Comportamento das crianças: por que elas não obedecem?

O comportamento infantil pode ser misterioso, intrigante e, às vezes, aborrecedor. Entenda aqui!

O comportamento das crianças pode ser um grande mistério, especialmente para pais de primeira viagem. Esses seres em desenvolvimento podem ter uma lógica completamente diferente do que adultos estão acostumados, o que pode gerar muito fascínio, mas também pode trazer problemas para a comunicação.

Não é raro que pais estejam lidando com crianças que simplesmente não obedecem. Não importa quantas vezes os pais expliquem ou quais as possíveis consequências, essas crianças simplesmente não obedecem e os pais podem começar a suspeitar que a criança pode ter algum transtorno de comportamento.

Mas calma, esse é raramente o caso! O mais comum, na verdade, é que os pais não estão sabendo lidar com as peculiaridades da infância e acabam abordando a situação de forma errada.

Neste artigo, vamos explicar um pouco melhor como funciona o comportamento das crianças e de que forma os pais podem se adaptar para que sejam claramente compreendidos e para que as crianças cooperem. Além disso, também abordaremos sinais de quando é necessário buscar uma avaliação de um profissional!

Por que as crianças se comportam desse jeito?

Crianças são pessoas ainda em desenvolvimento e, com isso, existem algumas limitações na maneira que elas conseguem se expressar e atingir objetivos.

São diversos os motivos pelos quais isso ocorre: falta de vocabulário, falta de oportunidades para expressar o que sentem ou desejam de forma verbal, pais negligentes, entre outros.

Neste contexto, o comportamento da criança acaba sendo a melhor forma que ela encontra para expressar seus sentimentos, desejos e anseios, o que muitas vezes pode refletir em comportamentos estranhos ou indesejados.

Uma criança que ainda não entende que a mãe não pode estar disponível o tempo inteiro para dar atenção a ela pode começar a desenvolver comportamentos problemáticos, que são tidos como urgentes pela mãe e faz com que ela preste mais atenção na criança, mesmo que de forma negativa (punindo-a ou dando um sermão).

Neste caso, a criança tem uma necessidade de atenção não atendida, e comunicar isso de outra forma não adianta pois a mãe não vai parar de fazer o que está fazendo caso a criança simplesmente peça atenção em um momento que não é de urgência.

É claro que, nestes casos, é importante trabalhar a resistência à frustração da criança, pois conseguir atender todas as necessidades da criança o tempo inteiro é uma expectativa irrealista.

Contudo, existem também outros fatores que podem provocar mudanças no comportamento de uma criança, como por exemplo:

  • Transições importantes na vida, como iniciar a escola;
  • Mudanças familiares, como conflito entre os pais ou a chegada de um irmãozinho;
  • Sensibilidades sensoriais, nas quais a criança pode se sentir sobrecarregada diante de sons, cheiros e luzes, por exemplo.

Vale ressaltar que a sensibilidade sensorial, frequentemente associada ao transtorno do espectro autista (TEA), é bem comum em crianças pequenas, pois seu sistema nervoso ainda está em desenvolvimento. Por conta disso, não se trata necessariamente de um sinal de algum transtorno caso a criança apresente uma maior sensibilidade nos primeiros anos de vida.

Como entender o comportamento das crianças?

Considerando que o comportamento das crianças frequentemente têm por objetivo expressar ou comunicar algo, é interessante observar quais as possíveis causas desses comportamentos.

Todas as pessoas têm necessidades físicas e emocionais, e com as crianças não é diferente. Contudo, as crianças precisam de ajuda dos adultos para satisfazer várias dessas necessidades e, muitas vezes, não têm o repertório necessário para comunicar esse pedido de ajuda. Há também casos em que a própria criança não sabe identificar qual necessidade precisa que seja atendida, fazendo com que tenham reações emocionais intensas sem saber explicar o porquê.

Portanto, tentar entender qual necessidade está por trás do comportamento pode ajudar imensamente a entender o comportamento da criança, bem como evitá-lo caso seja um comportamento indesejado.

Alguns dos motivos pelos quais uma criança pode estar se comportando mal são:

  • Fome;
  • Sono;
  • Cansaço;
  • Nervosismo;
  • Frustração;
  • Lidando com mudanças;
  • Tentando entender o mundo;
  • Necessidade de atenção.

E quando a criança não obedece?

Crianças podem não obedecer por diversos motivos. A presença de uma necessidade não atendida é um deles, mas também podem haver outros.

Quando crianças não obedecem, elas também podem estar explorando limites, para saber até onde podem ir e onde não podem. Neste caso, cabe aos pais reforçar os limites sem minar a autonomia da criança de explorar.

Isso pode ser feito explicando para criança o porquê daquilo ser um limite, pois apenas reforçar o “não” pode fazer com que a criança não entenda e não respeite o limite.

Já quando elas não obedecem quando são pedidas para fazer alguma coisa, é interessante ver se existe alguma necessidade não atendida no caminho. Uma criança que está com fome não vai conseguir fazer a lição de casa ou arrumar o quarto, por exemplo.

Para além de necessidades físicas, existem também as necessidades emocionais. Às vezes a criança pode não querer obedecer por estar de mau humor, frustrada com alguma coisa, ou pode estar querendo atenção e poderia fazer algo de bom grado se fosse acompanhada pelos pais ou cuidadores.

Como lidar com o comportamento inadequado das crianças?

Lidar com o comportamento indesejado de crianças pode ser bastante desafiador, considerando que os pais também têm suas questões e podem acabar emocionalmente abalados.

