Transtorno do processamento sensorial: o que é? Diagnóstico e transtornos relacionados

Presente em diversos transtornos, em especial os do neurodesenvolvimento, o transtorno do processamento sensorial pode ser bastante limitante. Entenda!

Ouvir sons que as pessoas não ouvem, ter dores de cabeça ao final do dia por conta de barulhos e luzes e ter dificuldades com o toque é algo que pode afetar gravemente a qualidade de vida das pessoas, mas que muitas vezes passa despercebido como só uma “frescura” ou “peculiaridade”.

No entanto, hoje em dia sabe-se que existem pessoas que são mais sensíveis no quesito sensorial e que isso pode sim prejudicar bastante seu dia-a-dia. É o caso das pessoas que sofrem com o transtorno do processamento sensorial, presente em diversas condições e que estima-se que pode ocorrer isoladamente também.

O que é transtorno do processamento sensorial?

O transtorno do processamento sensorial (TPS) é uma condição na qual o cérebro apresenta dificuldades em receber, integrar e responder às informações que chegam através dos sentidos, como visão, audição, tato, olfato, entre outros.

Pessoas que sofrem com TPS costumam ter dificuldades com informações sensoriais, podendo apresentar reações intensas a estímulos completamente normais.

Para essas pessoas, sons altos podem causar a sensação de dor física, por exemplo, ou até mesmo o toque de um tecido leve pode ser percebido como doloroso ou desconfortável.

Além disso, essas pessoas também podem apresentar dificuldades de coordenação motora, podendo esbarrar em objetos com frequência ou ter dificuldade em perceber o tamanho do próprio corpo ou o posicionamento de seus membros (braços e pernas).

Geralmente, o transtorno do processamentos sensorial é identificado em crianças, em especial quando elas apresentam dificuldades em interagir com outras pessoas e brincar por conta do transtorno. No entanto, o transtorno ocorre também em adultos.

O TPS está presente em diversos transtornos, como por exemplo o transtorno do espectro autista (TEA), mas não é reconhecido como um transtorno à parte.

Em outras palavras, o transtorno do processamento sensorial não consta como um diagnóstico único nem na Classificação Internacional de Doenças (CID-11), nem no Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais (DSM-5).

Sintomas do transtorno do processamento sensorial

Os sintomas do TPS podem afetar todos os sentidos, apenas alguns sentidos ou serem limitados a um sentido, como a audição, o tato ou o olfato. Além disso, as pessoas podem ter uma hipo ou hipersensibilidade aos estímulos.

Em outras palavras, nem todas as pessoas vão reagir de forma intensa a um estímulo, porque para algumas pessoas o processamento sensorial é menos intenso.

Nestes casos, a pessoa pode precisar de toques mais pesados para conseguir sentir, ou pode ter dificuldades em perceber sensações como calor, frio ou dores.

Há também pessoas que têm alguns sentidos hipersensíveis e outros hipossensíveis. Ou seja, a pessoa pode apresentar uma sensibilidade maior na audição, mas uma sensibilidade baixa no tato.

Pessoas que demonstram hipossensibilidade podem apresentar comportamentos como inquietação motora, produção de barulhos, entre outros, como uma forma de auto estimulação (stimming).

Além dos estímulos externos, a pessoa também pode apresentar dificuldades com os estímulos internos (interocepção), tendo dificuldade para interpretar sinais do próprio corpo como sinais de fome ou sinais de que precisa usar o banheiro, por exemplo.

Alguns exemplos bastante específicos de sintomas são:

  • Sentir desconforto com determinados tipos de roupas ou tecidos;
  • Necessidade de tocar coisas com frequência;
  • Dificuldades em reconhecer o espaço pessoal;
  • Dificuldades em prestar atenção em ambientes com muito estímulos;
  • Reagir de forma expressiva a movimentos súbitos, toques, barulhos altos ou luzes;
  • Sentir ânsia de vômito com algumas texturas de alimentos.

