Apatia emocional: por que às vezes parece que nada importa?

Reações emocionais menos intensas podem ser um sinal de alguma outra questão. Entenda!

A vida é cheia de momentos bons e ruins, de oportunidades e metas a serem alcançadas. Porém, algumas pessoas podem apresentar uma alta dificuldade em vivenciar tudo isso.

Trata-se da apatia, uma condição na qual a pessoa parece se tornar indiferente a tudo ao seu redor. Neste texto, vamos conceituar apatia, entender o que pode estar causando ela, como ela se manifesta no cérebro e o que pode ser feito para melhorar.

O que é apatia?

Na medicina, o termo apatia se refere à uma falta de comportamentos voltados a um objetivo. Em outras palavras, a pessoa deixa de fazer atividades que estão relacionadas às suas metas, sejam elas pessoais ou profissionais.

A apatia pode se parecer com falta de motivação, falta de espontaneidade, falta de interesse e até mesmo falta de emoções. Trata-se de uma condição generalizada, em que parece que a pessoa perdeu o interesse em tudo na sua vida.

Ela não é considerada um transtorno em si, mas costuma aparecer associada a diversas condições, como a depressão, por exemplo.

Sintomas da apatia

A apatia pode se tornar evidente por meio de diversos sintomas. Dentre eles:

  • Falta de engajamento com o trabalho, hobbies e vida social;
  • Ausência de preocupação em relação às atividades que deixou de fazer, mesmo que elas sejam importantes;
  • Contar com outras pessoas para ajudar a fazer tarefas do dia-a-dia, por falta de motivação própria;
  • Diminuição na expressão de emoções, tanto negativas quanto positivas.

Como a apatia afeta o emocional?

Embora a apatia seja descrita como uma condição do comportamento, ela também afeta o emocional. Pessoas que estão lidando com apatia geralmente parecem frias, tratando as coisas com indiferença e falta de entusiasmo.

Apesar de parecer um pouco com um quadro depressivo, a diferença está no fato de que a pessoa com apatia não está com o humor deprimido. Ela não se sente particularmente triste, sendo mais uma sensação de “tanto faz” constante.

Isso pode trazer uma série de dificuldades para sua vida, pois a falta de motivação e interesse da apatia faz com que a pessoa acabe deixando de lado muitas coisas importantes, como seus objetivos pessoais e profissionais, além de suas relações interpessoais.

Diferentes condições que afetam o emocional

Apesar do termo apatia ser bastante conhecido, nem tudo que parece apatia é apatia de fato. Existem algumas outras condições com sintomas semelhantes que podem ser confundidas. São elas:

Anedonia

A anedonia é uma condição na qual a pessoa perde a capacidade de sentir prazer. Coisas que antes a deixavam feliz agora já não deixam mais, e ela tem dificuldade em sentir prazer com atividades novas.

Na prática, pode se parecer muito com a apatia por também acabar afetando a capacidade da pessoa agir em prol dos seus objetivos.

Alexitimia

A alexitimia é caracterizada por uma dificuldade em identificar, entender ou descrever as próprias emoções. Isso não significa que a pessoa não sente e nem afeta sua capacidade de agir em prol dos seus objetivos, como na apatia.

Portanto, é uma condição bastante diferente, embora possa parecer a mesma coisa para quem olha de fora.

Indiferença afetiva

A indiferença afetiva é um estado de frieza emocional, caracterizado pela falta de resposta emocional a estímulos. A pessoa pode ter dificuldade em sentir algo que “deveria” estar sentindo, como sentir-se triste ao receber uma notícia ruim, ou sentir-se alegre durante momentos agradáveis.

Apesar disso, a indiferença afetiva não necessariamente afeta a capacidade da pessoa de agir em prol dos seus objetivos, o que distancia a condição da apatia.

Quais transtornos estão relacionados à apatia?

A apatia não é um transtorno por si só, sendo mais caracterizada como uma síndrome que aparece em uma série de transtornos e enfermidades. As condições mais frequentemente associadas a apatia são:

  • Depressão;
  • Esquizofrenia;
  • Transtorno de estresse pós-traumático (TEPT);
  • Mal de Parkinson;
  • Mal de Alzheimer;
  • Acidente vascular cerebral (derrame, AVC);
  • Lesões cerebrais, especialmente no lobo frontal.

