Vivemos em um mundo hiperconectado que requer que nossa atenção esteja em diversas tarefas simultaneamente, o que chamamos de multitasking, ou multitarefas.
Contudo, o que pesquisas das últimas décadas mostram é que esse conceito está mais para um mito do que uma realidade e que tentar fazer mais de uma tarefa ao mesmo tempo é prejudicial.
Entenda melhor o que é multitasking, porquê ele não funciona e quais os prejuízos que ele pode gerar em sua vida!
O que é multitasking?
Em teoria, multitasking (ou multitarefa) seria a capacidade de cumprir várias tarefas ao mesmo tempo. Ou seja, seria a capacidade de focar em mais de uma atividade simultaneamente.
Contudo, isso não é verdadeiramente possível. O que ocorre, na realidade, é que mudamos o nosso foco com uma velocidade tão rápida que chega a causar a impressão de que estamos focados em mais de uma tarefa por vez.
Na prática, isso significa que temos a capacidade de focar em apenas uma tarefa de cada vez e, toda vez que mudamos de atividade, precisamos reajustar nosso foco. O problema é que, embora nosso cérebro seja muito poderoso, ele ainda tem uma capacidade de processamento limitada.
Por conta disso, quando interrompemos o foco em uma tarefa para focar em outra, podemos acabar demorando mais para fazer esse reajuste da atenção, de forma a tornar o processo inteiro mais lento.
Em outras palavras, nossa performance fica prejudicada em ambas as tarefas.
Multitasking digital: efeitos na cognição
Em um mundo hiperconectado, frequentemente estamos em multitasking digital: prestando atenção em diversas telas ou, mesmo que seja em só uma tela, estamos frequentemente trocando entre aplicativos ou recebendo notificações que captam a nossa atenção.
Isso acaba gerando o mesmo efeito do multitarefas normal: a alternância do foco em diversas tarefas e estímulos diferentes.
O termo multitasking é muito utilizado na tecnologia se referenciando a essa capacidade que um aparelho têm permitir a troca de janelas e aplicativos, bem como as notificaçẽos etc. Contudo, os aparelhos eletrônicos também possuem uma coisa que nós não temos (ou, ao menos, não na mesma capacidade): a memória RAM.
A memória RAM permite que outros aplicativos e processos continuem abertos no plano de fundo enquanto um aplicativo está sendo ativamente usado. É por isso que conseguimos usar as redes sociais e deixar tocando uma música em um outro aplicativo, por exemplo.
Contudo, o nosso cérebro não tem essa mesma capacidade. Até temos uma coisa semelhante à memória RAM, chamada de memória de trabalho, mas o limite de armazenamento dessa memória é infinitamente inferior ao que um computador consegue fazer.
Sendo assim, quando trocamos de tarefa, é como se estivéssemos iniciando o aplicativo novamente. O cérebro acaba gastando uma grande quantidade de energia para conseguir retornar a uma atividade que estava sendo feita anteriormente e que foi interrompida por algum motivo.
Por conta disso, acabamos ficando mais lentos e geramos uma sobrecarga nas nossas capacidade cognitivas, o que prejudica imensamente nossa capacidade de raciocínio e de concentração, bem como gera estresse e cansaço.
Como o multitasking prejudica nossa performance?
Maiores chances de cometer erros
Ao alternar entre tarefas, é possível que algumas informações passem batidas ou haja dificuldade em selecionar as informações relevantes para a realização de cada tarefa.
Há pesquisas que mostram que pessoas adeptas a realizar várias tarefas ao mesmo tempo acabam cometendo mais erros e tem dificuldade em filtrar informações relevantes.
Estima-se que isso ocorre por uma sobrecarga no córtex pré-frontal, a parte do cérebro responsável pelo raciocínio lógico e que precisa “recalcular a rota” diversas vezes enquanto alternamos entre uma atividade e outra.
