Alexitimia: quando a pessoa sente, mas não consegue entender o que sente

Dificuldade em identificar e expressar emoções não é transtorno, mas pode trazer consequências. Entenda!

De acordo com Charles Darwin, biólogo britânico que escreveu A Origem das Espécies, as emoções são estados internos relevantes que podem promover comportamentos adaptativos.

Sentir ansiedade pode inspirar uma fuga tática de uma situação social desconfortável, assim como sentir-se infeliz pode levar alguém a mudar de carreira, por exemplo.

Mas o que acontece quando uma pessoa tem dificuldade em reconhecer suas próprias emoções? É o que ocorre com pessoas que convivem com alexitimia.

Neste texto, vamos entender o que é alexitimia, quais são os sinais dessa condição, suas consequências e algumas dicas para melhorar a identificação e regulação emocional.

O que é alexitimia?

A alexitimia pode ser definida como uma dificuldade para identificar, entender ou descrever as próprias emoções.

Pessoas que lidam com alexitimia têm sentimentos e podem até sentir com bastante intensidade, mas costumam ter dificuldade em perceber exatamente o que está sentindo ou colocar isso em palavras.

Por conta disso, essas pessoas apresentam dificuldades em falar sobre seus sentimentos com outras pessoas. Assim, podem parecer distantes ou frias, embora seja apenas uma impressão causada pela dificuldade em reconhecer, descrever e expressar as próprias emoções.

Em geral, pessoas com alexitimia têm mais facilidade para reconhecer sensações físicas. Neste sentido, elas podem perceber muito claramente sensações como um aperto no peito, sensação de tensão ou palpitações, mas têm dificuldade para ligar essas sensações físicas a estados emocionais.

O termo, que significa “sem palavras para as emoções” em grego, foi proposto por psicanalistas na década de 1970. Para estes psicanalistas, a alexitimia era uma forma de descrever um grupo de déficits no processamento cognitivo das emoções.

A alexitimia não é considerada um transtorno mental por si só. Ela é vista como um traço ou padrão de funcionamento emocional, que pode aparecer em diferentes graus nas pessoas.

Sinais de alexitimia

A alexitimia pode ser identificada por meio de alguns sinais. Dentre eles:

  • Dificuldades para identificar e descrever emoções e sentimentos, usando termos vagos como “me sinto estranho” ou “estou cansado”;
  • Não reconhecer que certas sensações físicas podem estar relacionadas a estados emocionais, como um aperto no peito causado por uma angústia ou uma palpitação causada por uma ansiedade;
  • Dificuldades para reconhecer e interpretar expressões emocionais das outras pessoas;
  • Aparente frieza, indiferença ou apatia;
  • Falas mais práticas, focadas mais em acontecimentos externos do que em sentimentos e experiências internas.

Em geral, pessoas com alexitimia podem parecer desconectadas das próprias emoções, o que nem sempre é verdade.

Essas pessoas podem ter emoções em intensidades variáveis, mas apresentam dificuldade em expressá-las de forma clara. Dentre estas dificuldades estão a dificuldade para nomear a emoção sentida e a dificuldade para comunicar seu estado emocional.

Podem ser pessoas que tendem a racionalizar as emoções, falando sobre as situações em si ao invés de focar o discurso na sua própria experiência interna daquela situação.

Quais as consequências da alexitimia?

A alexitimia pode trazer diversas consequências na vida de uma pessoa. Alguns exemplos são:

Dificuldades nos relacionamentos

Pessoas com alexitimia podem ter mais dificuldade para compartilhar sentimentos ou compreender emoções dos outros. Isso pode gerar mal-entendidos em amizades, relacionamentos amorosos ou na família.

Às vezes, os outros podem interpretar esse comportamento como frieza, indiferença ou falta de empatia.

Maior dificuldade para lidar com o estresse

Quando alguém não consegue identificar claramente suas emoções, fica mais difícil entender o que está causando sofrimento ou tensão, o que pode prejudicar o desenvolvimento de estratégias de enfrentamento e aumentar o acúmulo de estresse ao longo do tempo.

Maior propensão a transtornos mentais

A alexitimia está associada a maior probabilidade de desenvolver transtornos mentais, como depressão e ansiedade. Isso acontece porque a dificuldade em reconhecer emoções pode atrapalhar a regulação emocional.

Sintomas físicos relacionados ao estresse

Como emoções podem ser percebidas principalmente como sensações físicas, algumas pessoas relatam mais queixas corporais, como dores, tensão muscular, fadiga ou desconfortos digestivos.

Esses sintomas podem estar ligados ao estresse emocional não identificado.

Dificuldades na tomada de decisões

As emoções ajudam a orientar escolhas e prioridades. Quando uma pessoa tem dificuldade em reconhecer o que sente, pode ficar mais difícil avaliar preferências pessoais, desejos ou limites.

Dificuldades de regulação emocional

Um dos fatores mais influentes na regulação emocional é justamente a identificação e a clareza acerca das emoções. Quando uma pessoa tem dificuldades com isso, consequentemente há dificuldades de regulação emocional.

Pesquisas mostram que pessoas com níveis mais altos de alexitimia geralmente têm dificuldades em escolher estratégias adaptativas de regulação emocional, como reavaliação cognitiva, abordagem de problemas e busca de apoio social.

