O transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) é muito conhecido pelo seu principal sintoma: a distração.
Afetando entre 3 e 5% das crianças em idade escolar, o transtorno acarreta em dificuldades significativas na manutenção do foco em atividades, o que muitas vezes acaba acompanhando a pessoa até a idade adulta na forma de uma distraibilidade crônica que causa prejuízos significativos em sua vida.
Neste texto, vamos entender qual a diferença de uma distração comum do dia-a-dia e da distração que pode indicar um problema maior, ainda que nem sempre a mera distração seja sinal de TDAH.
Distração é comum, então quando vira problema?
A dificuldade de concentração é, junto com a impulsividade e a hiperatividade, um dos principais sintomas do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). Por conta disso, é de se esperar que as pessoas com esse transtorno sejam suscetíveis a uma distraibilidade exagerada.
No entanto, distrair-se é algo extremamente normal. Todas as pessoas tendem a se distrair no dia-a-dia, ainda mais nesse mundo tão conectado e cheio de estímulos em que estamos vivendo atualmente.
Então como podemos saber se a distração está em um nível normal e quando ela pode ser indicativa de algum problema maior?
A resposta está no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), um manual elaborado pela Associação Americana de Psiquiatria que descreve e estabelece os critérios usados para o diagnóstico de diversos transtornos.
De acordo com o DSM-5, o TDAH só pode ser diagnosticado quando a distraibilidade é persistente ao longo do tempo (mais de 6 meses de distraibilidade acentuada), tendo seu início já na infância (antes dos 12 anos de idade), estando presente em múltiplos ambientes (pervasividade) e causando um prejuízo funcional.
Em outras palavras, a distração é tão grande que pode causar problemas para a pessoa levar uma vida normal no dia-a-dia, pois não consegue organizar sua rotina e suas coisas adequadamente.
Uma pessoa que apresenta uma maior distraibilidade apenas em alguns contextos, como por exemplo durante um dia muito agitado ou em ambientes com muitos estímulos, não pode ser diagnosticada com TDAH.
Existem diversos estímulos no dia-a-dia que podem tirar a nossa concentração, desde estímulos externos como alguém passando na rua com um som alto ou uma televisão ligada no fundo, até estímulos internos como pensamentos e lembranças.
A distraibilidade normal também pode ser influenciada por uma série de fatores como padrões de sono e de descanso, estresse e até mesmo hormônios!
Já uma pessoa com TDAH será mais desatenta cotidianamente, tendo dificuldades para se concentrar em uma tarefa mesmo em momentos nos quais está tudo bem e em que está em um ambiente livre de distrações.
Além disso, essa distraibilidade ocorre em múltiplos contextos: a pessoa se distrai não apenas em casa, mas também no trabalho, nos estudos, durante conversas e demais interações sociais, entre outros. Não é raro que pessoas com TDAH se distraiam enquanto estão falando e acabem não terminando seu raciocínio, por exemplo.
No que tange os prejuízos, estamos falando de prejuízos grandes. É normal, vez ou outra, acabarmos esquecendo alguma coisa em casa ao sair, como por exemplo esquecer de pegar um guarda-chuva ao sair em um dia nublado.
Já uma pessoa com TDAH pode sair para uma entrevista de emprego e esquecer a cópia do seu currículo em casa, por exemplo. Pessoas com TDAH tendem a esquecer ou perder itens de extrema importância, como a carteira, documentos, a chave de casa ou até mesmo o celular.
Não é raro que pessoas com TDAH acabem contraído dívidas não porque não têm o dinheiro para pagá-las, mas porque esquecem os prazos de pagamento das contas. Podem acabar esquecendo de comprar coisas no supermercado e só lembram que está em falta quando precisam usar aquele item.
Outro exemplo comum é comprar itens repetidos por ter esquecido que já havia comprado na última visita ao supermercado.
No trabalho e no ambiente acadêmico, essa distraibilidade pode causar prejuízos significativos na performance, bem como nas relações com colegas. Dificuldades para terminar tarefas no prazo e em seguir instruções faladas estão entre os principais desafios nesses contextos.
Saiba mais: Consequências do TDAH adulto não tratado
Portanto, quando se trata do TDAH, a distraibilidade é um problema generalizado, ou seja, algo que está presente em diversos contextos e com uma frequência e intensidade tão grandes que geram prejuízos muito grandes no dia-a-dia da pessoa.
Se a distração ocorre apenas em determinadas épocas ou está associada a períodos de maior estresse, só se manifesta em alguns contextos e, apesar de causar contratempos, não causa prejuízos graves, muito provavelmente estamos falando de uma distraibilidade normal que não precisa ser tratada.

Distração pode ser um problema, mas não é necessariamente TDAH
Agora que esclarecemos a diferença entre a distração normal e a distração que indica um problema, é importante ressaltar que mesmo quando a distraibilidade é muito alta, podem existir outras explicações que não apenas o TDAH, especialmente se ela surge mais tarde na vida da pessoa.
