O que é brain rot e como consumo de mídias sociais podem impactar nossa mente

Consumo exagerado de mídias rápidas pode ter impacto na cognição. Saiba mais aqui!

Eleita palavra do ano pela Oxford, o “brain rot” (apodrecimento cerebral, em tradução livre) chama a atenção para a maneira que engajamos com a mídia moderna. Esse termo se refere a um possível malefício cognitivo do consumo exacerbado em mídias sociais, mas será que isso acontece de fato?

Neste texto, vamos explorar o fenômeno do brain rot e esclarecer de que forma ele pode ter efeitos na nossa cognição, bem como maneiras de melhorar a relação com o consumo de mídias.

O que é brain rot?

Traduzido como apodrecimento cerebral, o brain rot é um termo que se refere ao sentimento de “névoa mental”, caracterizado por dificuldade para pensar, esquecimento, dificuldades de foco e falta de clareza mental, que está associado ao uso prolongado de telas.

O termo surgiu mais como uma piada pelo consumo exagerado de mídias rápidas, como os reels do Instagram ou os vídeos curtos do TikTok, se tornando também sinônimo de mídias que têm apenas um efeito cômico rápido mas que não necessariamente exigem algum engajamento mental, como por exemplo memes e vídeos de inteligência artificial de um tubarão com pernas usando tênis e dançando uma música famosa.

A ideia por trás do brain rot é que o estímulo constante dos vídeos curtos, das redes sociais e seus updates rápidos, podem estar afetando nossa capacidade de atenção, bem como nossa memória e até mesmo o jeito que processamos informações.

Há quem considere brain rot também quando tendências e piadas da internet e de redes sociais acabam infiltrando a vida real, fazendo as pessoas usarem gírias da internet no dia-a-dia, independente do contexto e com quem estão conversando. Ao conversar com pessoas que não estão constantemente conectadas, a comunicação acaba defasada por conta desses termos.

Embora o termo seja mais comumente usado pelas gerações mais novas, a ideia de que o consumo exagerado de mídias rápidas e de baixo engajamento cognitivo pode prejudicar nossa cognição tem seus reflexos em todas as idades.

Qual a ciência por trás do brain rot?

Apesar do termo ter surgido como uma piada, ele tem um fundo de verdade. O nosso cérebro é programado para buscar novidades, mesmo que sejamos pessoas mais reservadas.

Todas as vezes que, nas redes sociais, recebemos uma curtida, ou assistimos a um vídeo engraçado, ou ficamos sabendo de alguma novidade quentíssima, o cérebro ativa o sistema de recompensa e libera dopamina, um neurotransmissor relacionado à motivação.

Com isso, desenvolvemos a tendência de repetir essas ações, fazendo com que fiquemos mais tempo nas redes sociais em busca desses estímulos.

O problema é que, com o tempo, nosso cérebro começa a ter dificuldade em realizar atividades que exigem um maior sustento da atenção e nas quais não existem recompensas imediatas, como é o caso de estudos e trabalhos extensos.

Existem dados que mostram que, ao longo dos anos, nossa capacidade de atenção tem, de fato, diminuído. Publicado em 2023, o livro Attention Span da psicóloga americana Gloria Mark traz alguns dados interessantes baseados em seu doutorado sobre o impacto das mídias digitais na vida das pessoas.

De acordo com suas pesquisas, a capacidade média de atenção às telas das pessoas em 2004 era de cerca de dois minutos e meio. Em 2012, essa capacidade caiu para 75 segundos. Por fim, em 2019, a capacidade caiu ainda mais para apenas 47 segundos.

Além da atenção, o consumo de mídias rápidas do tipo “brain rot” pode estar afetando também a nossa memória. Isso não é algo exclusivo do brain rot, mas do acesso irrestrito à internet em si.

Pesquisas mostram que o fato de termos acesso à internet a todo instante faz com que não precisemos mais memorizar coisas importantes, como datas, nomes, endereços, números de telefone, entre outros. Como podemos pesquisar rapidamente todas essas coisas, acabamos contando sempre com a internet ao invés de realmente tentar memorizar esses dados.