Estresse e desgaste mental
Como dito anteriormente, o multitasking acaba causando uma sobrecarga no córtex pré-frontal, o que pode levar a um desgaste mental e aumentar os níveis de estresse.
Vale ressaltar que até mesmo tarefas que parecem um pouco mais simples podem ter esse efeito. Um exemplo é checar a caixa de entrada do email rapidamente durante o expediente em um momento de concentração em alguma outra tarefa.
Isso ocorre porque, quando mudamos de atividade, o cérebro acaba engajando em uma série de funções cognitivas para conseguir focar na nova tarefa, como se estivesse realmente recalculando a rota.
Agora imagine que a cada mudança de tarefa, o cérebro precisa fazer tudo de novo, pois ele não tem uma capacidade muito grande de salvar a rota anterior para retornar a ela automaticamente quando você volta a alguma tarefa que estava realizando antes.
Utilizando a analogia do GPS, se você sair da rota a todo momento, chega uma hora que o aplicativo do GPS pode acabar travando de tanto precisar recalcular a rota. Quando estamos em multitasking, estamos fazendo o mesmo com nosso cérebro.
Como o multitasking afeta o aprendizado?
Além de todos os prejuízos na cognição citados anteriormente, o multitasking também pode afetar significativamente a nossa capacidade de aprender coisas novas.
Em geral, os seres humanos são bons em conseguir fazer novas tarefas, mesmo coisas que nunca fizeram antes. Porém, realizar uma tarefa apenas uma vez não significa que aprendemos de fato aquilo, até porque se fosse assim, não precisaríamos estudar ou treinar mais para melhorar nossas habilidades.
Contudo, estudos indicam que, quando tentamos aprender algo enquanto realizamos outras tarefas ao mesmo tempo, essa capacidade de aprender se torna prejudicada.
Um estudo publicado em 2022 no periódico científico Nature Reviews Neuroscience avalia os impactos do multitasking na generalização do conhecimento, ou seja, na capacidade que temos de aplicar o que já aprendemos em situações novas e diferentes. Em outras palavras, é quando conseguimos transferir nosso conhecimento de um contexto para outro.
Em geral, o aprendizado ocorre por meio de diversos sistemas no cérebro que permitem a compreensão de regras e associações. Podemos usar de exemplo quando vemos figuras que seguem um padrão e conseguimos adivinhar como será a próxima figura.
A generalização ocorre quando conseguimos formar conceitos abstratos a partir das regras e associações que fizemos previamente.
Por exemplo, se aprendemos que uma cadeira tem quatro pernas, uma superfície para sentar e um apoio para as costas, conseguimos reconhecer cadeiras independente se são cadeiras de mesa de jantar, de escritório ou de bar, que podem ser feitas de materiais completamente diferentes e terem designs muito diversos.
Outro exemplo é quando uma criança entende o que é um filhote de cachorro e a relação que ele tem com o cachorro adulto, e depois consegue perceber essa mesma relação entre um filhote de gato e um gato adulto sem que alguém precise explicar para ela.
Contudo, para que a gente consiga chegar nessa generalização, precisamos de foco. Porém, quando estamos em multitasking, não é possível sustentar o foco, tornando o processo de generalização mais difícil, especialmente em aprendizados mais complexos.
Em outras palavras, até conseguimos aprender coisas novas quando fazemos multitasking, mas não conseguimos generalizar para aplicar o conhecimento em outros contextos. Por conta disso, conseguimos usar aquele novo conhecimento adquirido somente nas mesmas situações em que o aprendemos.
No que tange o cérebro, diversas regiões cerebrais estão envolvidas nesse aprendizado, como o córtex pré-frontal, relacionado à nossa capacidade de planejamento, o hipocampo, relacionado à memória, entre outras.
Contudo, essas mesmas regiões também estão envolvidas no multitasking, fazendo com que o cérebro tenha uma maior dificuldade em processar o aprendizado quando estamos fazendo mais de uma coisa ao mesmo tempo. Dessa forma, nossa capacidade de generalização fica comprometida.
