No dia a dia, muitas pessoas enfrentam dificuldades para dizer o que pensam ou sentem. O medo de desagradar, de criar conflitos ou de parecer “difícil” faz com que opiniões sejam engolidas e necessidades fiquem em segundo plano.
A assertividade surge justamente como uma alternativa saudável a esse silêncio. Ela permite expressar pensamentos, sentimentos e limites de forma clara e respeitosa, sem agressividade e sem anulação de si mesmo.
Neste texto, vamos explorar o conceito de assertividade, de que forma ela pode auxiliar nas relações interpessoais, bem como algumas dicas para exercitá-la nas suas relações!
O que é assertividade?
Assertividade é a habilidade de expressar o que você pensa, sente e precisa de forma clara, honesta e respeitosa, sem ser de forma agressiva ou passiva.
Muitas vezes, quando queremos expressar algo, acabamos expressando de forma equivocada que acaba soando agressiva demais, ou acabamos nos tornando passivos demais e não expressamos nada (autoanulação).
Essas duas outras formas de se expressar (agressivamente ou passivamente) são bastante prejudiciais nas nossas relações, pois desrespeitam a autonomia e o poder de decisão da outra pessoa, bem como limita a nossa própria capacidade de navegar as relações.
Infelizmente, nós não nascemos sabendo ser assertivos, então é comum que muitas pessoas não tenham essa habilidade tão bem desenvolvida. A boa notícia é que ela pode ser aprendida em qualquer idade e traz uma qualidade muito maior às interações e relações interpessoais.
Como a assertividade pode ajudar nas relações interpessoais?
A assertividade pode trazer uma grande melhora na qualidade das relações por conta de:
Melhora na comunicação
Com a assertividade, a comunicação se torna mais clara e menos propícia a mal-entendidos.
Além disso, uma pessoa que tende a acumular questões e acaba “explodindo” pode se comunicar de forma mais saudável, evitando esse acúmulo.
Aumento do respeito mútuo
Pessoas que são sinceras umas com as outras a respeito de seus limites, sentimentos e pensamentos, tendem a respeitar melhor umas às outras.
Estabelecer limites dentro das relações expõe quem está disposto a te respeitar e quem não está.
Fortalecimento dos vínculos
Quando a comunicação é clara e assertiva, as pessoas envolvidas na relação não precisam ficar tentando adivinhar o que o outro quer, sente ou pensa. Dessa forma, os vínculos se tornam mais firmes e saudáveis.
Reduz ressentimentos
Quando não comunicamos direito nossas necessidades e desejos, podemos acabar acumulando ressentimentos nas nossas relações. Com a assertividade, as chances de algo se tornar um ressentimento diminui significativamente (contanto que a outra pessoa faça a parte dela).
Melhora na autoestima
Embora a assertividade sirva para resolver conflitos em situações interpessoais, ela possui uma grande ligação com a autoestima.
Isso porque uma pessoa que consegue se comunicar e respeitar suas necessidades e desejos, bem como as necessidades e desejos dos outros, cultiva relações saudáveis que, por sua vez, são um fator importante para uma boa autoestima.

Assertividade versus agressividade: qual a diferença?
Para entender melhor a assertividade, talvez seja necessário compreender como a agressividade e a passividade se manifestam nas interações.
Quando uma pessoa deseja comunicar algo, ela pode tomar 3 atitudes diferentes:
- Impor suas opiniões e desejos sem considerar a autonomia, sentimentos e necessidades dos outros;
- Engolir tudo e evitar o conflito, anulando seus desejos e necessidades, dizendo que “tanto faz” quando na realidade não é bem assim;
- Dizer o que precisa comunicar de forma firme e respeitosa.
No primeiro cenário, trata-se da agressividade. Neste cenário, a pessoa apenas impõe o que pensa e sente, sem considerar as vontades, necessidades e autonomia do outro, podendo inclusive usar uma linguagem acusatória, como por exemplo “você nunca pensa em mim!”.
Já o segundo cenário diz respeito à passividade, que é quando deixamos de expressar o que precisamos e anulamos nossas próprias vontades, necessidades e autonomia em prol de evitar o conflito e criar uma “falsa paz” na relação. Um exemplo de como a passividade se manifesta durante uma interação é dizer “deixa pra lá” ou “deixa que eu cuido disso” ou até mesmo “tudo bem”, quando na realidade não está tudo bem.
