A infância é uma fase de desenvolvimento não apenas do corpo e da cognição, mas também das bases para uma saúde mental equilibrada.
Nos primeiros 5 a 7 anos de vida, a criança tende a aprender narrativas que levam para a vida inteira. Essas narrativas dizem respeito a si mesmas, quem são, como o mundo funciona e o que pode ser esperado das outras pessoas.
Isso ocorre porque, nos primeiros anos de vida, a criança está tendo suas primeiras experiências com o mundo e, a depender das vivências que passa, acaba desenvolvendo essas narrativas para fazer sentido do que está vivendo.
Nem sempre essas narrativas são realistas, mas são a melhor maneira que uma criança conseguiu fazer sentido da sua realidade.
Por ocorrerem em uma fase tão cedo no desenvolvimento, essas narrativas tendem a se cristalizar como verdades absolutas, sendo difícil perceber que são apenas formas de interpretar os fatos.
Desta forma, vivemos nossa vida de acordo com essas narrativas sem nem mesmo perceber o quanto elas influenciam nossos pensamentos e percepções, bem como nossas decisões.
Nem todas as narrativas são negativas, porém neste texto iremos focar nas narrativas prejudiciais mais comuns, como elas surgem e como podemos preveni-las.
As narrativas prejudiciais mais comuns
“É tudo culpa minha”
O egocentrismo é uma característica natural da mente infantil, considerando os estágios do desenvolvimento mental postulado por Jean Piaget.
Neste sentido, é comum que crianças tenham dificuldades em entender as motivações e experiências de outras pessoas, traçando a origem de tudo para si mesmas.
Quando, neste momento, acontece algo ruim, a criança pode presumir que é a causadora daquele problema.
Isso é especialmente verdade quando a situação desfavorável é causada pelos pais ou cuidadores: quando os pais são negligentes, ou quando estão se divorciando.
A criança tende a entender que isso ocorre porque ela está causando os problemas na vida dos pais de alguma forma, pois não consegue entender que os pais estão ausentes por causa de sobrecarga no trabalho ou de outros familiares, ou que os pais estão se separando por incompatibilidades do próprio casal.
Além disso, é comum que crianças tendam a ver seus pais e cuidadores como figuras semi-perfeitas, incapazes de errar. É um mecanismo de defesa porque a vida de uma criança depende de seus pais e cuidadores, então ela precisa entendê-los como perfeitamente capazes de cuidar de todas as suas necessidades.
Portanto, quando os pais falham, a criança não atribui a culpa aos pais, mas entendem que, de alguma forma, foram elas que fizeram os pais falharem.
“Sou uma criança ruim” ou “Não sou amável”
Essa narrativa está relacionada ao sentimento de vergonha, que pode surgir da narrativa anterior (de que tudo é culpa da criança) ou pode surgir a partir de interações com adultos que fazem com que a criança se sinta envergonhada com frequência.
Um exemplo é se a criança está pedindo alguma coisa e o adulto responsável fala “você está sempre reclamando, qual é o seu problema?”. Essa frase acaba apontando o comportamento da criança simultaneamente como um problema e como uma característica inata dela, como se ela fosse sempre assim e, portanto, seria uma criança ruim ou defeituosa de alguma forma.
“Estou sozinho”, “as pessoas não gostam de mim”, “serei rejeitado”
Esse tipo de narrativa se desenvolve quando a criança vivencia muitos distanciamentos na relação com os pais ou cuidadores.
Tais distanciamentos podem acontecer por diversos motivos, como por exemplo trabalho, necessidade de viajar com frequência, ou até mesmo questões mais complexas como uma indisponibilidade pode conta de vício em substâncias, por exemplo.
Embora isso não signifique que os pais estejam de fato rejeitando a criança, ela ainda não consegue conceber outras perspectivas e acaba interpretando essas ausências como uma rejeição.
Essa narrativa pode ser ainda mais intensa caso a criança já tenha formado as duas narrativas anteriormente citadas (“é tudo minha culpa”, “não sou amável”).
“Evite raiva e conflitos custe o que custar”
A base dessa narrativa é a de que a raiva não é uma emoção segura, sendo algo que leva as pessoas a perderem o controle e destruir relações.
Contudo, isso é verdade apenas em partes. Isso porque a raiva, em si, é só uma emoção. O que faz com que ela seja tão devastadora são as ações que as pessoas tomam a partir dela, como por exemplo gritar, ficar agressivo, etc.
Existem formas mais saudáveis de lidar com a raiva, mas se a criança cresce em um lar no qual a raiva acaba sendo destrutiva, ela pode não ter noção de que é um sentimento que pode ser expressado de outras formas e, portanto, passa a evitá-lo custe o que custar.
O problema é que isso leva à repressão da raiva, o que acaba sendo menos efetivo e mais prejudicial do que aprender a expressá-la de uma forma saudável.
