A ciência está sempre buscando novas formas de tratamento para diversas condições e, dentre elas, a dependência química tem se mostrado uma das condições mais necessitadas de tratamentos eficazes.
Por conta disso, há diversos estudos avaliando o efeito de substâncias psicodélicas, que geralmente não causam dependência química (mas podem causar dependência psicológica), no combate à dependência de drogas consideradas “pesadas” como a cocaína, o crack, entre outros.
Este é o caso da ibogaína, uma raiz de uma árvore africana que possui uso ritual, mas que tem mostrado resultados interessantes no quesito tratamento de dependência química.
O que é Ibogaína?
Ibogaína é o princípio ativo da raiz de uma árvore chamada Iboga (Tabernanthe iboga), nativa da África Central. Trata-se de uma substância alucinógena, frequentemente usada em contextos religiosos, mas que vem sendo estudada pelos seus potenciais efeitos terapêuticos.
No Brasil, a substância ainda não é liberada pela Anvisa para uso terapêutico. No entanto, pesquisas apontam para um efeito terapêutico interessante no tratamento da dependência química.
A ideia do uso de uma substância psicoativa para tratar dependência química parece contraintuitiva, mas não é uma ideia nova. Até mesmo Freud, pai da psicanálise, teve um momento em que tratava pacientes viciados em ópio com cocaína. O problema é que, no caso de Freud, ele só substituiu um vício pelo outro.
Com substâncias alucinógenas, o resultado é um tanto diferente. No caso da ibogaína, seu efeito contra crises de abstinência foi descoberto já em 1962 por um jovem usuário, chamado Howard Lotsof, que experimentou a substância junto com alguns amigos. Depois dessa experiência, 5 dos 7 amigos de Howard ficaram limpos (ou seja, sem usar drogas) por pelo menos 6 meses.
Na França, a ibogaína já fez parte do princípio ativo de um antidepressivo, chamado Lambaréné, comercializado entre 1939 e 1970. Contudo, o medicamento trazia um risco de efeitos colaterais graves, como arritmias cardíacas, o que fez com que parasse de ser utilizado.
O uso ritual da ibogaína é feito em países da África Central como o Gabão, Camarões, Angola e Congo. Nestes rituais, estima-se que a substância ajude na comunicação com espíritos e antepassados.
Como é o efeito da ibogaína?
A ibogaína é uma substância alucinógena, também chamada de “psicodélica”. Seus efeitos são bastante variáveis, mas em geral são:
- Alucinações visuais e auditivas;
- Sensação de estar desprendido do próprio corpo;
- Sensação de estar sonhando acordado;
- Distorções visuais (diferentes das alucinações, pois são apenas distorções de coisas que estão lá de fato).
Muitas pessoas relatam que, durante o uso da substância, sentem uma tendência a revisitar momentos importantes da vida, sejam eles bons ou ruins.
Há uma ênfase em revisitar momentos traumáticos e ressignificá-los a partir de diálogos internos ou até mesmo diálogos com entidades ou espíritos (que também seriam efeito da substância).
Vale ressaltar que, mesmo sob efeito da substância, a pessoa mantém o senso crítico preservado, ou seja, ela consegue saber o que é certo, o que é errado, o que faz bem, o que faz mal.
Por conta disso, muitas pessoas relatam que conseguem pensar melhor nas próprias ações, entender seus próprios erros e pensar em formas de consertá-los.
Como ocorre a ação da ibogaína no cérebro?
De acordo com pesquisadores, o efeito da ibogaína ocorre por conta do aumento da produção do fator neurotrófico derivado da glia (GDNF), uma proteína que faz parte dos fatores neurotróficos.
Os fatores neurotróficos são substâncias que ajudam no desenvolvimento, sobrevivência e diferenciação de neurônios, estejam eles em formação ou já maduros.
Com isso, é como se o cérebro reiniciasse, pois ocorre um reequilíbrio nos níveis de neurotransmissores como serotonina, dopamina, noradrenalina, ocitocina e adrenalina.
Saiba mais: Neurotransmissores: o que são? Quais são os principais?
Quando se trata do tratamento para dependência química, é como se o cérebro resetasse para um estado anterior ao uso das drogas, fazendo com que a pessoa não tenha mais tanta vontade de usar a substância da qual é dependente químico.
