Estresse crônico: o que ele faz com seu cérebro (e como se proteger)

Quando prolongado, o estresse está ligado a alterações cerebrais que podem trazer prejuízos. Entenda!

O estresse é uma resposta natural do organismo diante de desafios e ameaças do dia a dia, e o cérebro é o principal órgão envolvido nesse momento. É ele que identifica o que é ameaçador e decide como o corpo e o comportamento vão reagir.

Essas respostas ajudam a pessoa a se adaptar melhor à situação, mas quando o estresse é excessivo ou constante, esse mesmo mecanismo pode começar a prejudicar o corpo, gerando um desgaste acumulado.

O cérebro tem grande capacidade de adaptação, independente da idade. Diante das experiências vividas, o cérebro é capaz de modificar conexões entre neurônios, fortalecer ou enfraquecer circuitos e até reorganizar sua estrutura.

Dentre essas experiências capazes de trazer grandes alterações ao cérebro, está o estresse. Quando prolongado, o estresse pode alterar áreas ligadas ao pensamento, à tomada de decisões, à ansiedade e ao humor. Dependendo da intensidade e da duração, essas mudanças podem aumentar ou diminuir certos comportamentos e estados emocionais.

Em outras palavras, o estresse pode ser um mecanismo para adaptação diante de situações adversas, mas também pode ser um fator que influencia na patogênese, ou seja, no surgimento de transtornos mentais.

Neste texto, vamos explorar um pouco como o estresse atua no cérebro e de que forma podemos prevenir que problemas maiores surjam.

O que é estresse?

O termo “estresse” é muito usado no cotidiano, mas parece ter um significado ambíguo. Ele pode se referir a experiências da vida que às vezes são benéficas, outras vezes negativas e até traumáticas, mas muitas vezes o termo está relacionado à rotina diária, como a sensação de estar “estressado”.

Cientificamente falando, a palavra estresse se refere a uma resposta do organismo diante de desafios agudos e mudanças súbitas, como na resposta de luta ou fuga.

Podemos classificar o estresse em estresse positivo, estresse tolerável e estresse tóxico.

O estresse positivo se refere à experiência de enfrentar um desafio, assumir um risco e sentir-se recompensado por um resultado geralmente positivo. Em geral, este tipo de estresse está relacionado a uma boa autoestima, bom controle de impulsos e capacidade de tomada de decisão.

Tudo isso são funções de uma arquitetura cerebral saudável, e mesmo resultados adversos podem ser “experiências de crescimento” para indivíduos com essas características positivas e adaptativas que promovem a resiliência diante da adversidade.

Já o estresse tolerável se refere a situações em que coisas ruins acontecem, mas o indivíduo possui uma estrutura cerebral saudável o suficiente para conseguir lidar. Em geral, isso ocorre quando a pessoa tem uma boa rede de apoio, como familiares e amigos.

Assim como no estresse positivo, eventos adversos podem resultar em experiências de crescimento. Contudo, ainda existe uma angústia relacionada ao fator estressante e o grau em que o indivíduo se sente incapacitado de influenciar ou controlar esse fator.

Por fim, o estresse tóxico se refere a situações negativas nas quais o indivíduo possui pouco controle e pouco apoio, bem como apresenta certas dificuldades em relação à autoestima, controle de impulsos e tomada de decisões.

Aqui, a angústia causada pelo estresse tende a ser muito mais intensa e duradoura, e a incapacidade de lidar muito bem com a situação contribui para o surgimento de comportamentos problemáticos e alterações na fisiologia.

Apesar de essa classificação ajudar a entender que nem sempre o estresse é um vilão, ainda existe o fato de que, para a maior parte das pessoas, o estresse não surge necessariamente de situações adversas, mas sim de um estilo de vida estressante.

Um estilo de vida estressante é caracterizado por perturbações no ritmo circadiano, solidão, ruído, poluição, falta de espaços verdes e aglomerações, todos fatores bastante presentes nos grandes centros urbanos atualmente.

Os estressores mais comuns são aqueles que operam de forma crônica, geralmente de um nível mais baixo, que influenciam nossos comportamentos no dia-a-dia.

Por exemplo, estar “estressado” pode nos causar sentimentos ansiosos, insônia, consumo excessivo de alimentos reconfortantes e ingestão de mais calorias do que o nosso corpo necessita, além de levar ao tabagismo ou ao consumo excessivo de álcool.

Da mesma forma, o estresse pode nos fazer negligenciar nossas amizades e rede de apoio, ou diminuir o engajamento em atividades físicas regulares.

Em resumo, o estresse pode ser causado por questões do dia-a-dia e nos levar a comportamentos que, por sua vez, acabam gerando ainda mais estresse.

Quais os mecanismos neurobiológicos por trás do estresse?

Geralmente, ao se falar de estresse, fala-se também de hormônios como adrenalina e cortisol. Contudo, existem mecanismos neurobiológicos por trás do estresse que são de grande relevância para entendermos como essa resposta pode prejudicar tanto a saúde mental.

Ao passar por uma situação estressante, o cérebro interpreta aquilo como uma ameaça. Mesmo que não seja um perigo físico real, o corpo reage como se precisasse se preparar para lutar ou fugir.

