Quando ouvimos falar sobre casos de saúde mental severos, um dos casos que mais costuma se destacar são os quadros associados a alucinações, em especial as alucinações auditivas, também conhecidas como “ouvir vozes”.
Existem muitos casos de pessoas que fizeram coisas que não fariam normalmente, e justificam falando que ouviram vozes comandando elas a fazer aquilo. Já outras pessoas comentam que ouvem vozes que fazem discursos depreciativos, ou pessoas que dizem conseguir ouvir a voz de Deus, por exemplo.
Porém, também existem pessoas que ouvem vozes que não são prejudiciais para o seu funcionamento, e até mesmo casos em que a pessoa diz ser capaz de controlar essas vozes e só ouvir quando quiser. Tudo isso abre a questão: será que todo fenômeno de ouvir vozes é patológico?
Neste texto, vamos tentar entender como os pesquisadores e especialistas entendem o fenômeno de ouvir vozes, em uma tentativa de diferenciar quadros verdadeiramente patológicos de quadros que podem ser considerados saudáveis ou, ao menos, não prejudiciais para o funcionamento do indivíduo.
O que são alucinações auditivas?
As alucinações auditivas podem ser entendidas como o fenômeno de ouvir algum som quando, na realidade, não há um estímulo no ambiente produzindo este som.
Algumas pessoas relatam ouvir vozes falando coisas claramente, enquanto outras ouvem sons diversos como explosões, instrumentos musicais, entre outros.
O que define a alucinação auditiva é justamente a ausência de algo que esteja produzindo o som que a pessoa está percebendo. Ou seja, a pessoa ouve vozes de outras pessoas quando está completamente sozinha, ou ouve sons altos e repentinos em momentos nos quais tudo está quieto, por exemplo.
Um fenômeno parecido com a alucinação auditiva é a ilusão auditiva, na qual a pessoa interpreta um som de forma diferente do que ele é. Em outras palavras, existe de fato algo no ambiente produzindo aquele som, mas a pessoa está o entendendo de forma distorcida, como quando ouvimos alguém chamando nosso nome quando na realidade a pessoa apenas falou uma palavra parecida.
Dentro da psiquiatria, quando não geradas por uma condição neurológica ou pelo uso de alguma substância, as alucinações auditivas são tidas como manifestações patológicas. Elas ocorrem quando a pessoa está em estado de vigília e costuma ser de forma involuntária. Em outras palavras, ocorrem quando a pessoa está acordada e ela não tem controle sobre essas alucinações.
No entanto, ao longo das décadas, muitos pesquisadores foram percebendo casos de alucinações auditivas não-patológicas, como pessoas que ouviam vozes que não traziam prejuízos funcionais, ou que eram capazes de controlar quando ouviam as vezes.
A compreensão das alucinações auditivas como inerentemente patológicas acabou se tornando um problema, pois pessoas que se encaixam nesses casos não prejudiciais acabam por ter um receio de serem vistas como loucas e julgadas, tanto por seus círculos sociais quanto em contextos clínicos. Por isso, tornou-se necessário uma maior compreensão do fenômeno e os contextos em que ele se manifesta a fim de evitar diagnosticar erroneamente pessoas que não estão, de fato, sofrendo episódios psicóticos.

Como diferenciar alucinações auditivas patológicas das não-patológicas?
Ao longo das pesquisas com pessoas que vivenciavam as alucinações auditivas de forma não patológica, os pesquisadores conseguiram diferenciar alguns contextos em que o fenômeno de ouvir vozes pode ser considerado um fenômeno normal, não indicativo de um transtorno mental.
Pesquisas mostram que cerca de 8% dos homens e 12% das mulheres já vivenciaram ao menos um episódio de alucinação auditiva ao longo da vida, mesmo sem um diagnóstico de transtorno mental. Há também pesquisas que mostram que breves alucinações auditivas podem ocorrer em pessoas mesmo na ausência de transtornos mentais ou problemas neurológicos, também na ausência de substâncias psicoativas.