Evidências do tratamento com ibogaína
No que tange a questão das evidências da eficácia do tratamento, estamos em um momento bastante inconclusivo. As pesquisas ainda estão em um estágio bastante inicial.
Isso porque, apesar de ser uma substância com o uso popularizado desde os anos 60, na década de 70 os Estados Unidos proibiu o uso da ibogaína até mesmo para pesquisas por conta dos riscos associados à substância. Apenas a partir dos anos 2000 que foi possível retomar os estudos.
Um estudo brasileiro publicado em 2014 no Journal of Psychopharmacology pegou uma amostra de 75 pessoas com problemas de uso de álcool, cannabis, cocaína ou crack (sendo 72% da amostra poli-usuários, ou seja, pessoas que usam mais de uma substância), e percebeu que, após o tratamento com ibogaína, 61% dos participantes se mantiveram abstinentes (limpos) por cerca de 6 a 8 meses e não houveram efeitos colaterais sérios nem fatalidades.
Já um estudo da Nova Zelândia, publicado no periódico científico The American Journal of Drug and Alcohol Abuse em 2018, buscou observar o efeito do tratamento com ibogaína para dependência de opioides ao longo de 12 meses em 14 participantes.
Dos 14 participantes, um foi a óbito durante o tratamento. Contudo, nos outros participantes, uma única sessão de uso de ibogaína diminuiu significativamente os sintomas de abstinência, fazendo com que alguns tenham cessado totalmente o uso durante esses 12 meses, enquanto outros conseguiram diminuir o uso de forma consistente.
Por fim, um outro estudo, publicado no Journal of Psychedelic Studies em 2017, buscou compreender os efeitos subjetivos do tratamento com ibogaína, bem como seus efeitos no consumo de opioides.
A amostra consistia de 88 pacientes, dos quais 72% faziam o uso de opioides há 4 anos ou mais, e 69% relataram fazer o uso diário de opioides.
Após o tratamento, 80% dos participantes relataram que a ibogaína eliminou completamente ou reduziu drasticamente os sintomas de abstinência. 50% relatou diminuição da fissura (desejo incontrolável de usar a droga) e 25% disseram que esse efeito durou pelo menos 3 meses.
54% dos participantes conseguiram se manter limpos por ao menos 1 ano, enquanto 31% conseguiram manter-se abstinentes por ao menos 2 anos.
Mesmo havendo relapso, 48% dos participantes relataram que o uso foi diminuído em relação ao uso que faziam antes do tratamento, e 11% conseguiram voltar a manter-se abstinentes mesmo após o relapso.
Apesar dos números serem interessantes, ainda são necessários mais estudos para considerar a ibogaína um tratamento eficaz e seguro, o que pode demorar anos e até mesmo décadas.

Como seria o tratamento com ibogaína?
Quando se trata do uso da ibogaína como tratamento, este é feito com acompanhamento médico, geralmente de uma equipe multidisciplinar como psiquiatras, psicólogos e neurologistas.
A utilização da substância não é feita de qualquer maneira: é tudo feito em um ambiente controlado, usando uma dose controlada (na forma de chá, comprimidos ou até mesmo em sua forma natural de raíz), com o acompanhamento direto de profissionais da saúde mental.
O efeito da substância pode durar até 24 horas e seria necessário que ao menos um profissional da saúde mental estivesse presente durante todo esse tempo.
Depois, os profissionais da saúde mental também fariam um acompanhamento para conversar sobre o que foi visto e entendido durante a “viagem” do paciente.
Vale ressaltar que os estudos sobre os efeitos terapêuticos da ibogaína tem sido focado na dependência química de substâncias que possuem alcaloides como agentes, como é o caso da cocaína, do crack, da morfina e da heroína, por exemplo.
Efeitos adversos e riscos
O uso da ibogaína tem diversos riscos associados, incluindo o risco de vida.
Há diversos relatos de morte associados à administração da substância, pondo em cheque até que ponto seu uso é seguro e se o potencial terapêutico compensa os riscos.
Dentre os efeitos adversos que ocorrem durante o uso da ibogaína estão:
- Náuseas;
- Vômito;
- Agitação;
- Tontura;
- Ataxia (movimentos descoordenados);
- Tremores;
- Confusão mental;
- Dores de cabeça;
- Desidratação;
- Crises epilépticas;
- Arritmia cardíaca grave (torção das pontas);
- Parada cardíaca;
- Morte súbita.
