O transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) é um transtorno do neurodesenvolvimento bastante complexo e que vai além de uma simples falta de atenção no dia-a-dia.
Atualmente, existem medicamentos para o tratamento de sintomas como falta de atenção e hiperatividade, em especial os medicamentos estimulantes. No entanto, apenas a medicação dificilmente consegue dar conta de todas as dificuldades e limitações que o transtorno traz.
Contudo, isso não quer dizer que não existem outras maneiras de tratar o TDAH e suas consequências. Neste texto, vamos falar um pouco sobre outras formas de tratar o TDAH e como integrar essas estratégias para que o tratamento tenha a maior efetividade possível.
O que realmente ajuda no dia a dia?
Dentre as dificuldades vivenciadas pelas pessoas com TDAH para além da falta de atenção estão questões como desorganização, má gestão de tempo, dificuldade com rotinas, entre outros.
Essas dificuldades levam a uma série de consequências bastante prejudiciais em suas vidas pessoais, nos seus relacionamentos e no âmbito profissional ou acadêmico.
Saiba mais: Consequências do TDAH adulto não tratado
Tais desafios não são automaticamente resolvidos pela medicação para TDAH. Por isso, o tratamento deve envolver também aprender técnicas e estratégias para suprir esses déficits no dia-a-dia.
Em um primeiro momento, a psicoeducação merece destaque. Esse termo se refere à compreensão do transtorno, das dificuldades causadas por ele, bem como quais estratégias podem ser tentadas para lidar com essas limitações.
A psicoeducação pode ser feita em casa, tendo contato com materiais de qualidade como livros escritos por profissionais da saúde mental especializados em TDAH, ou pode ser feito com a ajuda de um psiquiatra, psicoterapeuta ou até mesmo terapeuta ocupacional.
O paciente também precisará aprender técnicas e estratégias de organização, manejo de tempo e autorregulação para lidar com os demais desafios trazidos pelo TDAH. Isso pode ser feito por meio da psicoterapia com um psicólogo especializado em déficit de atenção.
O tratamento não medicamentoso funciona mesmo?
Embora o tratamento com medicamentos estimulantes seja o padrão ouro no tratamento do TDAH, existem diversas questões que a medicação não é capaz de resolver por si só.
Neste sentido, o tratamento medicamentoso entra como um complemento para ajudar a lidar com uma série de outros problemas causados pelo TDAH, como a procrastinação e as dificuldades de regulação emocional.
Saiba mais: Além do óbvio: as faces menos conhecidas do TDAH
Uma pesquisa publicada em 2025 no periódico científico Psychology and Psychotherapy buscou analisar os efeitos dos tratamentos não medicamentosos ao separar os pacientes em vários grupos que recebiam uma mistura de tratamentos e eram comparados a um grupo controle que recebia apenas o tratamento medicamentoso.
A medicação foi usada em todos os grupos, mas os tratamentos não medicamentosos variavam de grupo para grupo. Ao todo, foram 3 combinações diferentes de tratamento:
- Medicação e terapia cognitivo-comportamental (TCC);
- Medicação e programa de treinamento de pais (intervenção familiar);
- Medicação, TCC e programa de treinamento de pais.
Quando comparadas com o grupo que fazia tratamento apenas com a medicação, constatou-se uma redução significativamente maior nos sintomas nucleares de desatenção, hiperatividade e impulsividade e uma melhora no funcionamento global (comportamento e desempenho), conforme relatado pelos pais/professores.
Enquanto isso, o grupo controle, que fazia tratamento somente com medicação, continuava apresentando um impacto funcional elevado.
Quais são as psicoterapias com evidências?
Existem diversas abordagens de psicoterapia e muitas delas podem funcionar para diversas questões, no entanto existem algumas abordagens que possuem um maior número de evidências de eficácia para TDAH.
Dentre elas, estão:
Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)
A terapia cognitivo-comportamental (TCC) é uma terapia que tem como objetivo identificar e corrigir padrões de pensamento e comportamento que podem estar causando prejuízos no dia-a-dia e na saúde mental.
Inicialmente, a TCC era muito usada no tratamento de transtornos de humor. Contudo, seu funcionamento prático se mostrou útil para tratar uma série de transtornos, incluindo o TDAH.
Atualmente, a TCC pode ajudar uma pessoa com TDAH ao auxiliar com problemas como desorganização, procrastinação e gerenciamento de tempo, por exemplo. Além disso, ela também pode ajudar a lidar com o impacto emocional que essas dificuldades acabam causando no dia-a-dia.
Treino de habilidades
O treino de habilidades não é uma abordagem de psicoterapia em si, mas tende a ocorrer dentro de algumas abordagens mais focadas no comportamento, como a própria TCC ou terapias comportamentais.
No caso do TDAH, o treinamento de habilidades é focado em maneiras de melhorar a função executiva, um aspecto da cognição bastante prejudicado no transtorno.
Saiba mais: Função executiva e prejuízos nos transtornos mentais
As habilidades que podem ser treinadas incluem habilidades de organização e de autorregulação, como a regulação emocional e o controle de impulsos.
Intervenções familiares
Especialmente quando se trata de crianças e adolescentes, a intervenção com as famílias pode ser de grande ajuda no manejo dos sintomas do TDAH.
Nas intervenções familiares, os pais ou cuidadores da criança ou adolescente aprendem uma série de estratégias que ajudam com os sintomas do TDAH, como por exemplo o reforço positivo.
Desta forma, familiares podem auxiliar o paciente a manter a estrutura e a disciplina necessárias para seu funcionamento no dia-a-dia, o que por vezes é uma grande dificuldade para um indivíduo com TDAH conseguir fazer sozinho.