Em geral, essas pessoas tendem a escolher estratégias desadaptativas, como o isolamento, retraimento e repressão emocional.

Alexitimia nos transtornos mentais

A alexitimia costuma aparecer associada a alguns transtornos mentais.

Isso não significa que a alexitimia causa tais transtornos, apenas que acaba sendo um componente importante em como a pessoa vivencia sua regulação emocional.

Os principais transtornos relacionados à alexitimia são o transtorno do espectro autista (TEA), transtornos de humor como a depressão e transtornos relacionados a traumas, como o transtorno de estresse pós-traumático.

Transtorno do Espectro Autista (TEA)

Muitas pessoas no espectro autista apresentam dificuldades para identificar e descrever emoções, algo típico da alexitimia.

Pesquisas indicam que parte das dificuldades emocionais observadas no autismo pode estar mais relacionada à presença de alexitimia do que ao autismo em si.

Por exemplo, dificuldades em reconhecer emoções nos outros ou em falar sobre sentimentos podem aumentar quando a pessoa também apresenta alexitimia.

Depressão

Quando alguém tem dificuldade para reconhecer o que sente, pode se tornar mais difícil compreender e processar emoções negativas, como tristeza, culpa ou frustração.

Isso pode contribuir para a manutenção dos sintomas depressivos, porque a pessoa tem mais dificuldade em elaborar emocionalmente suas experiências ou buscar ajuda adequada.

Desta forma, a alexitimia acaba tendo uma grande relação com a depressão, embora não possa ser descrita como uma causa propriamente dita.

Transtorno de estresse pós-traumático (TEPT)

A alexitimia também pode estar ligada a experiências traumáticas, como as associadas ao Transtorno de Estresse Pós‑Traumático. Em alguns casos, a dificuldade em identificar emoções pode funcionar como uma forma de proteção psicológica.

Após eventos muito estressantes ou traumáticos, algumas pessoas podem aprender a se desconectar de suas emoções para evitar sofrimento intenso. Com o tempo, isso pode levar a dificuldades persistentes em reconhecer e expressar sentimentos.

Devaneio excessivo

Conhecido como maladaptive daydreaming, o devaneio excessivo é uma condição na qual a pessoa fantasia de maneira excessiva e acaba deixando de lado tarefas básicas do dia-a-dia e suas próprias necessidades sociais.

Nas primeiras descrições da alexitimia, os pesquisadores acreditavam que a condição prejudicava a capacidade imaginativa dessas pessoas, podendo diminuir a tendência dessas pessoas em devanear ou fantasiar.

Contudo, pesquisas recentes mostram que isso não necessariamente é verdade. Na realidade, pessoas com alexitimia apresentam uma maior predisposição ao devaneio excessivo, até mesmo como uma forma de regulação emocional.

Como melhorar a alexitimia?

A alexitimia não precisa ser um problema imutável. É possível entender melhor as próprias emoções e aprender a expressá-las de forma saudável.

Para melhorar a alexitimia, algumas dicas são:

Psicoterapia

A psicoterapia é uma das principais formas de tratamento em casos de alexitimia, pois não existem medicamentos específicos que ajudam no reconhecimento e expressão das emoções.

Abordagens como a terapia cognitivo-comportamental (TCC) ajudam a pessoa a identificar pensamentos, emoções e reações do corpo.

Aos poucos, o paciente aprende a diferenciar sentimentos e a relacioná-los com situações da vida cotidiana.

Treino de identificação de emoções

Muitas intervenções incluem exercícios para aprender a nomear emoções básicas, como tristeza, medo, alegria ou raiva.

O terapeuta pode ajudar o paciente a relacionar situações do dia a dia com possíveis emoções, fortalecendo a capacidade de reconhecer o que sente.

Atenção às sensações corporais

Pessoas com alexitimia muitas vezes percebem primeiro sinais físicos, como tensão, aperto no peito, fadiga, entre outros.

Técnicas como mindfulness ajudam a prestar atenção nessas sensações e a conectá-las com estados emocionais.

Escrita ou registro emocional

Manter um diário emocional pode ajudar no processo terapêutico. A pessoa registra acontecimentos do dia e tenta identificar quais sentimentos podem ter surgido em cada situação. Isso contribui para desenvolver vocabulário emocional e autoconhecimento.

Tratamento de condições associadas

Quando a alexitimia aparece junto com problemas como depressão, ansiedade ou transtorno de estresse pós‑traumático, tratar essas condições também pode melhorar a capacidade de reconhecer e regular emoções.

A alexitimia pode trazer consequências desagradáveis na vida de uma pessoa, mas é possível tratá-la para melhorar a qualidade das relações e manter a saúde mental.

Se você suspeita que tem dificuldades com suas próprias emoções, não hesite em buscar ajuda com um profissional!

Referências

Preece, D. A. & Gross, J. J. (2023). Conceptualizing alexithymia. Personality and Individual Differences, 215. https://doi.org/10.1016/j.paid.2023.112375

Preece, D. A. et al (2023). Alexithymia and emotion regulation. Journal of Affective Disorders, 324. https://doi.org/10.1016/j.jad.2022.12.065

Hogeveen, J. & Grafman, J. (2021). Chapter 3 – Alexithymia. Handbook of Clinical Neurology, 183. https://doi.org/10.1016/B978-0-12-822290-4.00004-9

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