O termo “burnout” é mais popularmente conhecido por conta da síndrome de burnout, um transtorno relacionado à saúde ocupacional que acaba prejudicando a pessoa para além do trabalho. No entanto, você sabia que o burnout pode ocorrer em outras esferas da vida?
É o caso do burnout materno, que acomete mães e demais cuidadores primários de uma ou mais crianças, que frequentemente precisam dar conta de todas as suas responsabilidades diárias, como trabalho, alimentação, cuidados com a casa, entre outros, além de cuidar das necessidades físicas e emocionais das crianças.
Neste texto, falaremos sobre o burnout materno, como ele se manifesta, quais os fatores de risco e como preveni-lo.
O que é burnout materno?
Acometendo cerca de 20% das mães e cuidadores primários de bebês e crianças, o burnout materno é mais do que apenas cansaço ou até mesmo aquela exaustão que vem vez ou outra quando temos uma rotina agitada. Trata-se de uma fadiga persistente, que não melhora mesmo depois de uma boa noite de sono ou de um final de semana relaxante.
O burnout materno também é chamado de síndrome da mãe esgotada. Contudo, as mães não são as únicas afetadas pelo problema. Ele pode acontecer com qualquer cuidador primário de uma ou várias crianças. Em outras palavras, também pode ocorrer nos pais, avós, tios, entre outros familiares que tem como função cuidar das necessidades da criança todos os dias.
Pessoas que sofrem de burnout materno frequentemente apresentam sentimentos de desconexão de si mesmas, das crianças, da família e dos amigos. Há também a sensação de estar sempre no piloto automático ao invés de estar de fato presente na criação dos pequenos.
Frequentemente, o burnout materno vem acompanhado de uma autocobrança de performar melhor. A pessoa sente que não está sendo uma mãe ou cuidador bom o suficiente, que não está dando de conta de tudo e que deveria conseguir, quando, na realidade, cuidar de uma criança é realmente bastante cansativo e é normal não dar conta de absolutamente tudo.
Por fim, o burnout materno também acaba prejudicando a percepção da pessoa em relação às suas realizações. Em outras palavras, uma mãe em burnout pode ter dificuldade de sentir que conseguiu cuidar das crianças, embora tenha, de fato, cuidado das suas necessidades o dia inteiro. Pode sentir que não fez o suficiente, ainda que tenha feito muitas coisas.
Tudo isso acaba prejudicando não só o humor e a saúde mental e física, mas também a própria produtividade e capacidade de continuar providenciando os cuidados necessários das crianças.
Fatores de risco
O burnout materno possui alguns fatores de risco. São eles:
- Ser mulher, pois geralmente os cuidados primários das crianças recaem sobre as mães, avós ou tias;
- Ser dona de casa em tempo integral, que frequentemente não tem seu trabalho socialmente reconhecido;
- Ser mãe de primeira viagem;
- Ter mais de uma criança para cuidar;
- Cuidar de uma criança com doença crônica ou deficiência;
- Ter expectativas irrealistas acerca da parentalidade;
- Traços de personalidade como neuroticismo e perfeccionismo;
- Conflitos no relacionamento com o outro cuidador da criança.
Apesar de parecer, ser mãe solteira não necessariamente aumenta as chances de burnout materno. Estima-se que isso ocorre pois a sociedade reconhece que cuidar de uma criança sem a presença do outro genitor é difícil e, por conta disso, essas pessoas acabam recebendo mais ajuda externa de outros familiares e amigos do que pessoas que estão casadas ou moram junto com um parceiro.
Como reconhecer o burnout materno?
Sentir-se cansada no final do dia após cuidar das crianças e de todas as responsabilidades é completamente normal. No entanto, o burnout materno é caracterizado por sintomas que vão além do cansaço esperado para mães e cuidadores nesse estágio da vida. Alguns desses sintomas são:
- Fadiga crônica, caracterizada por uma exaustão debilitante e persistente que não se resolve mesmo após descansar;
- Perda de interesse por atividades que gostava de fazer antes, incluindo hobbies, socialização com amizades, entre outros;
- Irritabilidade frequente, incluindo se estressar com coisas que antigamente nem ligava ou que eram apenas incômodos pequenos;
- Oscilações de humor;
- Sentimentos de vazio e de distanciamento de si mesma, da família e dos amigos;
- Isolamento;
- Mudanças no apetite;
- Mudanças nos padrões de sono, incluindo insônia ou hipersônia (dormir excessivamente);
- Sentimentos persistentes de sobrecarga ou inadequação, sentindo que todos seus esforços não são o suficiente e que nunca consegue fazer tudo que precisa;
- Sentimentos de culpa e autocrítica por não cumprir com as expectativas de parentalidade, que frequentemente são irrealistas;
- Dificuldades de concentração;
- Sintomas físicos, como dores de cabeça e problemas gástricos por conta do estresse crônico.