Quando não é multitasking?
Talvez você esteja se perguntando: já que não podemos focar em mais de uma coisa ao mesmo tempo, então como é que podemos fazer diversas coisas simultaneamente, como andar e conversar, tocar um instrumento e cantar, entre outros?
A resposta é que, nesses casos, grande parte do que estamos fazendo é algo que aprendemos a fazer de forma automática, ou seja, não precisamos realmente parar para focar na tarefa e pensar como estamos realizando aquilo.
Depois que uma pessoa aprende a andar, o movimento se torna automático. Portanto, ela não precisa focar no andar em si (embora precise prestar atenção no caminho que está traçando). Da mesma forma, ao aprender a tocar um instrumento, os movimentos realizados se tornam automáticos, permitindo que a pessoa possa também cantar.
Existem diversas atividades que acabamos aprendendo de forma automática e, por conta disso, podemos fazer essa atividade e mais outra simultaneamente.
Contudo, esses casos não são considerados “multitasking”, pois o termo se refere a realização de duas ou mais tarefas complexas ao mesmo tempo, como atender ligações e cuidar de planilhas simultaneamente, tentar cozinhar ao mesmo tempo em que ouve um podcast informativo, entre outros.

Quanto mais tarefas, pior o desempenho
O cérebro humano é incrível em diversos aspectos, mas ele ainda possui algumas limitações. A capacidade de processamento de informações não é infinita e, por conta disso, quanto mais informações temos para lidar, pior será o desempenho.
Imagine uma mãe ou pai que precisa cozinhar ao mesmo tempo em que cuida de um filho pequeno e ainda precisa estar atento aos e-mails do chefe e responder mensagens em aplicativos de mensagens instantâneas e redes sociais.
Qualquer pessoa que passou por algo assim sabe como esse cenário é estressante e que ter que fazer tudo isso ao mesmo tempo fez com que seu rendimento seja muito pior do que seria se pudesse focar em uma tarefa de cada vez.
É fato que, em grande parte dos casos, não temos muita escolha. As responsabilidades acabam se atravessando e precisamos dar conta de muitas coisas ao mesmo tempo. Ainda assim, a recomendação é tentar sempre deixar o que não for imediato para depois, para tentar ao menos não ter tanto prejuízo nas tarefas mais imediatas.
Familiaridade com as tarefas melhora o multitasking
Apesar de entendermos que o multitasking pode prejudicar a performance, é interessante ressaltar que a familiaridade com as tarefas pode ter um impacto também.
Pesquisas mostram que, quando uma pessoa está iniciando o multitasking em tarefas que nunca realizou antes, o tempo que ela demora para conseguir fazer a alternância da atenção é maior, e a chance de cometer erros também. À medida que se torna mais familiarizada com as tarefas, esse tempo diminui, mas não chega a zerar.
Em outras palavras, quanto mais familiarizada uma pessoa está com as tarefas que está fazendo, menores são os prejuízos do multitasking. Ainda assim existem prejuízos, eles só são um pouco menores.
Essa diminuição dos prejuízos não chega a ser uma justificativa para continuar com a prática do multitarefas.
Como diminuir a tentação ao multitasking?
Convenhamos: às vezes tentamos fazer várias coisas ao mesmo tempo não porque precisamos, mas porque parece mais proveitoso alternar entre uma tarefa extremamente chata e outra talvez não tão chata assim.
Contudo, como dito anteriormente, isso só prejudica a produtividade e pode acabar fazendo com que se demore ainda mais para finalizar aquela tarefa chata que precisa ser feita. Nestes casos, resistir à tentação do multitasking com outras atividades prazerosas é crucial.
Algumas dicas são:
Eliminar possíveis distrações do ambiente
Às vezes, o problema é o ambiente em que estamos. Acesso a distrações como televisão, celular e outras mídias pode atrapalhar bastante na execução de tarefas.
