Cerca de 5% das pessoas jovens perdem ao menos um de seus pais antes de atingir a idade adulta. Essa perda parental durante a juventude, em especial na infância, tem impactos profundos no desenvolvimento dessas pessoas.
Embora o luto possa ser devastador em qualquer idade, entende-se que quanto mais cedo a perda, maiores são seus impactos psicológicos.
Neste texto, falaremos sobre a perda parental durante a infância e seus impactos psicológicos, emocionais e desenvolvimentais.
Quais são os impactos da perda parental?
Cada pessoa vive o luto de uma forma, e isso vale para crianças também. No entanto, mesmo que cada um encare o momento de uma forma diferente, existe uma grande correlação entre a perda parental e uma série de complicações psicológicas, como ansiedade, depressão, prejuízos no senso de identidade e até mesmo maiores chances de desenvolver problemas como abuso de substância e transtornos alimentares.
Impactos emocionais
De acordo com um artigo publicado no periódico científico International Journal of Environmental Research and Public Health em 2022, os impactos emocionais da perda parental na juventude são bastante parecidos com o que já se conhece classicamente como os estágios do luto de Elizabeth Kübler-Ross: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação.
No caso, o estudo de caráter qualitativo reconheceu nos participantes sentimentos de descrença na morte do pai/mãe, raiva, ansiedade, depressão, culpa e devastação.
No contexto da perda parental, os sentimentos de culpa podem ser compreendidos a partir do momento em que entendemos que, na infância, existe uma tendência ao egocentrismo, fazendo com que a criança acredite que tudo que ocorre é por sua causa.
Entender que isso não é verdade faz parte do desenvolvimento da criança, mas quando existe um trauma como uma perda parental envolvido, pode demorar mais para que a pessoa consiga elaborar esses sentimentos.
Impactos comportamentais
O comportamento também pode sofrer alterações em decorrência da perda parental. Crianças e adolescentes podem tender a um maior isolamento, podendo ter dificuldades em fazer e manter amizades na escola e outros espaços de convivência, por exemplo.
Os mais velhos, como adolescentes e jovens adultos, podem acabar desenvolvendo problemas com uso de substâncias.
A perda de um dos pais também pode aumentar as responsabilidades da criança ou adolescente, fazendo com que tenha responsabilidades que vão além da sua idade. Há casos em que o adolescente precisa assumir responsabilidades financeiras na casa e, por isso, começa a trabalhar muito cedo, prejudicando seu desenvolvimento e seus estudos.
Se a criança ou adolescente tem irmãos mais novos, ela pode acabar assumindo esse papel de cuidador, fenômeno conhecido como parentalização. A criança ou adolescente pode se sentir responsável pelos cuidados e bem-estar dos irmãos mais novos, tendo que assumir esse compromisso muito antes de estar preparada para isso.
Impactos desenvolvimentais
Diante de uma perda parental, o desenvolvimento emocional e psicológico fica significativamente alterado. No entanto, nem todas as alterações são necessariamente negativas.
A longo prazo, adultos que perderam os pais durante a infância ou adolescência tendem a relatar uma maior resiliência, bem como uma ressignificação da vida e da fragilidade humana, o que faz com que essa pessoa consiga valorizar mais os momentos vividos.
Isso só ocorre, no entanto, anos após a perda, quando a pessoa tem um luto bem resolvido. A presença de outros problemas psicológicos podem interferir nessa elaboração do luto, fazendo com que nem todas as pessoas consigam ter esse desenvolvimento positivo.

A perda parental na infância pode ter impactos genéticos?
Um estudo publicado em 2025 no periódico científico Scientific Reports buscou examinar se a perda parental durante a infância poderia estar relacionada a alguma alteração nos genes relacionados à oxitocina e à dopamina, substâncias presentes no cérebro relacionadas ao desenvolvimento de vínculos com outras pessoas e motivação.
A metilação de DNA é um processo que permite a ativação ou desativação de algum gene sem que seja necessário mudar a estrutura do DNA em si. Trata-se de um processo importante para a diferenciação das células no nosso corpo. No caso deste estudo, buscou-se compreender se esse processo resultaria em alterações nos níveis ou no funcionamento da dopamina e da oxitocina.
O estudo contou com a participação de 371 adultos, dos quais 33 haviam perdido ao menos um dos pais durante a infância (antes dos 16 anos).
Ao analisar os resultados, os pesquisadores perceberam que os adultos que haviam passado por uma perda parental na infância tinham uma tendência menor à evitação em seus relacionamentos íntimos (tanto românticos quanto amizades próximas) em comparação aos que não perderam seus pais.
No que tange a genética, o grupo dos adultos que tiveram uma perda parental demonstrou um menor nível de metilação de DNA nos genes relacionados à oxitocina. Isso indica que esses genes são mais ativos, possivelmente fortalecendo a capacidade de desenvolver vínculos emocionais com outras pessoas.
Já nos genes relacionados à dopamina, houveram também alterações que indicavam uma maior atividade desse neurotransmissor. A dopamina é um neurotransmissor ligado à motivação e tem fortes impactos na abertura para experiências e criatividade.
Crescimento pós-traumático: isso existe?
Os estudos realizados com pessoas que perderam seus pais durante a infância acabam reforçando a ideia de um fenômeno chamado “crescimento pós-traumático” (post-traumatic growth), que seria a capacidade de uma pessoa desenvolver mudanças positivas após passar por situações muito difíceis.
Isso se torna evidente quando vemos que uma grande parte das pessoas que perdem os pais na juventude acabam desenvolvendo uma maior resiliência emocional, por exemplo.
No entanto, não é possível generalizar. Há ainda muitas pessoas que acabam desenvolvendo problemas psicológicos significativos após a perda dos pais ou outros acontecimentos traumáticos. Podemos ver isso ao conferir que, estatisticamente, pessoas que passaram por uma perda parental na infância têm mais chances de desenvolver algum vício (transtorno por abuso de substância) ou transtornos alimentares.
Enquanto alguns casos podem ilustrar o que seria o tal crescimento pós-traumático, é importante entender que isso não é uma realidade para todas as pessoas e muito menos significa que passar pelo trauma foi algo “bom”.

Perder entes queridos traz impactos emocionais em qualquer idade, mas na infância o impacto tende a ser mais duradouro, pois acaba influenciando o desenvolvimento daquele indivíduo.
No entanto, esse impacto mais intenso não é necessariamente um problema. Ainda assim, fazer o acompanhamento com um profissional da saúde mental durante esses momentos pode ser crucial para melhorar o desenvolvimento emocional e psicológico.
Se você está lidando com o luto da perda de um pai ou conhece alguém que esteja, não hesite em buscar ajuda com um profissional!
Referências
Dvilansky, A.S., Zadok, H., Shoshani, A. et al. (2025). The long-term associations of childhood parental loss with attachment, creativity, and epigenetic regulation. Sci Rep 15, 4859. https://doi.org/10.1038/s41598-025-89467-2
Chater, A.M., Howlett, N., Shorter, G.W., Zakrzewski-Fruer, J.K., Williams, J. (2022). Reflections on Experiencing Parental Bereavement as a Young Person: A Retrospective Qualitative Study. International Journal of Environmental Research and Public Health, 19(4): 2083. https://doi.org/10.3390/ijerph19042083
Aguirre, L. V. C., Jaramillo, A. K., Saucedo Victoria, T. E., & Botero Carvajal, A. (2024). Mental health consequences of parental death and its prevalence in children: A systematic literature review. Heliyon, 10(2), e24999. https://doi.org/10.1016/j.heliyon.2024.e24999