Aqui vão algumas sugestões que podem ajudar imensamente nestes momentos:

Ajude a criança a regular suas emoções

Caso a criança esteja apresentando uma emoção muito intensa, antes de qualquer coisa é interessante ajudá-la a regular suas emoções.

Ajude a criança a entender que está tudo bem sentir emoções ruins às vezes, e ajude-a a identificar a emoção que ela está sentindo, dando um nome a ela.

Você também pode perguntar à criança o que ela tem vontade de fazer quando se sente assim e, se for algo inadequado (como destruir brinquedos ou bater em alguém, por exemplo), ajudar a criança a encontrar outras formas de expressar essa emoção saudavelmente.

Tente ser um bom exemplo

As crianças aprendem muito imitando os adultos, principalmente aqueles responsáveis pelo seu bem-estar.

Se você souber cuidar das suas próprias necessidades de forma adequada, a criança aprenderá com você.

Já se você precisar de alguma ajuda por qualquer motivo, peça ajuda para outra pessoa de confiança e mostre para a criança que não tem problema precisar pedir ajuda quando ela precisar.

Quando for ter uma conversa séria com a criança, é importante estar com as emoções reguladas, pois a criança tende a ficar nervosa também caso os pais ou cuidadores estejam nervosos. Se o adulto gritar com a criança, a tendência é que ela grite de volta.

Se necessário, comunique à criança a necessidade de tirar um tempo para regular suas emoções. Da mesma forma, permita que a criança tenha esse espaço ela mesma antes de conversar seriamente sobre algum assunto.

Aproveite das consequências naturais para ensinar

Comportamentos indesejados frequentemente trazem consequências indesejadas.

São consequências naturais aquelas consequências que procedem naturalmente de algum comportamento. Se uma criança quebra um brinquedo, por exemplo, o brinquedo não funcionar mais é uma consequência natural que pode ensinar à criança que não é ideal quebrar brinquedos.

Nestes casos, é interessante abordar a criança com calma, explicando que a ação dela teve uma consequência negativa. Evite usar um tom acusatório como “olha só o que você fez, agora não funciona mais!”

Use explicações compatíveis com o desenvolvimento cognitivo da criança

Quando for explicar o porquê de um comportamento ser inadequado, ou o porquê da criança precisar fazer alguma coisa, é importante usar explicações que estejam de acordo com o desenvolvimento cognitivo esperado para a idade daquela criança.

Mantenha um diário de comportamento

Se a criança exibe um comportamento indesejado com alguma frequência e você tem dificuldades para entender o que este comportamento está tentando comunicar, tente manter um diário de comportamento.

Neste diário, você anota a frequência do comportamento, o que aconteceu antes da criança exibir o comportamento e o que foi feito depois que pode ter melhorado ou piorado o comportamento.

Eventualmente, será possível perceber um padrão: se o comportamento acontece sempre em um determinado horário, ou se ocorre sempre após um determinado acontecimento. Desta forma é possível encontrar maneiras de prevenir o comportamento.

Quando procurar ajuda para o comportamento da criança?

Existem casos em que, mesmo que os pais façam tudo que conseguem fazer, as crianças simplesmente não obedecem de forma alguma e continuam realizando comportamentos problemáticos.

Nestes casos, é possível suspeitar que existe algum transtorno adjacente, como um transtorno opositor-desafiador (TOD), transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), transtorno de processamento sensorial (TPS) ou transtorno do espectro autista (TEA).

Até os 5 anos de idade, é normal que a criança apresente birras. No entanto, é também nessa fase que os pais e cuidadores devem educar a criança em relação a essas birras. Embora elas continuem acontecendo, a frequência deve ir diminuindo à medida em que a criança se aproxima dos 6 anos de idade. Caso isso não ocorra, é interessante buscar ajuda.

Já entre os 6 e 11 anos de idade, a criança está explorando mais o mundo e pode não lidar muito bem com os limites impostos pelos pais. Embora as birras não sejam mais esperadas, a criança pode começar a desobedecer os pais deliberadamente. A educação continua sendo a chave para a diminuição desses problemas, mas é importante notar o quanto essas intervenções estão sendo efetivas.

Crianças e pré-adolescentes que lidam com transtornos como TDAH e TEA darão sinais bastante visíveis, mas eles podem acabar sendo rotulados de forma a invisibilizar o transtorno.

Não é raro que crianças no espectro e crianças com TDAH tenham dificuldades em regular suas emoções, mas muitos pais e cuidadores acabam apenas rotulando essas crianças como “dramáticas” ou “manipuladoras” ao invés de buscar entender o comportamento e buscar a ajuda necessária.

Portanto, se você percebe que sua criança está exibindo comportamentos indesejados ou problemáticos em momentos do desenvolvimento em que não deveriam mais exibir esse tipo de comportamento, é interessante buscar um profissional da saúde mental especializado no comportamento infantil!

Crianças podem ser tanto fascinantes quanto desafiadoras, mas existem diversas maneiras de lidar com comportamentos indesejados e problemáticos.

Se você percebe que crianças da sua convivência seguem apresentando comportamentos problemáticos mesmo com diversas intervenções adequadas, não hesite em buscar ajuda de um profissional da saúde mental infantil!

Referências

https://cambspborochildrenshealth.nhs.uk/behaviour-emotions-and-mental-health/understanding-behaviour
https://parents.actionforchildren.org.uk/feelings-behaviour/understanding-emotions-behaviour/understanding-and-managing-my-childs-behaviour

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