O que é insight em saúde mental, e por que ele muda tudo no tratamento

O nível de percepção que uma pessoa tem sobre sua própria saúde mental influencia muito no tratamento. Entenda!

O termo insight, que pode ser traduzido como “visão interior”, pode se referir a uma série de fenômenos relacionados à autopercepção. No entanto, quando se trata da área da psiquiatria, o termo possui um significado bastante específico.

Neste texto, vamos falar sobre o que é insight em psiquiatria e de que forma ele influencia não apenas na saúde mental do indivíduo, como também na busca e na aderência ao tratamento.

 O que é insight em psiquiatria?

Em psiquiatria, o termo insight se refere a capacidade de uma pessoa reconhecer e compreender seus próprios estados mentais, comportamentos e possíveis alterações psicológicas.

Trata-se de um processo cognitivo complexo que envolve autoconsciência, monitoramento interno e avaliação crítica da própria experiência mental.

Quando uma pessoa tem o insight prejudicado, isso significa que ela pode ter dificuldades em entender o que está acontecendo em determinada situação. No contexto da saúde mental, isso significa:

  • dificuldade em reconhecer que tem algo fora de lugar no que tange sua saúde mental;
  • dificuldade em reconhecer os próprios sintomas;
  • dificuldade em manter-se aderente ao tratamento psiquiátrico.

Há uma grande quantidade de pesquisas sobre insight em pacientes com transtornos psicóticos, como a esquizofrenia, no transtorno bipolar, em pacientes com comportamentos suicidas e também em algumas condições neurológicas.

Muitos desses estudos utilizam técnicas de neuroimagem, que permitem observar o funcionamento e a estrutura do cérebro.

De acordo com estas pesquisas, o nível de insight de uma pessoa parece estar relacionado ao funcionamento de determinadas áreas do cérebro, como regiões do lobo frontal, parietal e partes do córtex pré-frontal.

Em geral, os estudos sugerem que o insight pode depender da interação entre várias regiões cerebrais que trabalham juntas em forma de rede, incluindo áreas ligadas ao pensamento, à percepção do próprio corpo e à avaliação das próprias experiências.

Assim, as pesquisas levantam a hipótese de que o insight não é apenas um fenômeno psicológico, mas também possui uma base neurobiológica, envolvendo um conjunto de regiões cerebrais que atuam de forma integrada.

Classificação do insight

Em psiquiatria, o insight costuma ser compreendido como um continuum, variando desde totalmente preservado até completamente ausente.

Essa variação reflete o grau em que a pessoa consegue reconhecer que apresenta um transtorno mental, compreender a natureza de seus sintomas e aceitar a necessidade de tratamento.

De forma geral, podem ser descritos três níveis principais: insight preservado, insight parcial e insight ausente.

Insight preservado

O insight preservado ocorre quando o indivíduo reconhece de forma clara que seus pensamentos, emoções ou comportamentos fazem parte de um problema de saúde mental.

A pessoa consegue identificar que os sintomas não são normais ou esperados e entende que precisa de ajuda profissional.

Este nível é bastante comum em quadros de depressão e de ansiedade, por exemplo.

Pacientes com transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) também podem ter o insight preservado, sendo aqueles casos em que o paciente compreende que suas obsessões e compulsões são excessivas ou irracionais.

Insight parcial

Ocorre quando o indivíduo reconhece alguns aspectos do problema, mas ainda apresenta dúvidas ou interpretações distorcidas sobre a origem ou a gravidade dos sintomas.

A pessoa pode admitir que algo não está bem, mas pode atribuir os sintomas a causas externas, minimizar sua intensidade ou questionar a necessidade de tratamento contínuo.

O insight parcial é bastante comum em episódios do transtorno afetivo bipolar, bem como o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC).

Clinicamente, isso pode levar a adesão irregular ao tratamento ou interrupções precoces da medicação.

Insight ausente

Por fim, o insight ausente é caracterizado pela incapacidade de reconhecer que há um transtorno mental.

Nesses casos, a pessoa interpreta seus sintomas como totalmente reais ou justificáveis e não os percebe como parte de uma condição clínica.

O insight ausente é comum em alguns quadros psicóticos, como na esquizofrenia e no transtorno delirante, em que crenças delirantes podem ser mantidas com forte convicção, ainda que hajam evidências do contrário.

Como o insight influencia o tratamento?

Em pacientes com transtornos mentais, o insight preservado é um dos maiores preditores de adesão ao tratamento. Isso porque pessoas com um bom insight conseguem perceber seus sintomas com mais clareza, entendendo seus impactos no dia-a-dia.

Já pessoas com um insight parcial ou ausente tendem a ter maiores dificuldades na adesão ao tratamento.

Ao atribuir seus sintomas a outras causas, como ocorre frequentemente nos casos de insight parcial, a pessoa tende a não perceber de que forma o tratamento pode ajudar, chegando até mesmo a pensar que o tratamento não funciona.