Causas do transtorno do processamento sensorial

Não se sabem as exatas causas do TPS, mas estima-se que existe um componente genético importante.

Além disso, a condição é bastante comum em pessoas que têm alterações na atividade cerebral.

Algumas condições nas quais o transtorno do processamento sensorial é comum são os transtornos do neurodesenvolvimento, nos quais o desenvolvimento cerebral parece não ocorrer da mesma forma que o esperado na população em geral. É o caso do autismo e do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH).

Quais são os critérios diagnósticos do transtorno do processamento sensorial?

Por não constar nos principais manuais diagnósticos, não existem critérios diagnósticos bem definidos para o transtorno do processamento sensorial.

Em geral, o transtorno é diagnosticado por meio de testes de integração sensorial, pela observação clínica (especialmente em crianças) ou pelo autorrelato (quando adolescente ou adulto). Ele também pode ser diagnosticado durante o processo de avaliação neuropsicológica.

Em suma, o diagnóstico do transtorno do processamento sensorial é um diagnóstico multidisciplinar, que inclui avaliações de neuropsicólogos, psiquiatras, neurologistas, terapeutas ocupacionais, otorrinolaringologistas, entre outros.

Contudo, para que o transtorno seja diagnosticado, é necessário que as dificuldades sensoriais tenham um impacto significativo na qualidade de vida da pessoa, trazendo prejuízos em sua vida social, profissional, acadêmica etc.

Diagnóstico diferencial

Existe uma discussão se o transtorno do processo sensorial pode ocorrer isoladamente ou se é sempre parte de alguma outra condição mais abrangente, motivo pelo qual não existe um diagnóstico específico para esse transtorno.

Portanto, quando uma pessoa apresenta problemas sensoriais, é interessante investigar a possibilidade de outros diagnósticos, como:

  • Transtorno do espectro autista (TEA);
  • Transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH);
  • Dispraxia;
  • Atrasos no desenvolvimento;
  • Transtorno afetivo bipolar.

Como tratar o transtorno do processamento sensorial?

Apesar do transtorno do processamento sensorial não possuir critérios diagnósticos específicos, ele pode ser tratado.

Geralmente, o transtorno é tratado pela terapia ocupacional, especialmente na infância a fim de estimular a criança a melhorar sua performance nas atividades do dia-a-dia em que encontra dificuldade por conta do transtorno.

Além disso, terapias de integração sensorial podem ajudar a pessoa a desenvolver formas de responder aos estímulos que sejam mais apropriadas.

Com crianças, esse tipo de terapia é baseada em fazer atividades divertidas em um ambiente controlado para que a criança seja exposta a estímulos, porém sem que estes gerem uma sobrecarga.

Então, as crianças podem aprender habilidades para lidar com esses estímulos, especialmente quando eles se tornam muito intensos.

Além disso, crianças em idade escolar podem necessitar salas adaptadas e professores capacitados para lidar com as questões do transtorno de processamento sensorial. Já pessoas em idade produtiva podem fazer o uso de adaptações no ambiente de trabalho, como por exemplo abafadores de som, óculos escuros em ambientes internos, entre outros.

Usar adaptações também pode ajudar. No caso de pessoas com uma audição hipersensível, é possível usar abafadores de ruídos no dia-a-dia, em especial em locais fechados e muito barulhentos. Escolher roupas com tecidos e texturas que não incomodam também podem ser um tipo de adaptação, por exemplo. Usar lâmpadas específicas ou evitar cores vibrantes pode ajudar com desconfortos sensoriais na visão.

Embora não seja um diagnóstico propriamente dito, o transtorno do processamento sensorial pode trazer muitas dificuldades à vida das pessoas que convivem com ele.

Se você suspeita que tem alguma condição que altera o seu processamento sensorial, não hesite em buscar ajuda de um profissional da saúde mental ou neurologia!

Referências

https://www.webmd.com/children/sensory-processing-disorder
https://my.clevelandclinic.org/health/diseases/sensory-processing-disorder-spd

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