Depois de um evento traumático, é normal que as pessoas fiquem um pouco mais sensíveis em determinados momentos.
Contudo, existem pessoas que não apenas ficam mais sensíveis como também acabam desenvolvendo dificuldades sérias em relação à regulação emocional, passando a apresentar também comportamentos impulsivos e de risco.
Essas pessoas podem acabar tendo dificuldades em suas relações interpessoais, desenvolvendo vícios em substâncias ou até mesmo apresentar ideação suicida. É o caso das pessoas que passam por transtorno de adaptação.
Neste texto, falaremos sobre o transtorno de adaptação, suas causas, sintomas, tipos e tratamento.
O que é transtorno de adaptação?
O transtorno de adaptação é caracterizado por uma grande reatividade durante um período após um evento traumático ou estressante. Essa reatividade pode se manifestar na forma de alterações comportamentais ou problemas de regulação emocional.
Embora algumas alterações comportamentais e emocionais sejam esperadas durante momentos de estresse, no caso do transtorno de adaptação, essas reações costumam ser muito intensas e têm duração maior do que esperado.
Dentre as alterações que aparecem com mais frequência estão o choro fácil, pensamentos negativos frequentes, sentimentos de desesperança, aumento da impulsividade, engajar-se em comportamentos de risco, entre outros. Tudo isso pode variar de pessoa para pessoa.
Essas alterações começam até 3 meses após a exposição inicial ao evento estressante tendem a diminuir após 6 meses. Mesmo assim, o tratamento é recomendado pois, durante estes 6 meses, a pessoa pode ter uma grande queda da sua qualidade de vida por conta dos sintomas intensos.
Os sintomas do transtorno de adaptação podem causar prejuízos nas relações interpessoais, na produtividade, na carreira, na vida acadêmica e até mesmo na saúde física. Por conta disso, mesmo que os sintomas sejam temporários, a intervenção psiquiátrica se faz necessária.
Vale ressaltar que o transtorno pode durar mais de 6 meses, mas isso ocorre nos casos em que o evento estressante se dá de forma contínua, ou seja, o estressor não é um evento isolado. Nestes casos, o transtorno pode durar até 6 meses após o término da exposição ao evento estressante.
Estima-se que a prevalência do transtorno de adaptação seja entre 5 e 20% das pessoas que buscam ajuda psicológica. Há a possibilidade de muitas pessoas com o transtorno não buscarem ajuda, o que pode aumentar a prevalência do transtorno na população como um todo, sendo que essas pessoas não recebem o diagnóstico e tratamento adequados.
O transtorno de adaptação também é conhecido por transtorno de ajustamento.
Causas e fatores de risco
O transtorno de adaptação não possui uma causa única bem definida, mas ele ocorre exclusivamente após períodos de estresse, eventos traumáticos ou mudanças significativas, como:
- Acidentes;
- Desastres ambientais;
- Morte de uma pessoa querida;
- Recebimento de um diagnóstico médico;
- Dificuldades financeiras;
- Dificuldades acadêmicas ou profissionais que põem em risco sua estabilidade nesses ambientes.
Vale ressaltar que as mudanças significativas não necessariamente são negativas. Existem casos de pessoas que acabam desenvolvendo o transtorno de adaptação após um casamento, o nascimento de filho ou aposentadoria.
Há também casos em que o choque cultural após mudança de região ou país pode acabar fazendo uma pessoa ser diagnosticada com transtorno de adaptação.
Apesar do transtorno ocorrer diante de situações assim, não são todas as pessoas que passam por essas situações que acabam o desenvolvendo. É mais comum que o transtorno ocorra em pessoas que já tem alguma predisposição para ele, como por exemplo histórico familiar de transtorno de adaptação, histórico pessoal de transtornos mentais, presença de um temperamento mais reativo, entre outros.
Sintomas do transtorno de adaptação
Os sintomas podem variar muito de pessoa para pessoa e são bastante comuns em diversos outros transtornos mentais. Por isso, para identificar que se trata de um transtorno de adaptação, é necessário que os sintomas se iniciem depois de um evento estressante ou traumático, como acidentes, doenças graves, morte de um ente querido, perda de emprego, mudança de país, entre outros.
Dentre os principais sintomas apresentados por pessoas com transtorno de adaptação estão:
- Alta reatividade, ou seja, a pessoa tende a reagir emocionalmente ou com comportamentos incomuns mesmo em situações amenas;
- Sentimentos de tristeza e falta de esperança;
- Sensação de falta de energia;
- Choro fácil;
- Comportamento impulsivo e de risco;
- Dificuldades de concentração;
- Agitação;
- Dificuldades para dormir, mesmo com bastante cansaço;
- Dores corporais, como dores de cabeça e de estômago, ou sensação de que algumas partes do corpo estão doloridas;
- Sensação de que o coração está batendo mais rápido ou forte (palpitações) ou de forma irregular (arritmia).
Em casos mais graves, a pessoa pode apresentar também ideação suicida, ou seja, pode apresentar pensamentos relacionados a suicídio ou até mesmo chegar a planejar o ato.
Gatilhos no transtorno de adaptação
Em saúde mental, o termo “gatilho” significa um estímulo externo que provoca respostas emocionais ou psicológicas intensas.
No transtorno de adaptação, um gatilho pode ser qualquer coisa que lembre ao trauma ou evento estressante, mesmo não estando diretamente relacionado a ele. São geralmente esses gatilhos que fazem com que os sintomas do transtorno de adaptação apareçam.
Alguns exemplos de gatilhos podem ser fotografias, uma música familiar, o cheiro de algum alimento específico, a textura de um tecido, entre outros.