Por fim, o último cenário se refere à assertividade, em que a mensagem é comunicada de forma respeitosa considerando tanto os próprios desejos e necessidades quanto os da outra pessoa, abrindo espaço para diálogo e negociação. Um exemplo de como a assertividade se expressa durante uma interação é ao dizer “quando você faz isso, eu fico chateado. Podemos conversar e combinar de outra forma?”.
Leia mais: Comunicação não-violenta (CNV): o que é, princípios e desafios
Dicas para ser mais assertivo nas relações
A assertividade é baseada em três condições:
- Reconhecer e defender meus direitos, necessidades e desejos, me comunicar com eficiência e sem demora. Além disso, romper (comunicar descontentamento, parar de colaborar, afastar-se ou desligar-se definitivamente) com pessoas que insistam em não me tratar com consideração e respeito. Não cumprir essa condição significa agir de forma passiva;
- Reconhecer e respeitar os direitos, necessidades e desejos do outro, ouvir com atenção e sem resistência. Evitar críticas ou ataques à pessoa do outro, dar prioridade para a discussão sobre o comportamento e por que ele deve ser mudado. Perdoar, sem rancor, quem se esforça em me atender e respeitar. Descumprir essa condição significa agir de forma agressiva;
- Estar disposto a contribuir ativamente com atitudes e sugestões que resolvam os conflitos de maneira proporcional.
Ao cumprir essas três condições, estamos agindo de forma assertiva.
Na teoria, parece fácil. Porém, na prática, existe uma série de questões que podem interferir na interação com outra pessoa, como emoções intensas, crenças acerca de nós mesmos e do mundo, entre outros. Quando esse é o caso, pode ser interessante buscar ajuda de um profissional da saúde mental, como um psicólogo que pode ajudar a trabalhar essas questões.
Para exemplificar uma situação de assertividade, vamos imaginar uma pessoa que está chateada com outra por sempre se atrasar para compromissos. Ela pode iniciar o diálogo da seguinte forma:
“Percebo que você sempre se atrasa para nossos compromissos e isso me deixa chateado. Podemos combinar alguma forma de evitar isso?”
A partir disso, a outra pessoa pode explicar o porquê de sempre se atrasar, tentar negociar uma nova forma de marcar os compromissos para evitar os atrasos, entre outros.
Comparativamente, se a pessoa chateada se expressasse de forma agressiva, ela poderia dizer “você sempre se atrasa, é óbvio que você não liga para mim e para os nossos compromissos!”. Já uma pessoa que agisse de forma passiva iria desconsiderar seu próprio desconforto com os atrasos, o que com o tempo poderia levar a ressentimentos.
Outra questão importante da assertividade é que a outra parte também deve estar disposta a respeitar os acordos feitos a partir do diálogo. Caso a outra pessoa dê justificativas e nunca mude seu comportamento ou esteja sempre invalidando como você se sente, é importante romper essa relação para que não se torne uma relação em que você acaba se anulando.
Em outras palavras, romper relações nas quais não há respeito e reciprocidade faz parte da assertividade.
Na prática, se você tem alguma situação em que gostaria de ser mais assertivo, uma dica é fazer um exercício escrito:
- Registre e escreva sobre situações ou experiências com pessoas que o levem à insatisfação ou conflito de qualquer natureza. Descreva:
- A situação
- A pessoa envolvida
- A sua atitude
- A atitude do outro
- Releia seu registro e classifique a atitude do outro (Agressiva? Assertiva?) e sua atitude (Passiva? Agressiva? Assertiva?).
- Repense a situação e imagine como seria sua atitude caso você pudesse agir de forma ainda mais assertiva.

Ser assertivo traz diversas melhorias para a saúde mental e para as relações interpessoais. Se você percebe que tem dificuldades em ser assertivo e com isso existe uma piora generalizada da autoestima e saúde mental, não hesite em buscar ajuda com um profissional!
Referências
Golshiri, P., Mostofi, A. & Rouzbahani, S. The effect of problem-solving and assertiveness training on self-esteem and mental health of female adolescents: a randomized clinical trial. BMC Psychol11, 106 (2023). https://doi.org/10.1186/s40359-023-01154-x