“Sentimentos são assustadores”, “não quero ter sentimentos”
Em geral, os sentimentos são bastante intensos para crianças. Elas podem vivenciar suas emoções como forças esmagadoras que não conseguem tolerar muito bem, necessitando da ajuda dos pais ou de algum adulto para ajudá-las a regular suas emoções.
Contudo, se os pais ou cuidadores têm dificuldades em regular as próprias emoções, isso pode fazer com que a criança entenda que sentimentos são sempre assustadores e esmagadores, pois mesmo os adultos em sua vida não conseguem lidar muito bem com eles.
Crianças tendem a generalizar as coisas, de forma que entendem que qualquer emoção pode ser demais para lidar, aprendendo então a reprimir o que sentem. Contudo, emoções reprimidas tendem a voltar com maior intensidade, reforçando a ideia de que emoções são perigosas, assustadoras e podem levar à perda de controle.

“Minhas necessidades não são importantes”
Quando uma criança tem suas necessidades não atendidas com uma certa frequência, ela passa a entender que suas necessidades não são importantes ou que ela é necessitada demais, gerando a ideia de que iria afastar os outros por “ser demais”.
A realidade é que, grande parte das vezes, os pais não conseguiam atender às necessidades da criança por fatores externos, como por exemplo um outro familiar com necessidades especiais, ou quando alguma outra situação mais urgente acabava chamando mais a atenção dos pais com certa frequência.
Independente do motivo, quando suas necessidades não são atendidas com frequência, a criança desenvolve essa narrativa de que suas necessidades são demais e tendem a criar expectativas errôneas sobre o que podem esperar dos outros.
“Se eu tiver o controle de tudo, não terei medo”
Essa narrativa surge de sentimentos de impotência que a criança sente ao longo de seu desenvolvimento. Esses sentimentos são completamente normais, considerando que as crianças realmente ainda estão desenvolvendo sua autonomia.
Contudo, quando esses sentimentos não são bem elaborados, a criança pode sentir que precisa ter o controle de tudo para conseguir lidar com esse sentimento de impotência.
Como evitar que as crianças desenvolvam essas narrativas
Infelizmente, grande parte das narrativas prejudiciais que as crianças desenvolvem estão relacionadas às dificuldades que a própria criança tem de compreender o mundo, e não necessariamente ao que os pais fazem ativamente.
Contudo, isso não quer dizer que não há nada a ser feito. Existem algumas formas de ajudar as crianças a desenvolver narrativas mais saudáveis.
Algumas coisas que podem ser feitas são:
Nomeie as emoções
Quando uma criança desenvolve essas narrativas, é porque ela está tentando lidar com um estado emocional que ela ainda não compreende totalmente.
Desta forma, ajudar a criança a nomear as emoções que ela está sentindo é o primeiro passo para ajudá-la a se regular emocionalmente e, consequentemente, evitar de desenvolver narrativas prejudiciais.
Nomeie a narrativa
Quando uma narrativa já está sendo formada, os pais ou cuidadores podem ajudar a desafiar essa narrativa falando explicitamente sobre ela.
Se uma criança está desenvolvendo uma narrativa de rejeição por conta da ausência dos pais/cuidadores, por exemplo, é possível intervir falando “eu sei que você acredita que eu não passo tempo com você por sua causa, mas a verdade é que o trabalho me mantém muito ocupado. A verdade é que eu adoraria passar mais tempo com você”.
A ideia é ajudar a criança a perceber que a narrativa que está se formando em sua mente não é necessariamente realista, e substituir a narrativa por algo mais condizente com a realidade.
Movimentos de reparação
Independente do motivo pelo qual as narrativas se formam, a verdade é que elas surgem de momentos em que a criança vivencia uma desconexão com os pais ou cuidadores.
Quando isso ocorre, são necessários movimentos de reparação para manter a saúde da relação.
Alguns passos para realizar esses movimentos de reparação são:
- Descreva o que aconteceu pela perspectiva da criança;
- Escute e valide as emoções da criança;
- Admita sua responsabilidade sobre o que ocorreu, mesmo que, para você, seja algo que não faz sentido porque não é sua culpa (por exemplo não tem tempo para a criança por trabalhar em dois empregos);
- Descreva um plano para mudança (tente fazer acordos de passar mais tempo junto no final de semana, ou trabalhar na sua própria regulação emocional, por exemplo);
- Esclareça qualquer desentendimento que a criança possa estar tendo.

A maneira que entendemos o mundo, nós mesmos e nossas relações acaba sendo muito influenciada pelas experiências que vivemos durante a infância, e a maneira que fazemos sentido do que aconteceu.
Se você percebe que se identifica com alguma das narrativas aqui citadas, mesmo na idade adulta, saiba que não é sua culpa e que existe tratamento. Não hesite em procurar um profissional da saúde mental!
Referências
https://www.psychologytoday.com/us/blog/a-deep-dive-into-narratives/202502/the-7-most-common-unhealthy-narratives-in-children
https://www.psychologytoday.com/us/blog/a-deep-dive-into-narratives/202502/how-to-prevent-unhealthy-narratives-in-your-child