A apatia também pode surgir como resposta ao tratamento da depressão, pois costuma ser um efeito colateral de alguns antidepressivos.

Como a apatia se manifesta no cérebro?

A apatia não é só psicológica, tendo bases bem claras no funcionamento do cérebro, principalmente em sistemas ligados à motivação, recompensa e tomada de decisão.

Uma das peças centrais é a dopamina, um neurotransmissor relacionado à motivação, que é o principal neurotransmissor no circuito de recompensa. A dopamina ajuda o cérebro a determinar quais ações valem a pena e quais não.

Quando há redução na atividade dopaminérgica, a pessoa pode até entender racionalmente que algo é importante, mas não sente impulso para agir.

Para além da dopamina, outros neurotransmissores relacionados à apatia são a serotonina e a noradrenalina. A serotonina é reguladora do humor e age na sensibilidade à recompensa, enquanto a noradrenalina está relacionada à atenção.

O cérebro é cheio de circuitos importantes para determinadas atividades e, no que tange a apatia, esses circuitos passam por regiões importantes, como o córtex pré-frontal e o estriado ventral.

O córtex pré-frontal está ligado ao planejamento, tomada de decisão e iniciativa. Já o estriado ventral está envolvido na motivação e na antecipação de recompensa.

Quando a comunicação entre essas áreas falha, a pessoa pode ter dificuldade em iniciar ações, mesmo sem estar triste ou deprimida.

Outra condição relacionada à apatia é a disfunção nos circuitos fronto-estriatais. Estes circuitos são redes que conectam o córtex pré-frontal aos gânglios da base, e são essenciais para transformar a intenção em ação.

Como sair da apatia?

Dependendo do quadro, é possível tratar a apatia e até mesmo sair dela. Algumas dicas para isso são:

Psicoterapia

Quando a apatia está relacionada a algum transtorno mental, como a depressão, é possível tratá-la com psicoterapia. As terapias focadas na ação são as mais indicadas para esses quadros, como é o caso da análise do comportamento e da terapia cognitivo-comportamental (TCC).

Inicie de forma leve

Como a apatia prejudica a capacidade de realizar atividades que tem algum objetivo, pode ser muito difícil conseguir fazer as tarefas do dia-a-dia e ficar se cobrando pode piorar ainda mais a situação. Busque iniciar as tarefas de forma leve, dividindo-a em pequenos passos.

Por exemplo, se você precisa limpar a casa, inicie pensando em guardar alguns objetos ao invés de focar em limpar a casa inteira de uma vez. Outra dica é tentar fazer alguma coisa por pelo menos 5 minutos, pois às vezes a motivação surge depois de você já ter passado um tempo fazendo aquela tarefa.

Socialize

Embora a apatia prejudique a socialização, ela não impede que a pessoa sinta prazer quando passa tempo com amigos e outras pessoas queridas. Por isso, muitas vezes, é o caso de se forçar a socializar com mais frequência, mesmo que não esteja afim no momento.

Hábitos saudáveis

Ter hábitos saudáveis também pode ajudar a combater a apatia. Busque ter uma rotina fixa, com horário para dormir, acordar, comer etc.

A atividade física é um grande aliado na recuperação da motivação, sendo muito boa para quadros de apatia.

Medicação

Por fim, tratar os quadros adjacentes à apatia pode ajudar a diminuí-la também.

Se a pessoa está lidando com um quadro depressivo, o tratamento com antidepressivos pode ajudar. Alternativamente, se o próprio antidepressivo está causando apatia, é possível ajustar dosagens ou testar outras medicações.

Algumas condições podem ser tratadas com medicamentos moduladores da dopamina, tendo efeito também na apatia.

Vale lembrar que o tratamento medicamentoso deve sempre ser acompanhado por um psiquiatra ou neurologista.

Embora a apatia não seja um transtorno mental em si, ela pode trazer muitos prejuízos na qualidade de vida e na saúde mental de um indivíduo. Se você percebe que está mais apático ultimamente ou conhece alguém que esteja, não hesite em buscar ajuda de um profissional da saúde mental!

Referências

Husain, M., Roiser, J.P.  (2018). Neuroscience of apathy and anhedonia: a transdiagnostic approach. Nat Rev Neurosci 19, 470–484. https://doi.org/10.1038/s41583-018-0029-9

https://my.clevelandclinic.org/health/symptoms/24824-apathy

Confira posts relacionados