Contraindicações
Existem algumas contraindicações para o uso da ibogaína. Como dito anteriormente, não se trata de uma substância totalmente segura, e algumas condições podem tornar seu uso ainda mais perigoso. São elas:
- Problemas cardíacos;
- Histórico de aneurismas ou derrames;
- Histórico de transtornos mentais com características psicóticas, como a esquizofrenia e o transtorno bipolar tipo 1;
- Uso de medicamentos ou consumo de alimentos metabolizados CYP-2D6 (sistema hepático responsável pela eliminação da ibogaína);
- Uso de medicamentos que provocam intervalo Q-T prolongado, como antipsicóticos e anti-histamínicos;
- Gestação;
- Cirurgia nos últimos 6 meses;
- Diabetes descontrolada;
- Hipertensão descontrolada;
- Insuficiência renal e hepática;
- Demências;
- Mal de Parkinson.
Viabilidade do tratamento com ibogaína
No momento, a Anvisa não liberou o uso da ibogaína para qualquer fim terapêutico e a substância não pode ser comercializada no país.
Contudo, é comum a realização de pesquisas científicas controladas que recrutam pessoas que satisfazem os critérios para serem candidatos a esse tratamento.
Em geral, a pessoa precisa já ter tentado outros tratamentos anteriormente e continuar tendo recaídas. Além disso, também precisa cumprir os requisitos de saúde física e mental a fim de evitar complicações durante a pesquisa.
Por enquanto, a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) afirma que são necessários mais estudos para assegurar tanto a eficácia quanto a segurança do tratamento.
Em suma, o tratamento com ibogaína ainda não é algo de fácil acesso para a população em geral.
Contudo, vale ressaltar que existem riscos significativos do uso da ibogaína. Já foram relatados diversos casos de risco de vida e de morte por conta dos efeitos cardiotóxicos provocados pela substância.
Por conta disso, até mesmo as pesquisas enfrentam desafios éticos, o que pode fazer com que a substância não chegue a ser considerada segura para consumo nem para tratamento.
Alternativas ao tratamento com ibogaína
Como atualmente não existem muitas perspectivas de que o tratamento com ibogaína se torne amplamente acessível, é interessante pensar em outras alternativas.
Em primeiro lugar, quando se trata de dependências químicas, o tratamento mais tradicional envolvendo abstinência e internação em clínicas de recuperação ainda é o padrão ouro, embora ainda haja risco de reincidência.
Além disso, existem outras substâncias sendo pesquisadas para auxiliar no tratamento da dependência química, como por exemplo o LSD.
Saiba mais: Dependência química: o que é? Por que acontece?
Além da dependência química, há pesquisas sobre o uso de substâncias em diversos contextos de saúde mental, como a quetamina para depressão, microdoses de psicodélicos para melhora do bem-estar geral e psicodélicos como facilitadores da psicoterapia.

O uso de outras substâncias para tratar dependências químicas não é novidade, mas é preciso que isso seja feito com um bom respaldo científico e de forma controlada, com o acompanhamento de profissionais.
Se você está lidando com problemas de abuso de substâncias, não hesite em procurar um profissional da saúde mental!
Referências
Schenberg, E. E., de Castro Comis, M. A., Chaves, B. R. & da Silveira, D. X. (2014). Treating drug dependence with the aid of ibogaine: A retrospective study. Journal of Psychopharmacology, 28(11), 993-1000. doi:10.1177/0269881114552713
Noller, G. E., Frampton, C. M., & Yazar-Klosinski, B. (2017). Ibogaine treatment outcomes for opioid dependence from a twelve-month follow-up observational study. The American Journal of Drug and Alcohol Abuse, 44(1), 37–46. https://doi.org/10.1080/00952990.2017.1310218
Davis, A. K., Barsuglia, J. P., Windham-Herman, A., Lynch, M., & Polanco, M. (2017). Subjective effectiveness of ibogaine treatment for problematic opioid consumption: Short- and long-term outcomes and current psychological functioning. Journal of Psychedelic Studies, 1(2), 65-73. https://doi.org/10.1556/2054.01.2017.009
https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2023/01/11/ibogaina-para-tratar-dependencia-quimica.htm
https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2018/tratamentos-com-ibogaina-nao-estao-regulamentados
https://saude.abril.com.br/medicina/ibogaina-a-polemica-substancia-que-promete-curar-dependencia-quimica/