Mudanças no estilo de vida
Para além da medicação e da terapia, as mudanças no estilo de vida também podem ser de grande ajuda no manejo do TDAH. Adotar hábitos saudáveis e consistentes, bem como ter uma rotina estruturada tende a melhorar bastante os impactos do TDAH no dia-a-dia.
Dentre os hábitos saudáveis de grande importância estão o sono regulado e a prática de exercícios físicos rotineira, bem como uma alimentação equilibrada.
Um estudo publicado em 2025 no periódico científico Children revela que, em pessoas com TDAH, a prática rotineira de atividades físicas está relacionada a melhorias na função executiva, atenção sustentada e controle inibitório.
Além disso, exercícios diferentes podem ter impactos diferentes nas pessoas. Os exercícios aeróbicos moderados reduzem sintomas de desatenção, enquanto as atividades físicas de alta intensidade melhoram o controle dos impulsos. Por fim, exercícios coordenativos, como esportes com regras, dança e artes marciais, ajudam na flexibilidade cognitiva.
Neste mesmo estudo, ao avaliar o impacto do sono em pessoas com TDAH, constatou-se que hábitos de sono irregulares podem exacerbar sintomas de desatenção e impulsividade. Já crianças que não tem TDAH podem apresentar tais sintomas quando não possuem uma rotina de sono regulada, o que pode causar confusões na hora do diagnóstico.
Por conta disso, desenvolver hábitos de higiene de sono como horários regulares para dormir e acordar, ambiente adequado livre de estímulos externos que atrapalham o sono bem como evitar o uso de eletrônicos à noite são algumas recomendações para auxiliar no tratamento do transtorno.
Neste sentido, a alimentação também pode ter impacto. Pessoas com TDAH tendem a ter um maior consumo de carboidratos, podendo sofrer com déficits nutricionais que podem exacerbar os sintomas do próprio transtorno.
Outro hábito interessante é adotar um ambiente de trabalho ou estudos adequado, sendo este separado de ambientes de lazer e livre de distrações.
Quando e como usar a medicação com responsabilidade?
Os medicamentos para TDAH são o padrão ouro no tratamento de quadros de intensidade moderada a grave, em que a pessoa não consegue apresentar uma boa resposta a tratamentos com abordagens psicossociais.
Nestes casos, o psiquiatra deverá levar em consideração algumas questões antes de prescrever algum medicamento, como por exemplo idade, a presença de comorbidades, o histórico de saúde mental do paciente e seus familiares, entre outros.
Em geral, inicia-se o tratamento com algum medicamento estimulante e deve ser realizado um monitoramento semanal da eficácia e dos efeitos colaterais apresentados. Costuma-se iniciar o tratamento com a dose mínima e ir ajustando a dose conforme necessidade.
Existem diferenças individuais de resposta aos medicamentos e, portanto, um medicamento que funciona bem para uma pessoa pode trazer efeitos colaterais intoleráveis para outra. Neste sentido, existem diversas variações disponíveis no mercado e o psiquiatra poderá avaliar qual a medicação que tem menos chance de causar efeitos colaterais prejudiciais para o paciente.
O tratamento medicamentoso também pode ser feito com medicamentos não estimulantes, que costumam entrar na categoria de antidepressivos mas acabam tendo um efeito significativo nos sintomas do TDAH, embora geralmente mais fraco do que um estimulante.
Leia mais: Uso de estimulantes durante a gravidez: é seguro? Existem alternativas?
Quais são os primeiros passos pós-diagnóstico?
Após o diagnóstico do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, existem diversas maneiras de prosseguir. É recomendado que o tratamento se inicie com a psicoterapia, tendo como foco trabalhar as dificuldades relacionadas à função executiva.
Dentro da psicoterapia, pode ser realizada a psicoeducação e o treinamento de habilidades, bem como abordar questões menos aparentes como problemas de autoestima e dificuldades de regulação emocional.
Buscar mudanças nos hábitos de vida, adotando hábitos saudáveis, também deve ser considerado como parte do tratamento.
Quando se trata de crianças muito pequenas, essas abordagens psicossociais são de extrema importância no começo, uma vez que a medicação pode não ser uma alternativa nessa faixa etária.
Porém, posteriormente, caso a pessoa não consiga bons resultados com esses primeiros passos, pode-se entrar com a medicação para tratar os sintomas nucleares do TDAH, sendo interessante manter os tratamentos psicossociais em conjunto para maior eficácia.
É importante ressaltar que os medicamentos não curam o transtorno, mas ajudam a contornar os desafios no dia-a-dia. Uma expectativa realista do que o tratamento pode fazer é importante para uma adesão adequada ao tratamento.

Embora a medicação seja o padrão ouro no tratamento do déficit de atenção, a verdade é que apenas ela é insuficiente para lidar com todos os desafios que o transtorno traz. Se você está lidando com sintomas de TDAH e acha que poderia se beneficiar do tratamento, não hesite em buscar ajuda com um profissional da saúde mental!
Referências
Ahmet, B. H. et al. (2025). CBT, parent training, and combined approaches for children with ADHD: A randomized study. Psychology and Psychotherapy, 98(3). DOI: 10.1111/papt.70011.
Martín-Rodríguez, A. et al. (2025). The Role of Physical Activity in ADHD Management: Diagnostic, Digital and Non-Digital Interventions, and Lifespan Considerations. Children, 12(3): 338. DOI: 10.3390/children12030338.
Cortese, S. et al. (2018). Comparative efficacy and tolerability of medications for ADHD in children, adolescents, and adults: a systematic review and network meta-analysis. The Lancet Psychiatry, 5(9): 727–738. DOI: 10.1016/S2215-0366(18)30269-4.