Existem muitos quadros clínicos e condições do dia-a-adia que podem imitar o mascarar os sintomas do TDAH. Neste sentido, o diagnóstico diferencial se torna uma etapa crucial para identificação correta do transtorno.
Um estudo publicado em 2022 no periódico científico Psychological Medicine observou que, frequentemente, quando os sintomas de TDAH surgem mais tardiamente em jovens (depois dos 12 anos de idade), eles geralmente estão associados a quadros de transtornos de humor e ansiedade, que podem explicar melhor as dificuldades atencionais do que um TDAH.
Transtornos de ansiedade são caracterizados por uma ansiedade intensa que pode levar a sintomas como inquietação, dificuldades de concentração e pensamentos acelerados, o que se assemelha muito aos sintomas de desatenção e impulsividade do TDAH. No entanto, nestes casos, essas dificuldades tendem a flutuar conforme o nível de ansiedade, que oscila entre episódios de preocupação intensa e momentos mais tranquilos.
Essa oscilação não está presente no TDAH, embora pessoas com TDAH possam acabar desenvolvendo algum transtorno ansioso como comorbidade.
Já na depressão, a desatenção também pode estar presente, embora tenha uma origem diferente. Durante um episódio depressivo, a pessoa pode apresentar lentificação cognitiva, esquecimentos e desmotivação, além de manifestar sintomas como alterações do sono que causam dificuldades de concentração, memória e controle inibitório (aumentando a impulsividade).
Outro transtorno de humor relevante é o transtorno afetivo bipolar, caracterizado por episódios depressivos e maníacos que oscilam ao longo do tempo. Não é raro que uma pessoa com transtorno bipolar em episódio de mania apresente sintomas como fuga de ideias, pensamentos acelerados, inquietação psicomotora e impulsividade aumentada.
A chave para diferenciar todos esses diagnósticos do TDAH verdadeiro está em compreender o contexto. Uma pessoa que está lidando com uma má qualidade do sono pode ter seus sintomas explicados por esse problema, sendo que os sintomas são resolvidos ao se tratar a causa (regulando o sono).
Da mesma forma, uma pessoa com ansiedade generalizada ou transtorno bipolar tende a ter os sintomas atencionais atenuados quando segue o tratamento adequadamente.
Outro transtorno importante a ser diferenciado é o transtorno do espectro autista (TEA), em que existem sintomas de desatenção e impulsividade, mas também ocorrem déficit na comunicação, bem como interesses e comportamentos restritos marcantes.
Por fim, em adultos que apresentam sintomas de TDAH, é importante considerar a possibilidade de abuso de substância. Diversas drogas, como o álcool e a maconha, alteram de forma significativa os processos cognitivos envolvidos na memória e na concentração, podendo acarretar em sintomas semelhantes aos do déficit de atenção no longo prazo.
Em suma, a distração acentuada pode ocorrer por diversos fatores, sendo necessário reconhecer e excluir outras causas possíveis antes de fechar o diagnóstico de TDAH.
Deve-se considerar um diagnóstico alternativo ao TDAH quando a pessoa apresenta os sintomas nucleares do transtorno sem que haja uma história infantil consistente, ou quando os sintomas estão restritos a um contexto ou são totalmente explicáveis por outro transtorno.
Saiba mais: Diagnóstico do TDAH em adultos: por que é tão difícil?

Quando e como buscar avaliação?
Ao perceber que problemas como distração e impulsividade estão atrapalhando seu dia-a-dia, pode ser interessante buscar uma avaliação com um profissional qualificado.
É importante salientar que a avaliação deve explorar diversas possíveis explicações para esses sintomas, e o diagnóstico de TDAH só deve ser fechado após descartar outras possibilidades, especialmente se os sintomas apareceram mais perto da idade adulta.
Portanto, ao buscar uma avaliação profissional, é provável que sejam iniciados tratamentos para transtornos como ansiedade e depressão antes de investigar com mais profundidade a possibilidade de déficit de atenção.
Comorbidades são comuns e, por isso, o fato de uma pessoa ter ansiedade ou depressão não exclui automaticamente a possibilidade de TDAH. No entanto, é apenas tratando os sintomas desses transtornos que será possível analisar se existem sintomas de TDAH verdadeiro, independente dos sintomas atencionais secundários causados por esses outros transtornos.
Para buscar uma avaliação, você pode entrar em contato com um profissional da saúde mental como um psicólogo ou psiquiatra. Vale ressaltar que, apesar de um psicólogo poder ajudar a identificar os sintomas, o diagnóstico só pode ser fechado por um médico psiquiatra.
Referências
American Psychiatric Association (2013). DSM-5 Diagnostic Criteria for ADHD. DSM-5, 5ª ed., Washington, DC.
Barkley, R. A. (2015). Attention-Deficit Hyperactivity Disorder: A Handbook for Diagnosis and Treatment (4ª edição). Guilford Press, New York.
Riglin, L. et al. (2022). Depression and anxiety in children with late-onset ADHD symptoms: A longitudinal cohort study. Psychological Medicine, 52(2): 324–331. DOI: 10.1017/S0033291720002599.


