Quando o corpo percebe antes da mente: o papel do corpo no sofrimento psíquico

Às vezes, nosso corpo dá os primeiros sinais de que a saúde mental não vai bem. Entenda melhor aqui!

Antes mesmo de alguém conseguir nomear o que sente, os primeiros sinais de um sofrimento psíquico podem se manifestar como sensações corporais.

Pequenas alterações, como cansaço persistente, dores difusas sem causa clara e tensão muscular constante, podem surgir como sinais silenciosos de que algo não vai bem.

Neste texto, vamos falar sobre como o corpo pode auxiliar na identificação de que algo não vai bem psicologicamente, bem como entender como estes sinais do corpo podem auxiliar no tratamento de possíveis transtornos mentais.

Quais são os primeiros sinais que o corpo dá?

O corpo pode disfarçar o sofrimento psíquico através de sinais corporais de diversas formas. Dentre as mais frequentes estão:

Fadiga

Sensação de cansaço constante que não melhora mesmo depois de descansar adequadamente, como se a energia estivesse sempre baixa.

Alterações no sono

As alterações do sono podem ser tanto para mais quanto para menos, ou seja, a pessoa pode apresentar dificuldades para pegar no sono, dormir de forma fragmentada ou, alternativamente, apresentar uma necessidade excessiva de dormir (hipersonia).

As alterações do sono são um sinal de alerta muito grande, inclusive, pois o sono possui uma relação bastante significativa com o humor.

Saiba mais: Tratar o sono antes do humor? Por que?

Tensão muscular

Tensões musculares também podem ser um sinal de que algo não vai bem psicologicamente. Elas costumam surgir na região do pescoço, ombros e mandíbula, mas podem surgir em outras partes do corpo.

Essas tensões podem vir acompanhadas de dores ou sensação de rigidez muscular.

Dores de cabeça frequentes

As dores de cabeça são um sintoma bastante genérico, podendo significar uma infinidade de questões.

No entanto, quando elas acontecem com muita frequência e sem uma causa médica aparente, podem ser um sintoma de sofrimento psíquico, estando relacionadas principalmente ao estresse e à sobrecarga emocional.

Problemas gastrointestinais

O sistema digestivo também pode dar os primeiros sinais de um sofrimento psíquico.

Problemas como azia, náuseas, desconforto abdominal, diarreia ou constipação estão frequentemente relacionados a problemas emocionais e ansiosos.

Alterações no apetite

O apetite pode refletir de forma bastante fiel o estado psicológico de uma pessoa. Não é raro que pessoas em sofrimento psíquico tenham alterações como perda de interesse na comida ou até mesmo um aumento na ingestão alimentar, muitas vezes como uma tentativa de regulação emocional.

Por que isso acontece?

Muitas vezes, entendemos o sofrimento psíquico como algo puramente mental, separado do corpo. No entanto, na realidade, não existe uma separação biológica entre corpo e mente.

Em outras palavras, quando nossa mente está em sofrimento, o corpo também responde a isso.

Alguns mecanismos cerebrais por trás disso são:

Ativação do eixo HPA (hipotálamo-hipófise-adrenal)

Um dos mecanismos centrais é a ativação do eixo HPA, responsável pela resposta hormonal ao estresse.

Diante de um estímulo percebido como ameaça (mesmo que não seja conscientemente reconhecido como tal), ocorre uma reação em cadeia entre o hipotálamo, a hipófise e as glândulas adrenais, que terminam na liberação do cortisol no organismo.

O cortisol é conhecido como o hormônio do estresse, tendo efeitos amplos no organismo. Ele mobiliza energia, modula o sistema imunológico e altera o funcionamento de diversos órgãos.

A curto prazo, isso é adaptativo. No entanto, quando essa ativação se torna crônica ou desregulada, ocorre uma mudança no equilíbrio fisiológico, favorecendo sintomas físicos persistentes.

Isso ajuda a explicar manifestações como a fadiga constante, alterações no sono e queda da imunidade.

Sistema nervoso autônomo (simpático e parassimpático)

O sofrimento psíquico também envolve a ativação do sistema nervoso autônomo, especialmente o eixo simpático-adreno-medular (SAM), que libera adrenalina e noradrenalina.

Esse sistema prepara o corpo para a resposta de luta ou fuga, o que gera um aumento da frequência cardíaca, respiração acelerada, sudorese e tensão muscular.

Contudo, quando essa ativação se dá de forma prolongada, o organismo fica em constante estado de alerta, o que reduz a atividade parassimpática.

A atividade parassimpática é responsável pelo descanso e pela digestão. Sendo assim, quando há uma diminuição dessa atividade, a pessoa passa a lidar com problemas gastrointestinais e sensação de inquietação corporal.

Saiba mais: Estresse crônico: o que ele faz com seu cérebro (e como se proteger)

Como nós percebemos os sinais corporais?