Porém, quando se trabalha do computador, eliminar distrações pode ser bastante complicado.
Algumas dicas são desligar as notificações da área de trabalho, bloquear temporariamente o acesso a sites que tragam distrações (como redes sociais ou sites de notícias), evitar deixar a aba do e-mail aberta a menos que seja estritamente necessário, entre outros.
Fazer uma lista de tarefas para organizar melhor o dia
Às vezes, o multitasking não ocorre apenas fazendo mais de uma tarefa, mas quando estamos também pensando em outras tarefas que precisamos fazer. Isso ocorre porque o ato de planejar e organizar tarefas acaba sendo uma tarefa em si, mesmo que ele ocorra inteiramente em nossas mentes.
Por isso, para evitar que esse processo prejudique a concentração, é interessante, antes de iniciar uma tarefa complexa, deixar registrado em algum lugar uma lista de tarefas a serem realizadas ao longo do dia, de forma que o planejamento e o gerenciamento de tempo não sejam preocupações capazes de causar distrações durante a execução de uma atividade específica.
Quebrar as atividades em tarefas menores
Quando se trata de tarefas complexas e trabalhosas que podem demorar até mesmo horas para terminar, é interessante quebrá-la em diversas mini-tarefas.
Desta forma, ao invés de se concentrar em uma grande tarefa complexa, você pode se concentrar em cada mini-tarefa por vez, poupando os recursos de processamento do cérebro. Além de diminuir as chances de você acabar apelando para o multitasking, você também tem mais noção do que já foi feito e do que ainda falta fazer.
Se você precisa, por exemplo, faxinar a casa, entender cada cômodo como uma mini-tarefa já ajuda. Se você tentar limpar a casa inteira de uma vez, acaba correndo o risco de se embolar na execução das tarefas e ter uma maior dificuldade em monitorar o que já foi feito e o que ainda falta fazer, abrindo espaço para deixar o trabalho não acabado e terminar o dia com sentimentos de frustração por não ter dado conta de tudo.
Agora, se você separar cada cômodo como uma mini-tarefa e quebrar a organização de cada cômodo em diversas etapas, o processo inteiro fica muito mais fácil. Além disso, caso não consiga terminar tudo no mesmo dia, já vai saber em quais cômodos precisará voltar no dia seguinte.
Fazer pausas sem checar redes sociais
Há estudos que mostram uma maior produtividade em pessoas que tiram pausas de cerca de 15 minutos a cada 2 horas. No entanto, essa pausa precisa ser uma pausa que permita que a mente divague, como por exemplo ao caminhar, ouvir uma canção, olhar pela janela, entre outros.
Recomenda-se evitar checar as redes sociais, pois elas apenas prejudicam ainda mais a questão de atenção. Com cada postagem curta, o seu cérebro tenta focar em diferentes contextos várias vezes durante um mesmo minuto, o que causa os mesmos efeitos do multitasking.

Em tempos de precisar fazer muitas coisas simultaneamente, talvez seja interessante tentar dar um passo para trás (dentro do possível, claro) e focar em uma tarefa de cada vez.
Se você sente que está tendo problemas de foco e produtividade, não hesite em buscar a ajuda de um profissional da saúde mental!
Referências
Garner, K. G. & Dux, P. E. (2022). Knowledge generalization and the costs of multitasking. Nature Reviews Neuroscience, 24: 98–112. https://doi.org/10.1038/s41583-022-00653-x
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Loh, K. K., & Kanai, R. (2014). Higher media multi-tasking activity is associated with smaller gray-matter density in the anterior cingulate cortex. PloS one, 9(9), e106698. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0106698
Uncapher, M. R., & Wagner, A. D. (2018). Minds and brains of media multitaskers: Current findings and future directions. Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America, 115(40), 9889–9896. https://doi.org/10.1073/pnas.1611612115


