Tempo alterado: como ansiedade, depressão e psicose mudam nossa percepção da realidade

Transtornos mentais podem ter um impacto significativo na percepção do tempo. Saiba mais aqui!

O termo percepção do tempo se refere à maneira subjetiva que a mente humana vivencia a passagem do tempo, que pode ser muito diferente do tempo objetivo medido em segundos, minutos e horas.

Embora o tempo pareça ser algo absoluto no dia-a-dia, todo mundo já percebeu alterações na percepção do tempo vez ou outra. É como quando estamos muito entretidos com algo e parece que o tempo voa, ou quando estamos entediados e o tempo parece se estender infinitamente.

Essa vivência subjetiva do tempo pode ser influenciada por uma série de diferentes fatores psicológicos, ambientais e neurológicos.

Neste texto, vamos falar um pouco sobre a percepção do tempo em seres humanos e como ela pode sofrer alterações em transtornos mentais como a depressão, a ansiedade e até quadros mais complexos, como a psicose.

Fatores que influenciam a percepção do tempo

Um dos fatores mais importantes que influenciam a percepção do tempo é a atenção.

Quando estamos altamente engajados em uma atividade, há uma redução do monitoramento consciente da passagem do tempo, o que leva à sensação de que ele passa rápido.

Por outro lado, em estados de tédio ou baixa estimulação, há um aumento da atenção voltada ao tempo, o que amplifica sua duração subjetiva.

A emoção também exerce um papel crucial: estados emocionais intensos, especialmente aqueles associados à ativação fisiológica (como medo ou ansiedade), tendem a dilatar a percepção do tempo.

Outro fator importante na percepção da passagem do tempo é o ambiente. Em outras palavras, ambientes diferentes podem fazer com que o tempo pareça passar em um ritmo diferente.

Uma forma bem simples de ilustrar isso é perceber como a sensação do tempo é bem mais lenta em ambientes naturais, como em bosques, praias e florestas, e muito mais acelerada em ambientes urbanos.

O tempo nos transtornos mentais

Os transtornos mentais são conhecidos por trazerem alterações na forma de uma pessoa pensar, sentir e processar informações. Isso significa que, em muitos quadros, existe também uma alteração na percepção do tempo

Pesquisas mostram que essas alterações podem variar muito de transtorno para transtorno. Dentre os transtornos mais pesquisados estão:

Depressão

Na depressão, a percepção do tempo costuma ser lenta. A pessoa em um episódio depressivo costuma sentir o tempo se arrastar, especialmente quando ela se encontra em um estado de inércia.

Estudos sugerem que isso pode estar relacionado à diminuição da atividade dopaminérgica e a alterações no processamento motivacional e atencional.

Além disso, o viés negativo característico da depressão pode contribuir para uma maior focalização em experiências internas desagradáveis, intensificando a percepção de duração.

Ansiedade e estresse

Já nos transtornos ansiosos e no estresse crônico, a percepção temporal pode oscilar entre lentificação e aceleração.

Em situações de ameaça ou antecipação, é comum que o tempo pareça desacelerar. Isso está associado à hipervigilância, que amplia o processamento de estímulos e, consequentemente, a sensação subjetiva de duração de um momento.

Contudo, ainda que haja essa lentificação do tempo, quando olhamos para a experiência mais ampla, muitas pessoas com ansiedade ou altamente estressadas relatam uma sensação de que o tempo está passando rápido demais.

Isso pode ocorrer por diversos motivos. Um deles é a sobrecarga cognitiva, visto que a pessoa está constantemente ocupada com preocupações, antecipações e cenários hipotéticos.

Esse fluxo contínuo de pensamentos reduz a quantidade de atenção disponível para monitorar a passagem do tempo. Como resultado, quando a pessoa olha em retrospecto, ela tem a sensação de que o tempo passou rápido, quase sem ser percebido.

Além disso, a ansiedade frequentemente envolve uma forte orientação para o futuro, fazendo com que a mente esteja sempre alguns passos à frente, tentando prever e evitar possíveis ameaças.

Isso cria uma experiência subjetiva em que o presente parece encurtado ou comprimido, já que ele é constantemente invadido por simulações do que ainda vai acontecer.

Leia mais: Como a ansiedade pode alterar sua percepção da realidade

Psicose

Já nos quadros psicóticos, a história é bem diferente. Não é raro que pessoas com transtornos psicóticos acabem vivenciando uma fragmentação temporal que parece não fazer sentido.

Em outras palavras, nos quadros psicóticos, a percepção do tempo não se altera apenas em ritmo (mais rápido ou mais lento), mas na própria estrutura da experiência temporal.

Dentro de um episódio psicótico, a pessoa pode vivenciar o tempo como descontínuo, sem uma clara progressão entre passado, presente e futuro.

Entende-se que essa vivência anormal do tempo pode ser um fator chave na instabilidade da perspectiva de primeira pessoa do indivíduo.

Em termos mais simples, estima-se que, muitas vezes, a ideia de que há pensamentos vindo de fora sendo implantados na mente da pessoa pode estar relacionada à essa instabilidade da percepção temporal.

Há pesquisadores que defendem que grande parte dos sintomas psicóticos, como desorganização do pensamento, alucinações auditivas, entre outros, estão relacionados justamente a essa alteração na percepção da própria estrutura tempo.

No que tange a velocidade do tempo, entende-se que as alterações na transmissão de dopamina associadas aos transtornos psicóticos podem resultar em uma percepção de tempo acelerada, mas há também pacientes que relatam uma sensação de desaceleração do tempo.

Transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH)

Embora as pessoas com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) não costumam relatar alterações na percepção da velocidade do tempo, há um relato muito comum de “cegueira temporal”.

Pessoas com TDAH costumam dizer que seu relógio interno não funciona direito, pois erram com frequência a estimativa de tempo para a execução de suas tarefas.

Assim, a pessoa pode achar que vai demorar 30 minutos lavando a louça, quando na realidade leva apenas 10 minutos. Da mesma forma, pode achar que consegue terminar de se arrumar para o trabalho em 5 minutos, quando na realidade essa tarefa acaba tomando 15 minutos.

Além disso, fenômenos como o hiperfoco (experiência de concentração extrema em um determinado estímulo ou tarefa) podem fazer com que a pessoa não perceba a passagem do tempo, levando um susto ao perceber que se passaram horas enquanto ela estava absorta em uma mesma tarefa.

Embora o tempo seja uma realidade objetiva, a maneira que cada um o vivencia pode diferir a depender de múltiplos fatores.

Se você suspeita que está lidando com algum quadro de saúde mental, mesmo que isso não traga alterações na sua percepção do tempo, não hesite em contatar um profissional!

Referências

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