O transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) surge após um evento traumático e é caracterizado por recordações involuntárias do trauma, alterações no humor, na cognição e na vigília. Há também comportamento evitativo, no qual a pessoa evita certas situações para eliminar as chances de relembrar o trauma.
Muito já se pesquisou sobre o transtorno e hoje em dia grande parte dos profissionais da saúde mental concordam que se trata de um transtorno relacionado a presença de memórias traumáticas que possuem uma carga afetiva intensa, causando sintomas de ansiedade e extrema angústia no indivíduo.
Atualmente, o tratamento costuma ser feito com uma combinação de medicamentos e psicoterapia. Porém, para muitas pessoas, a psicoterapia acaba sendo uma parte indispensável do tratamento, uma vez que é na terapia que se pode trabalhar as memórias e os sentimentos associados a elas.
Como a psicoterapia pode ajudar?
Além do tratamento com remédios, a psicoterapia é um dos principais tratamentos para TEPT. Existem várias formas nas quais a terapia pode ajudar um paciente que sofre com estresse pós-traumático.
Mudanças nas crenças
Frequentemente, após um evento traumático, a pessoa desenvolve crenças disfuncionais a respeito do mundo, das pessoas ou até de si mesma.
Com as recordações involuntárias, essas crenças acabam se tornando cada vez mais fortes, de forma a fazer uma manutenção dos sintomas do TEPT. Em suma, é um ciclo vicioso no qual o trauma alimenta as crenças e as crenças alimentam a força do trauma.
Exposição controlada
Uma das consequências do estresse pós-traumático é o comportamento evitativo, que é compreendido como a busca por evitar situações e/ou pessoas que podem lembrar do evento traumático.
Uma pessoa que sofreu um trauma durante uma festa, por exemplo, pode evitar festas e até mesmo reuniões com amigos. Isso pode prejudicar imensamente sua vida social.
Já uma pessoa que sofreu um assalto em uma determinada região da cidade pode acabar evitando ir naquela região, o que pode ser um problema significativo caso seja uma região de importância, como o bairro onde trabalha ou mora.
A terapia pode auxiliar providenciando uma exposição controlada a estímulos que lembram o evento traumático, a fim de diminuir a ansiedade provocada pela exposição e, consequentemente, eliminar o comportamento evitativo.
Ressignificação de memórias
Antigamente, acreditava-se que, após a consolidação de uma memória, ela não poderia mais sofrer alterações. Pesquisas mais recentes mostram que isso não necessariamente é verdade.
Pesquisadores encontraram o que chamaram de “reconsolidação de memórias”, um processo no qual uma memória já formada pode ser reativada e modificada. Contudo, isso só pode ocorrer entre 10 minutos e 6 horas após a formação da memória — uma janela de tempo bastante irrealista para se trabalhar em terapia.
Mesmo assim, essa descoberta abre as portas para a compreensão do que se chama “ressignificação de memórias”. Não se trata de modificar a memória em si, mas sim de modificar o que aquela memória significa para a pessoa.
Diversas abordagens da psicologia trabalham com essa ideia, portanto o paciente pode ficar à vontade para buscar a terapia que mais faz sentido para si ao invés de se prender a um tipo de terapia específico.
Quais as principais psicoterapias para estresse pós-traumático?
Quando falamos de “principais psicoterapias”, estamos falando das terapias que possuem maior número de evidências de eficácia em lidar com o transtorno.
Isso não significa que outros tipos de terapia não funcionam, apenas que estas são as terapias que aparentam ter resultados mais substanciais.
Dentre as principais psicoterapias para tratar o TEPT estão:
Terapia cognitivo-comportamental
A terapia cognitivo-comportamental (TCC) é uma abordagem da psicologia que tem como objetivo a reestruturação cognitiva.
Em outras palavras, esta abordagem convida o paciente a questionar suas crenças disfuncionais, buscando evidências na realidade ao invés de confirmações nos sentimentos e pensamentos disfuncionais.
No que tange o estresse pós-traumático, essa terapia pode ajudar o paciente a questionar as crenças que acabou desenvolvendo por conta do evento traumático e, desta forma, começa a eliminar um dos fatores que ajudam a manter os sintomas do estresse pós-traumático, trazendo alívio aos sintomas.

Terapia de exposição
A terapia de exposição é um tipo de terapia comportamental na qual o paciente é gradativamente exposto a situações ou objetos que causam angústia ou relembram do incidente traumático, ao mesmo tempo em que usa técnicas de relaxamento para desassociar o medo/a ansiedade da situação/objeto.