Quais os impactos do burnout materno?
O burnout materno impacta diretamente a saúde mental da mãe ou cuidador. O estresse constante pode influenciar o desenvolvimento de transtornos mentais como depressão e ansiedade.
Dificuldades em dar conta de todas as responsabilidades podem gerar sentimentos de inadequação e insuficiência, prejudicando imensamente a autoestima.
Para além disso, o burnout materno acaba tendo impacto na própria criação dos filhos.
Mães e cuidadores que estão em burnout estão frequentemente sobrecarregados e estressados, o que pode prejudicar na sua capacidade de cuidar das necessidades emocionais das crianças. Não é raro que pessoas em burnout acabem se irritando com coisas que antes não irritavam ou não tenham paciência com as necessidades dos pequenos.
Há também casos em que a mãe/cuidador acaba ressentido a criança por conta do estresse crônico, prejudicando imensamente a qualidade da relação.
Mães e cuidadores em burnout materno frequentemente questionam suas decisões, podendo até mesmo chegar ao arrependimento de ter filhos, mesmo que eles tenham sido planejados.
Como prevenir e se recuperar do burnout materno?
As medidas para se prevenir e se recuperar do burnout materno são praticamente as mesmas e envolvem conseguir prestar mais atenção em si mesma, permitindo-se ter momentos de descanso e de lazer. Algumas dicas são:
Priorize o autocuidado
Devido aos sentimentos de culpa, às vezes pode ser difícil nos permitir separar um tempo na rotina para autocuidados. No entanto, o autocuidado é fundamental para manter a saúde física e mental, sendo indispensável tanto para prevenir o burnout materno quanto para combatê-lo quando ele já se desenvolveu.
Reserve um tempo para si mesma todas as semanas
Para além do autocuidado, é necessário ter um tempo para si mesma, para se dedicar ao seu próprio lazer e hobbies. O ideal é que tenhamos esse tempo todos os dias, mas ao ter que dar conta de crianças, da casa e do trabalho, talvez isso não seja possível.
Contudo, ainda é importante separar um tempo quando possível, mesmo que seja uma vez na semana. Portanto, tente reservar um tempo para si ao menos uma vez todas as semanas.
Compartilhe responsabilidades
Embora exista essa ideia de que devemos dar conta de tudo sozinhas, a verdade é que podemos sim contar com as outras pessoas para nos ajudar vez ou outra. Tente compartilhar as responsabilidades do dia-a-dia com outras pessoas quando possível, nem que seja algumas responsabilidades mais simples como ir ao mercado comprar algo que está faltando, fazer uma ligação para marcar médico ou até mesmo pedir uma ajuda com a faxina da casa vez ou outra.
Tenha uma rede de apoio
O conceito de rede de apoio se refere a um grupo de pessoas e instituições que podem promover apoio quando necessário. Isso inclui familiares, amigos, profissionais da saúde, profissionais do cuidado, entre outros.
A rede de apoio é fundamental para a manutenção da saúde mental, independente do momento de vida em que a pessoa está, mas pode fazer toda a diferença no momento da criação de filhos, especialmente quando eles ainda são muito pequenos.
O burnout materno pode fazer com que a pessoa acabe se isolando socialmente, mas é importante buscar o contato com a rede de apoio tanto para ajudar com questões práticas do dia-a-dia quanto para ajudar com questões emocionais.
Buscar ajuda profissional
Se mesmo aplicando todas as dicas anteriores, você sentir que ainda está com problemas na saúde mental e no papel de mãe ou cuidador, pode ser a hora de procurar ajuda profissional.
Um médico psiquiatra poderá identificar se existe alguma outra condição que possa estar prejudicando seu dia-a-dia, como transtornos mentais como ansiedade, depressão, entre outros, e pode receitar um tratamento eficaz que pode devolver grande parte da qualidade de vida.
Fazer acompanhamento com um psicoterapeuta também pode ajudar a lidar com padrões de pensamento e comportamento que podem estar contribuindo para o burnout materno, como expectativas irrealistas de parentalidade, dificuldades em estabelecer limites e dificuldades em delegar tarefas.

Cuidar de crianças é uma tarefa bastante desafiadora e que requer muito do nosso tempo e energia, porém é possível evitar que tudo isso acabe nos desgastando completamente.
Se você cuida de crianças e se identifica com os sintomas citados neste texto, não hesite em buscar ajuda de um profissional da saúde mental!
Referências
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Séjourné, N., Sanchez-Rodriguez, R., Leboullenger, A., & Callahan, S. (2018). Maternal burn-out: an exploratory study. Journal of Reproductive and Infant Psychology, 36(3), 276–288. https://doi.org/10.1080/02646838.2018.1437896
https://www.theguardian.com/lifeandstyle/2023/may/22/exhausted-disconnected-and-fed-up-what-is-parental-burnout-and-what-can-you-do-about-it