No que tange o brain rot especificamente, percebe-se que as pessoas estão se lembrando frequentemente das piadas e memes da internet, aplicando gírias da internet mesmo em contextos offline, o que demonstra que ao menos parte de tudo que consomem na internet no dia-a-dia está sendo armazenado em suas memórias.

É normal que haja diferença entre vocabulário e tendências entre gerações, então o fato das gerações mais novas estarem usando gírias diferentes não é necessariamente uma novidade. No entanto, com a velocidade em que os memes nascem e morrem na internet, a velocidade com que esse vocabulário e tendências mudam também é extremamente rápida.

Brain rot pode causar sobrecarga cognitiva?

O termo “sobrecarga cognitiva” se refere a quando o cérebro é exposto a uma quantidade muito grande de informações em pouco tempo e, com isso, pode ter dificuldades para processar tudo.

Embora grande parte do conteúdo caracterizado como “brain rot” não requeira muito engajamento cognitivo, ainda assim é possível chegar a um estado de sobrecarga cognitiva, considerando a velocidade e o volume de informações aos quais a pessoa é exposta enquanto está apenas rolando o feed de alguma rede social.

Como dito anteriormente, o termo também se refere às consequências desse hábito, como dificuldades de concentração, sensação de ter um névoa mental, entre outros. Tudo isso indica um estado de sobrecarga cognitiva.

Como evitar o brain rot

Se você está preocupado com o brain rot e seus efeitos, é possível evitar que o consumo de mídias rápidas acabe causando esses prejuízos. Algumas dicas são:

Limite o tempo de redes sociais

O problema não é necessariamente usar redes sociais e consumir conteúdos “bobos”, mas sim quando isso é feito em excesso. Portanto, limitar o tempo nas redes sociais pode ajudar a combater os efeitos do brain rot.

Engajar intencionalmente

A intencionalidade é uma grande aliada no combate ao brain rot, pois ao engajar intencionalmente em alguma atividade, o engajamento cognitivo também é maior.

Ao invés de ficar rolando feeds intermináveis na internet, podemos escolher entrar em um site de notícias para ver as novidades. Também é possível trocar os vídeos curtos que chegam até você por meio de um algoritmo por procurar intencionalmente algum criador que você gosta e assistir seu conteúdo (por tempo limitado, claro), por exemplo.

Interagir de forma intencional com a internet pode fazer o uso das redes sociais não só menos prejudicial como também mais prazeroso.

Procure outras formas de lazer

Muitas vezes acabamos entrando nas redes sociais porque é uma forma rápida e fácil de encontrar lazer, especialmente nos dias em que estamos cansados e não temos energia para fazer outras coisas.

No entanto, é interessante buscar outras formas de lazer para variar as atividades no dia-a-dia, ao invés de sempre voltar para a internet.

Praticar algum esporte, assistir filmes, ler livros, jogar algum jogo, são todas atividades de lazer que requerem uma atenção sustentada por maior tempo e, por isso, podem ajudar a combater os efeitos do brain rot.

Desenvolva um hobby

Hobbies também são atividades que requerem uma maior capacidade de atenção e, por isso, podem ajudar a combater o brain rot, além de ocupar o tempo com algo produtivo e prazeroso.

Embora a internet tenha trazido maior acessibilidade a uma gama de informações e atividades que facilitam nossas vidas, às vezes é necessário ter cuidado com a quantidade e a qualidade do que consumimos online.

Se você sente que está com dificuldades de concentração e de memória e percebe que possui uma relação não muito saudável com a internet, busque ajuda com um profissional da saúde mental.

Referências

Firth, J. A., Torous, J., & Firth, J. (2020). Exploring the Impact of Internet Use on Memory and Attention Processes. International Journal of Environmental Research and Public Health, 17(24), 9481. https://doi.org/10.3390/ijerph17249481

https://www.unitedwecare.com/brain-rot-is-modern-media-really-rewiring-our-minds/113260/
https://psychuniverse.com/brain-rot/
https://corp.oup.com/news/brain-rot-named-oxford-word-of-the-year-2024/
https://www.apa.org/news/podcasts/speaking-of-psychology/attention-spans

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