Tipos de depressão e ansiedade identificados em exames de imagem: o fim da tentativa e erro?

Biotipos identificados através de machine learning podem se tornar guia para prescrição de tratamentos eficazes. Entenda!

Muito do que se sabe hoje sobre saúde e transtornos mentais é fruto de décadas de pesquisas, porém estas sofrem uma limitação significativa em comparação à medicina com foco em enfermidades do corpo.

Na medicina, muitas doenças podem ser reconhecidas por conta de biomarcadores, que são evidências biológicas de um processo patológico ou fisiológico, como a quantidade de glóbulos brancos no sangue indicando uma infecção ou um excesso de determinado hormônio que indica um mau funcionamento de algum órgão, por exemplo.

Já no que tange a saúde mental, até hoje, estudos realizados em busca de biomarcadores costumam ser inconclusivos. Em outras palavras, é muito difícil apontar evidências biológicas dos transtornos mentais.

Embora, no senso comum, exista uma associação entre transtornos mentais e alterações em determinados neurotransmissores (depressão seria explicada por uma falta de serotonina, por exemplo), na prática, isso não é bem verdade e nem é possível identificar via exames laboratoriais.

Por conta disso, o diagnóstico de transtornos mentais costuma ser feito levando em consideração o histórico de vida do paciente, o perfil dos sintomas apresentados e o nível de prejuízo que estes causam em sua vida.

Essa falta de informações conclusivas acerca de marcadores biológicos têm impacto não apenas no momento do diagnóstico, mas também na hora da prescrição de um tratamento.

Cada pessoa responde de uma forma diferente aos medicamentos e às terapias prescritas e, por conta disso, muitas vezes o tratamento se inicia em um esquema de “tentativa e erro” até encontrar a combinação certa de medicamentos e terapia que seja eficaz para cada paciente.

Estima-se que, ao encontrar biomarcadores específicos, seria possível identificar os tratamentos mais eficazes para cada pessoa a partir de exames, podendo melhorar esse processo de tentativa e erro.

Novo estudo pode apontar o fim da tentativa e erro nos tratamentos

Um artigo publicado em 2024 no periódico científico Nature Medicine tinha como objetivo separar diversos “tipos” de depressão e ansiedade de acordo com as disfunções em circuitos cerebrais específicos identificados a partir de exames de imagem de pacientes.

Os pesquisadores realizaram exames de imagem por ressonância magnética funcional (fMRI) em 801 adultos diagnosticados com depressão ou ansiedade, dos quais 95% não tomavam nenhuma medicação.

Os exames foram usados para medir a atividade cerebral durante momentos de ócio e momentos em que os participantes estavam engajados em tarefas. Com isso, foi possível medir o funcionamento cognitivo e emocional nestes diferentes estados.

Por meio de um algoritmo de machine learning, foi feita uma análise de agrupamento (cluster analysis) das imagens, resultando em 6 grupos distintos, identificados como biotipos de depressão e ansiedade.

Esses agrupamentos foram feitos de acordo com os perfis de atividade detectados nas imagens de cérebros durante o ócio e durante a execução de tarefas.

Além disso, os participantes foram submetidos a ensaios clínicos randomizados de antidepressivos e de terapia comportamental, permitindo identificar o efeito dessas intervenções em cada grupo.

O que mostram os resultados?

Os resultados do estudo são bastante interessantes e podem ajudar a guiar a escolha do tratamento a partir da identificação desses biotipos, o que pode ser feito por meio do fenótipo clínico, ou seja, a maneira que os sintomas se apresentam.

Alguns exemplos dos achados do estudo são:

  • Pacientes que apresentam hiperatividade em áreas do cérebro relacionadas a cognição tendem a responder melhor ao medicamento venlafaxina quando comparado a outros biotipos;
  • Pacientes com um biotipo caracterizado por uma maior atividade cerebral durante momentos de ócio em áreas do cérebro relacionadas a resolução de problemas e sintomas depressivos acabaram por responder melhor à terapia comportamental;
  • Um terceiro biotipo, no qual havia menores níveis de atividade cerebral no circuito atencional em momentos de ócio, mostrou-se menos responsivo ao tratamento com terapia comportamental do que os outros biotipos identificados;
  • Pessoas com hiperatividade nas áreas cognitivas do cérebro apresentaram maiores níveis de anedonia (perda da capacidade de sentir prazer) do que os outros biotipos, e também tiveram uma performance pior em tarefas que mediam a função executiva;
  • Já aqueles que respondiam melhor à terapia comportamental também tinham dificuldades com as tarefas de função executiva, mas acabavam tendo uma boa performance em atividades cognitivas.

Como isso altera a prática psiquiátrica?

Apesar das evidências de diferentes biotipos, vale ressaltar que esse estudo não cria novas categorias diagnósticas, sendo apenas um documento auxiliar na hora da prescrição de medicamentos e outros tratamentos de acordo com os sintomas apresentados pelo paciente.

Em outras palavras, não é como se esse estudo apontasse novos tipos de depressão específicos (ao menos não no momento), mas sim ajudasse a encontrar os tratamentos mais efetivos a partir do agrupamento de características em comum de diversos pacientes.

Eventualmente, no futuro, a partir de mais estudos que corroborem essas evidências, pode-se reformular os critérios diagnósticos da depressão para contemplar esses biotipos.

No entanto, por agora, o estudo segue sendo apenas um achado interessante que pode auxiliar na prescrição de tratamentos de forma mais assertiva, embora até mesmo isso seja desencorajado por conta da necessidade de mais pesquisas.

As pesquisas com a finalidade de tornar a psiquiatria mais precisa não param, mas ainda não estamos em um momento no qual é possível identificar os melhores tratamentos a partir de exames simples.

Por conta disso, se você faz tratamento psiquiátrico e sente que ele não está fazendo efeito, não deixe de contatar seu psiquiatra para uma reavaliação do quadro. Ajustar doses e medicamentos é completamente normal.

Já se você não faz acompanhamento mas suspeita que pode estar lidando com sintomas depressivos, ansiosos ou problemas psicológicos em geral, não hesite em buscar a ajuda de um profissional da saúde mental!

Referências

Tozzi, L., Zhang, X., Pines, A. et al. (2024). Personalized brain circuit scores identify clinically distinct biotypes in depression and anxiety. Nat Med 30, 2076–2087. https://doi.org/10.1038/s41591-024-03057-9

https://www.medscape.com/viewarticle/six-distinct-subtypes-depression-anxiety-identified-brain-2024a1000bmi?ecd=socpd_fb_rem-traf_mscp_2024July3DepressionAnxietyBrainImagingID2024a1000bmi_md_dormant_englang-top8-int&form=fpf%28%29

Confira posts relacionados