É aí que entra o chamado eixo HPA (Hipotálamo–Hipófise–Adrenal), que é basicamente um sistema de comunicação entre o cérebro e as glândulas que produzem hormônios.

Esse sistema envolve três partes: o hipotálamo (uma região do cérebro que percebe o estresse), a hipófise (uma glândula que funciona como mensageira) e as glândulas adrenais, que ficam acima dos rins.

Quando o cérebro percebe o estresse, ele envia um sinal em cadeia até as adrenais, que então liberam cortisol, conhecido como o “hormônio do estresse”.

O cortisol tem uma função importante: ele aumenta a energia disponível no corpo, deixa você mais alerta e ajuda a priorizar o que é necessário para lidar com a situação. Em momentos pontuais, isso é ótimo e até essencial para a sobrevivência.

O problema começa quando o estresse é constante. Se o eixo HPA fica ativado por muito tempo, o corpo passa a viver em estado de alerta quase permanente. Com o tempo, isso pode afetar o sono, a memória, o humor, o sistema imunológico e até aumentar o risco de ansiedade e depressão.

Contudo, quando falamos de estresse, o eixo HPA não funciona sozinho. Ele faz parte de uma rede que envolve principalmente a amígdala, o hipocampo e o córtex pré-frontal. Essas regiões cerebrais ajudam a avaliar a situação, dar significado emocional ao que está acontecendo e regular a intensidade da resposta do corpo.

A amígdala é a principal detectora de ameaças. Quando ela interpreta algo como perigoso, envia sinais que ativam o eixo HPA, iniciando a liberação de cortisol.

Em situações de estresse intenso ou repetido, a amígdala pode se tornar mais sensível, reagindo de forma exagerada e mantendo o eixo HPA mais facilmente ativado. Isso contribui para estados persistentes de ansiedade e hipervigilância.

O hipocampo, por sua vez, está muito ligado à memória e ao contexto das experiências. Ele ajuda a distinguir se uma ameaça é real ou se pertence ao passado.

Além disso, participa do mecanismo de “freio” do eixo HPA, pois possui muitos receptores para cortisol e ajuda a sinalizar quando já houve hormônio suficiente circulando, contribuindo para encerrar a resposta ao estresse.

Contudo, níveis elevados e prolongados de cortisol podem prejudicar o funcionamento do hipocampo, enfraquecendo esse controle e dificultando o desligamento adequado da resposta.

Já o córtex pré-frontal está relacionado ao planejamento, à tomada de decisões e à regulação emocional. Ele exerce um papel modulador, ajudando a reinterpretar situações e a inibir respostas impulsivas ou excessivas da amígdala.

Em condições de estresse crônico, o funcionamento do córtex pré-frontal pode ficar comprometido, reduzindo a capacidade de controle emocional e favorecendo respostas mais automáticas e reativas.

Consequências do estresse crônico para a saúde mental

Ao manter o organismo em um estado de alerta constante, o estresse crônico acaba trazendo consequências significativas à saúde física e mental.

Uma das consequências mais comuns é o aumento do risco de transtornos de ansiedade. A pessoa pode se sentir permanentemente tensa, preocupada ou em estado de vigilância, como se algo ruim estivesse prestes a acontecer.

O estresse contínuo também está fortemente associado ao desenvolvimento de depressão, contribuindo para sintomas como desânimo, perda de interesse, fadiga e alterações no sono e no apetite.

Além disso, o estresse crônico pode prejudicar a memória e a concentração, dificultando o aprendizado e o desempenho no trabalho ou nos estudos.

A irritabilidade tende a aumentar, assim como a dificuldade em regular emoções, o que pode afetar relacionamentos interpessoais.

Em alguns casos, pode haver maior vulnerabilidade ao uso de álcool e outras substâncias como forma de aliviar o desconforto emocional.

Por fim, o efeito prolongado do cortisol sobre o cérebro pode levar a condições ainda mais severas, como o mal de Alzheimer.

O excesso de cortisol ao longo do tempo pode contribuir para a redução do volume do hipocampo, prejuízo na formação de novas memórias e maior vulnerabilidade neuronal.

Além disso, estudos sugerem que o estresse crônico pode favorecer processos inflamatórios no cérebro e aumentar a deposição de proteínas ligadas à degeneração dos neurônios, fortemente associadas ao Alzheimer.

Como se proteger e prevenir problemas causados pelo estresse?

A melhor forma de se proteger é justamente evitando o estresse crônico, buscando um estilo de vida mais saudável. Algumas dicas são:

  • Regule o sono, buscando dormir e acordar nos mesmos horários todos os dias. Se necessário, pratique higiene do sono;
  • Alimente-se de forma saudável, com uma grande variedade de alimentos e nutrientes;
  • Pratique atividade física com regularidade;
  • Busque cuidar das suas relações interpessoais, cultivando relações saudáveis;
  • Separe momentos de autocuidado e de lazer;
  • Busque ajuda profissional o quanto antes se necessário.

Se você considera que o estresse tem sido um problema muito grande em sua vida, não hesite em buscar ajuda com um profissional da saúde mental!

Referências

McEwen BS. (2017). Neurobiological and Systemic Effects of Chronic Stress. Chronic Stress. doi: 10.1177/2470547017692328

https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S1074742711000517
https://journals.sagepub.com/doi/full/10.1177/2470547017692328
https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/0006322389901236

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