elementos naturais como plantas, luz solar, corpos d’água, entre outros.

Alguns exemplos de atividades ao ar livre são:

  • Trilhas;
  • Ciclismo;
  • Jardinagem;
  • Yoga no parque;
  • Esportes em equipe.

Qual o efeito das atividades ao ar livre na saúde mental?

Em geral, sabe-se que o contato com a natureza é o que chamamos de salutogênico, ou seja, algo que promove saúde em geral, mesmo que a pessoa não apresente nenhuma enfermidade.

Os chamados espaços verdes (com abundância de plantas) e espaços azuis (com abundância de água) funcionam como espaços restaurativos que diminuem os efeitos negativos da poluição do ar, da poluição sonora e da poluição térmica que vivenciamos no dia-a-dia.

Além disso, esses espaços também promovem uma maior oportunidade de interações sociais e atividades físicas, trazendo consigo esses dois fatores que também são importantes para a saúde mental.

Apesar de a mera exposição a espaços verdes ou azuis já trazer esse efeito benéfico para a saúde como um todo, não havia uma clareza se esse efeito poderia ser potencializado pela realização de atividades ao ar livre. Uma pesquisa publicada em 2021 no periódico científico SSM Population Health visou compreender o impacto das atividades ao ar livre em si, ao invés de focar apenas no contato com a natureza.

Isso foi feito por meio de uma revisão sistemática e uma meta-análise com estudos feitos com adultos em ambientes baseados em comunidade (ou seja, fora de hospitais), que poderiam ou não apresentar problemas de saúde física ou mental.

Foram consideradas atividades que poderiam ser realizadas de forma individual ou em grupo em locais como parques, canchas esportivas em céu aberto, bosques e reservas naturais. Dentre as atividades analisadas estavam:

  • Atividades de horticultura como jardinagem e plantações de alimentos;
  • Agricultura envolvendo o uso terapêutico de práticas agrícolas e de paisagismo;
  • Conservação ambiental envolvendo atividades destinadas à conservação e gestão de lugares naturais;
  • Exercícios que envolvam atividades físicas, incluindo caminhadas e jogging, desde que fossem realizadas ao ar livre;
  • Terapias baseadas em natureza que utilizam o espaço natural para melhorar o estresse, como o “banho de floresta” (silvoterapia) e mindfulness ao ar livre;
  • Artesanato baseado na natureza, sendo este realizado em ambientes ao ar livre e utilizando materiais naturais.

Os resultados da meta-análise mostram que as atividades ao ar livre possuem efeitos benéficos para a saúde mental em diversas ocasiões:

Diminuição do humor depressivo

Em pessoas que apresentam sintomas depressivos, independente de diagnóstico, a realização de atividades ao ar livre está associada a uma diminuição significativa do humor deprimido.

Isso se mostrou verdade para todas as populações, independente de idade, duração dos sintomas depressivos, comorbidades, entre outros.

Para os sintomas depressivos, as atividades que mais se destacaram foram as atividades terapêuticas envolvendo a natureza como o “banho de floresta” e o mindfulness, mas outras atividades também podem trazer efeitos semelhantes.

Diminuição da ansiedade

Assim como na depressão, as atividades ao ar livre também se mostraram boas para a redução de sintomas ansiosos. A diminuição da ansiedade também se deu em diversas populações bastante heterogêneas, ou seja, em pessoas de idades diferentes, com intensidades de ansiedade diferentes, entre outros.

As atividades com maior destaque para diminuição da ansiedade são as terapias baseadas na natureza e a jardinagem em grupo.

Aumento de afetos positivos

Os afetos positivos são emoções agradáveis que promovem bem-estar, como alegria, calma, entre outros. A meta-análise mostra que a realização de atividades ao ar livre está correlacionada com um aumento dos afetos positivos, mesmo em populações heterogêneas.

O aumento dos afetos positivos também acompanha uma diminuição dos afetos negativos, ou seja, das emoções desagradáveis que podem resultar em mau humor e mal estar psicológico.

Atividades em grupo tendem a ser mais eficazes

Apesar de serem necessários mais estudos, a meta-análise também destaca que as atividades realizadas em grupo tendem a ter resultados mais expressivos.

Estima-se que isso ocorre porque a combinação entre exposição à natureza e socialização pode potencializar o aumento do bem-estar, bem como fomentar sensação de propósito na realização de atividade e aumentar o apoio social percebido pelos indivíduos envolvidos.

Dentre as atividades estudadas, as mais eficazes foram as terapias baseadas em natureza (mindfulness ao ar livre, silvoterapia etc.), a jardinagem (preferencialmente em grupos) e os exercícios físicos ao ar livre.

Em comparação com apenas a exposição a espaços verdes, as atividades ao ar livre oferecem oportunidades de se conectar com a natureza de diversas maneiras, além de obter apoio social e se envolver em atividades com sensação de propósito.

Estes fatores são considerados potenciais mecanismos por trás dos benefícios para a saúde mental observados.

Vale ressaltar que, apesar dos benefícios aqui citados, as atividades ao ar livre não substituem o tratamento e acompanhamento de um profissional, especialmente em casos de transtornos mentais.

Se você sente que está passando por questões psicológicas, não hesite em buscar ajuda com um profissional da saúde mental.

Referências

Coventry et al. (2021). Nature-based outdoor activities for mental and physical health: Systematic review and meta-analysis SSM Popul. Health, 16. Article 100934, 10.1016/j.ssmph.2021.100934

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