Tipos de transtorno de adaptação
O transtorno de adaptação é classificado em subtipos que se diferem por conta do perfil dos sintomas apresentados pela pessoa. São eles:
Subtipo com humor deprimido
Neste subtipo, sobressaem-se sintomas como humor deprimido na maior parte do tempo, choro fácil e sentimentos de desesperança.
Subtipo com ansiedade
No subtipo com ansiedade, são predominantes sintomas como nervosismo, preocupação, inquietação e ansiedade de separação (sintomas ansiosos em momentos nos quais precisa ficar longe de uma pessoa importante para si, comum em crianças que precisam se afastar dos pais ou cuidadores).
Subtipo com misto de ansiedade e humor deprimido
Quando sintomas dos subtipos com humor deprimido e com ansiedade ocorrem simultaneamente e são bem proeminentes, é considerado o subtipo misto de ansiedade e humor deprimido.
Subtipo com perturbação da conduta
Neste subtipo, as mudanças de comportamento são predominantes.
Subtipo com perturbação mista das emoções e da conduta
Este subtipo combina sintomas emocionais, como humor deprimido, ansiedade etc., e alterações de comportamento. Em outras palavras, tanto as emoções quanto o comportamento sofrem desregulações intensas e a pessoa está visivelmente diferente do que ela costumava ser antes do fator estressor.
Subtipo não especificado
O último subtipo possível é o não especificado, em que os sintomas mais proeminente não se encaixam exatamente nos subtipos anteriores. São os casos em que a pessoa lida com dores físicas, como dores de cabeça e dores no corpo, problemas gástricos, palpitações (sensação do coração bater mais rápido), insônia, entre outros.
Critérios diagnósticos do transtorno de adaptação
De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 5ª edição, texto revisado (DSM-5 TR), os critérios para diagnóstico do transtorno de adaptação são:
A. Desenvolvimento de sintomas emocionais ou comportamentais em resposta a um estressor ou estressores identificáveis ocorrendo dentro de três meses do início do estressor ou estressores.
B. Esses sintomas ou comportamentos são clinicamente significativos, conforme evidenciado por um ou mais dos seguintes aspectos:
- Sofrimento intenso desproporcional à gravidade ou à intensidade do estressor, considerando-se o contexto cultural e os fatores culturais que poderiam influenciar a gravidade e a apresentação dos sintomas.
- Prejuízo significativo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo.
C. A perturbação relacionada ao estresse não satisfaz os critérios para outro transtorno mental e não é meramente uma exacerbação de um transtorno mental preexistente.
D. Os sintomas não representam luto normal e não são mais bem explicados por transtorno do luto prolongado.
E. Uma vez que o estressor ou suas consequências tenham cedido, os sintomas não persistem por mais de seis meses.
O diagnóstico também requer a especificação de um subtipo, como o subtipo com humor deprimido, subtipo com ansiedade, entre outros.
Diagnósticos diferenciais
O transtorno de adaptação pode ser confundido com outros diagnósticos que possuem sintomas parecidos. São eles:
- Transtorno depressivo maior;
- Transtorno de estresse pós-traumático (TEPT);
- Transtorno de estresse agudo;
- Transtornos de personalidade.
Qual o tratamento para o transtorno de adaptação?
Geralmente, o tratamento para o transtorno de adaptação é feito por meio de medicação psiquiátrica e psicoterapia.
A medicação pode ajudar a controlar os sintomas de forma mais imediata, enquanto a psicoterapia auxilia a lidar com o evento estressor em si. A terapia cognitivo-comportamental (TCC) pode ajudar a identificar padrões de pensamento que ajudam a manter os sintomas desadaptativos, bem como permite realizar uma reestruturação cognitiva e permite a ressignificação do momento traumático ou estressor.
No que tange medicação para o transtorno de adaptação, é comum que um psiquiatra prescreva medicamentos como ansiolíticos benzodiazepínicos e antidepressivos ISRS ou antidepressivos duais.
Prevenção do transtorno de adaptação
Nem sempre é possível prevenir um transtorno mental, mas existem alguns fatores que podem ajudar a diminuir o impacto do transtorno. Alguns exemplos são:
- Ter uma rede de apoio;
- Manter um estilo de vida saudável com alimentação balanceada, prática de exercícios físicos, exposição a luz solar etc.;
- Cuidar da saúde mental de forma preventiva, por exemplo, fazendo psicoterapia mesmo sem ter nenhum diagnóstico específico;
- Aplicar técnicas de manejo do estresse no dia-a-dia, como por exemplo a atenção plena.

Embora eventos traumáticos e mudanças significativas tragam consigo uma grande carga emocional que não indicam nenhum problema de saúde mental, há também casos em que as alterações podem ser um sinal de que há algo de errado.
Se você se identifica com os sintomas aqui citados ou conhece alguém que está lidando com esses sintomas, não hesite em buscar ajuda profissional!
Em caso de ideação suicida, busque ajuda emergencial em um hospital psiquiátrico ou ligue para 188 (Centro de Valorização da Vida – CVV).
Referências
American Psychiatric Association (2022). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 5th edition, Text Revision (DSM-5-TR). American Psychiatric Association Publishing: Washington, DC.
https://my.clevelandclinic.org/health/diseases/21760-adjustment-disorder
https://www.msdmanuals.com/pt/profissional/transtornos-psiqui%C3%A1tricos/ansiedade-e-transtornos-relacionados-a-estressores/transtornos-de-adapta%C3%A7%C3%A3o