Já no insight ausente, a própria dificuldade em reconhecer o transtorno mental e seus sintomas pode fazer com que a pessoa apresente uma grande resistência ao tratamento. Estes casos têm maior risco de recaídas e, não raramente, necessidade de intervenções mais intensivas.

Além da adesão ao tratamento, o insight costuma ser associado também a diferentes evoluções clínicas dos quadros apresentados pelos pacientes.

Um exemplo de como o insight parcial pode influenciar a evolução de um quadro está em casos de transtorno bipolar.

Imagine um paciente que, após um episódio depressivo significativo, aceita procurar tratamento e inicia acompanhamento psiquiátrico, utilizando medicação estabilizadora do humor. Nesse momento, ele reconhece que a depressão faz parte de um transtorno e que o tratamento é necessário.

No entanto, quando começa a apresentar sinais iniciais de um episódio de mania ou hipomania (como aumento de energia, redução da necessidade de sono, maior produtividade e sensação de confiança excessiva), ele não interpreta essas mudanças como sintomas da doença. Pelo contrário, passa a percebê-las como uma fase positiva, em que se sente mais criativo, sociável e eficiente.

Por causa dessa percepção, o paciente pode começar a questionar a necessidade da medicação, acreditando que está “melhor” ou que o tratamento está atrapalhando seu desempenho. Assim, ele pode reduzir a dose por conta própria ou interromper o uso do medicamento.

Com a progressão do episódio maníaco, os sintomas podem se intensificar, levando a comportamentos impulsivos, gastos excessivos, conflitos interpessoais ou prejuízos profissionais, até eventualmente voltar a um episódio depressivo.

Nesse cenário, o insight parcial contribui para um padrão clínico caracterizado por adesão irregular ao tratamento, maior risco de recaídas e flutuações mais intensas do humor.

Mesmo que o paciente reconheça retrospectivamente, após a estabilização, que passou por um episódio de humor, a dificuldade em identificar precocemente os sintomas pode prejudicar o manejo preventivo e a estabilidade a longo prazo.

 O insight no TOC

No transtorno obsessivo-compulsivo, o insight se refere ao grau em que a pessoa reconhece que suas obsessões (pensamentos, imagens ou impulsos intrusivos) e compulsões (comportamentos ou rituais repetitivos) são excessivos, irracionais ou desproporcionais.

Diferentemente de muitos transtornos psicóticos, o insight no TOC costuma ser variável, podendo ir de preservado até praticamente ausente. Por isso, os manuais diagnósticos atuais descrevem diferentes níveis de insight dentro desse transtorno.

Quando o insight é preservado, o indivíduo reconhece que seus pensamentos obsessivos não fazem sentido ou são exagerados.

Por exemplo, uma pessoa que lava as mãos repetidamente pode admitir que sabe que a probabilidade de contaminação é mínima, mas ainda assim sente uma ansiedade intensa que a leva a realizar o ritual de lavagem para aliviar o desconforto.

No insight parcial, o indivíduo apresenta dúvidas sobre a irracionalidade de suas crenças. A pessoa pode reconhecer que suas preocupações talvez sejam exageradas, mas ainda considera possível que sejam verdadeiras ou justificadas.

Alguém que verifica repetidamente se a porta está trancada, por exemplo, pode pensar que está exagerando, mas também acredita que existe uma chance real de ter deixado a porta aberta, o que mantém o ciclo de verificação.

Já quando o insight é ausente ou muito reduzido, as crenças associadas às obsessões podem ser percebidas como totalmente verdadeiras. Nesse caso, o indivíduo não vê seus comportamentos como excessivos ou irracionais.

Por exemplo, a pessoa pode acreditar firmemente que tocar em determinados objetos inevitavelmente causará uma doença grave ou que não realizar um ritual específico provocará uma catástrofe.

Nesses casos, o TOC pode se parecer muito com quadros delirantes, o que pode dificultar o tratamento.

Se você acredita estar lidand com alguma questão em saúde mental, mesmo que seja apenas uma dúvida e que existam outras explicações para os sintomas, não hesite em procurar ajuda de um profissional!

Referências

Marková, I. S., & Berrios, G. E. (1992). The Meaning of Insight in Clinical Psychiatry.  British Journal of Psychiatry, 160(6), 850–860. doi:10.1192/bjp.160.6.850

Avila, R. C. S., Nascimento L. G., Porto, R. L. M., Fontenelle, L., Miguel Filho, E. C. M., Brakoulias, V. & Ferrão, Y. A. (2019). Level of Insight in Patients With Obsessive–Compulsive Disorder: An Exploratory Comparative Study Between Patients With “Good Insight” and “Poor Insight”. Front. Psychiatry 10:413. doi: 10.3389/fpsyt.2019.00413

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