Um dos conceitos mais importantes para entender por que e como percebemos esses sinais corporais precoces é a interocepção.

De forma simples, a interocepção é a capacidade do cérebro de perceber, interpretar e dar significado aos sinais internos do corpo.

Isso inclui sensações como batimentos cardíacos, respiração, tensão muscular, temperatura, fome, saciedade e até estados mais difusos, como “um aperto no peito” ou “um nó no estômago”.

Não se trata de um processo puramente passivo, pois a interocepção envolve uma rede complexa de regiões cerebrais que integram informações vindas do corpo e as conectam com emoções, memórias e processos cognitivos.

Em outras palavras, é por meio da interocepção que o cérebro transforma sinais fisiológicos em experiências subjetivas.

Esse sistema desempenha um papel central na forma como o sofrimento psíquico é vivenciado.

Quando há ativação prolongada de sistemas de estresse, como o eixo HPA e o sistema nervoso autônomo, o corpo gera uma série de sinais internos.

A interocepção é o mecanismo que permite que esses sinais sejam percebidos e compreendidos. No entanto, essa percepção nem sempre é clara ou precisa.

Em algumas pessoas, há uma baixa consciência interoceptiva: os sinais do corpo estão presentes, mas passam despercebidos ou são vagamente registrados, aparecendo apenas como um mal-estar inespecífico.

Isso pode fazer com que o sofrimento emocional permaneça sem identificação por mais tempo, manifestando-se principalmente como sintomas físicos.

Em outros casos, ocorre o oposto: uma hipersensibilidade interoceptiva, em que pequenas variações corporais são percebidas de forma intensa e, por vezes, interpretadas como ameaçadoras. Isso é bastante comum em quadros de ansiedade.

É justamente por isso que muitas abordagens terapêuticas incluem algum tipo de treino da interocepção. Práticas como mindfulness, técnicas de respiração e intervenções somáticas ajudam a pessoa a voltar a atenção para o corpo de maneira mais precisa e menos reativa.

Com o tempo, isso favorece uma percepção mais refinada dos sinais internos, permitindo reconhecer precocemente estados de estresse ou sobrecarga emocional.

Como os sinais corporais podem ajudar no tratamento?

Os sinais corporais de sofrimento psíquico podem ser um primeiro sinal de alerta, que auxilia a perceber se o tratamento está seguindo o caminho certo e se está sendo efetivo.

Isso porque esses sintomas muitas vezes são percebidos antes de entender que se trata de um sofrimento psíquico de fato.

Sendo assim, a pessoa pode relatar esses sintomas para o médico psiquiatra ou psicólogo de forma que é possível fazer uma intervenção precoce antes que o sofrimento se intensifique.

Um exemplo é quando alterações de sono e de energia podem estar relacionadas ao início de um episódio de humor em transtornos como a depressão unipolar e o transtorno afetivo bipolar.

Geralmente estes são os primeiros sinais de um episódio de humor e, se relatados a tempo ao psiquiatra, é possível intervir para diminuir os riscos durante o episódio de humor.

Já dentro da psicoterapia, por exemplo, é possível trabalhar diretamente com os sinais corporais para ajudar a melhorar a saúde mental.

A terapia cognitivo-comportamental (TCC) costuma trabalhar com a relação entre pensamentos, emoções e respostas fisiológicas, acreditando que alterações em um desses fatores afeta diretamente todos os outros.

Desta forma, pode-se trabalhar com a reestruturação cognitiva para diminuir a percepção de perigos e ameaças, diminuindo o estresse e consequentemente diminuindo a resposta fisiológica ao estresse.

Outra forma de diminuir o estresse é através da exposição gradual, que ajuda a dessensibilizar o organismo a essa resposta.

Por fim, também é possível usar técnicas de relaxamento para estimular a atividade parassimpática, o que aumenta o bem-estar e combate diversos dos sintomas corporais citados anteriormente.

Embora mente e corpo sejam tratados como entidades separadas, é verdade que o corpo pode dar sinais de sofrimento psíquico antes mesmo que a pessoa perceba estar lidando com uma questão psicológica.

Se você percebe que está lidando com sintomas corporais frequentes mas, ao examinar com um médico, não há explicação médica congruente, pode ser que você esteja lidando com uma questão psicológica.

Se for esse o caso, não hesite em procurar ajuda de um profissional da saúde mental!

Referências

Megha Gokul et al. (2025). The neurobiology of stress: Implications for health and emerging interventions. Medical Journal Armed Forces India. https://doi.org/10.1016/j.mjafi.2025.09.008 

Agorastos, A., Chrousos, G.P. The neuroendocrinology of stress: the stress-related continuum of chronic disease development. Mol Psychiatry 27, 502–513 (2022). https://doi.org/10.1038/s41380-021-01224-9

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