Por exemplo, no caso de uma pessoa que sofreu um trauma durante uma festa e demonstra dificuldade em ir a festas novamente, a terapia de exposição encoraja a pessoa a começar indo a pequenas reuniões rápidas com amigos, e gradativamente ir aumentando a quantidade de pessoas presentes e o tempo de permanência no local, até que enfim a pessoa consiga ir a uma festa de fato sem sentir angústia ou uma ansiedade exagerada.
Em alguns casos, o terapeuta pode estar presente junto com o paciente nas situações, a fim de proporcionar a segurança que ele precisa nesses momentos. Contudo, também é possível fazer a exposição por meio de outras técnicas, como o uso de material audiovisual, realidade virtual ou realidade aumentada, por exemplo.
Essa terapia pode ser um pouco extensa, visto que cada paciente tem seu próprio ritmo. Portanto, achar um terapeuta que seja capaz de acompanhá-lo é de extrema importância.
Dessensibilização e Reprocessamento através do Movimento dos Olhos (EMDR)
Do inglês Eye Movement Desensitization and Reprocessing, a EMDR é um tipo de psicoterapia focada no reprocessamento de informações com o objetivo de extinguir as emoções intensas evocadas por memórias traumáticas.
Para isso, essa terapia faz o uso de estímulos sensoriais bilaterais para ajudar o cérebro a reprocessar memórias e emoções, permitindo uma melhor integração.
Em suma, a EMDR funciona mais ou menos como o sono REM. Do inglês, Rapid Eye Movement, o sono REM é a parte do sono mais importante para a consolidação de memórias e sua devida integração. Durante esta fase do sono, os olhos ficam se mexendo de um lado para o outro rapidamente.
Na EMDR, os estímulos bilaterais têm esse objetivo de imitar a movimentação ocular do sono REM, permitindo que as memórias traumáticas sejam processadas novamente, porém desta vez de forma consciente.
Quais as evidências por trás dessas terapias?
Sem dúvidas, a terapia que mais possui respaldo científico é a terapia cognitivo-comportamental (TCC), e isso vale para uma série de transtornos mentais — não apenas TEPT.
Contudo, a EMDR, idealizada nos anos 80 pela psicóloga americana Francine Shapiro, tem tido um grande número de pesquisas que trazem resultados bons, embora ainda haja controvérsias.
O que muitas pesquisas mostram é que a EMDR pode sim ajudar a aliviar sintomas de TEPT (e até mesmo de outros transtornos ansiosos) quando comparada a nenhum outro tipo de ajuda. No entanto, quando comparada a outras terapias frequentemente usadas, como a TCC e as terapias de exposição, a EMDR não apresenta nenhuma vantagem sobre as outras.
Em suma, há vários profissionais que acreditam que a EMDR é uma terapia mais eficaz, mas os resultados das pesquisas não colaboram com essa ideia. Trata-se de uma terapia eficaz, sim, mas que não tem uma eficácia maior do que as outras.
O que a EMDR tem em comum com outras terapias é a exposição, pois o paciente é levado a relembrar as memórias dolorosas com frequência durante as sessões, e quando o terapeuta sabe conduzir bem, é possível ter um bom efeito terapêutico mesmo sem a utilização das técnicas da EMDR. Por conta disso, muitos profissionais acham que a técnica dos estímulos bilaterais é desnecessária.
De toda forma, não importa se é EMDR, terapia cognitivo-comportamental ou terapia de exposição, escolher qualquer uma delas é mais efetivo do que não fazer nenhuma terapia.

Embora o tratamento do transtorno de estresse pós-traumático possa ser feito com medicações, a psicoterapia também é uma parte importante. Encontrar a terapia adequada, assim como um bom profissional no qual você possa confiar para trabalhar suas questões emocionais, é imprescindível para que haja bons resultados.
Se você passou por uma situação traumática e sente que está precisando de algum tipo de ajuda, não hesite em contatar um profissional da saúde mental!
Referências
Mendes, D. D., Mello, M. F., Ventura, P., Passarela, C. M., Mari, J. J. (2008). A systematic review on the effectiveness of cognitive behavioral therapy for posttraumatic stress disorder. Int J Psychiatry Med, 38(3):241-59. doi: 10.2190/PM.38.3.b. PMID: 19069570.
https://www.apa.org/ptsd-guideline/treatments
https://www.mayoclinic.org/diseases-conditions/post-traumatic-stress-disorder/diagnosis-treatment/drc-20355973
https://www.scientificamerican.com/article/emdr-taking-a-closer-look/