Um elemento chave para diferenciar uma alucinação auditiva patológica de uma não-patológica é justamente a avaliação das consequências da alucinação. Neste contexto, as alucinações auditivas podem ter consequências tanto positivas quanto negativas.
A título de exemplo, foram observados casos em que pessoas que sofreram traumas severos passaram a ouvir vozes encorajadoras que as ajudavam a lidar melhor com o trauma.
A partir disso, entende-se que alucinações não-patológicas trazem consequências positivas como melhoras no funcionamento social e interpessoal, ou seja, as alucinações ajudam a pessoa a ter uma melhor qualidade de vida, cultivando relações e promovendo autocuidado.
Além disso, há também o fator da percepção do indivíduo acerca da origem das vozes. Quando uma pessoa acredita ou identifica que a voz vem de algo em que ela confia (como um ente querido falecido ou uma entidade espiritual na qual a pessoa acredita), maiores as chances de se tratarem de alucinações não-patológicas.
Ouvir vozes e o contexto cultural
Entender o contexto cultural no qual as alucinações auditivas ocorrem também é de grande importância para entender se estamos lidando com um quadro patológico ou não.
Em certos contextos, ouvir vozes pode ser até mesmo esperado, como em determinadas religiões e rituais. É o caso também das pessoas que se dizem médiuns e que conseguem contatar entidades não humanas, como antepassados ou entidades metafísicas. É importante ressaltar que, nestes casos, é possível controlar quando a pessoa irá ouvir vozes, ou seja, o fenômeno se dá de forma limitada ao contexto.
É diferente dos casos de psicose em que a pessoa sofre de delírios religiosos que acabam prejudicando seu funcionamento nos demais contextos da vida, como nas relações interpessoais, no contexto acadêmico e profissional.
Reação em relação ao fenômeno
A reação da pessoa em relação ao fenômeno de ouvir vozes também pode indicar se é um caso patológico ou não. Em geral, após uma alucinação auditiva, a pessoa tenta fazer sentido daquilo que vivenciou. Se ela tiver recursos para fazer sentido disso, como por exemplo a crença em alguma religião, crença em algo paranormal, filosofia de vida, entre outros, pode ser que ela consiga lidar com o fenômeno sem que ele traga prejuízos funcionais.
No entanto, quando a pessoa não consegue fazer sentido por algum motivo, ela pode sentir como se estivesse perdendo a cabeça e o controle de sua vida. Essas pessoas tendem a ver as alucinações como algo a ser evitado, muitas vezes indo em busca de ajuda médica para resolver esse problema. Há também pessoas que tentam ignorar as vozes, ou que acabam desenvolvendo um tipo de ressentimento em relação a essas alucinações, o que pode causar prejuízos em seu dia-a-dia.
A relação que a pessoa estabelece com as vozes que ouve acaba por ser um ponto muito importante para diferenciar um quadro patológico, tendo em vista que, caso haja uma relação saudável, é mais provável que a pessoa não sofra impactos no seu funcionamento.

Embora a ocorrência de alucinações auditivas possa ser um fenômeno relativamente comum e não necessariamente indicativo de um transtorno psiquiátrico, é fundamental estar atento ao impacto dessas experiências.
Quando tais sensações começam a se tornar frequentes, intensas ou passam a interferir negativamente na sua qualidade de vida, no desempenho de tarefas diárias ou no bem-estar emocional, a busca por um profissional de saúde mental é essencial.
Se você percebe que está lidando com sintomas como alucinações e sente que elas podem estar prejudicando sua qualidade de vida, não hesite em buscar a ajuda de um profissional da saúde mental!
Referências
Iudici, A., Quarato, M., & Neri, J. (2019). The phenomenon of “hearing voices”: not just psychotic hallucinations—a literature review. Community Mental Health Journal, 55(1), 6–13. https://doi.org/10.1007/s10597-018-0359-0
Luhrmann, T. M., Chen, X., & Baumeister, D. (2023). When Spirit Calls: A phenomenological approach to healthy voice-hearers. Schizophrenia Bulletin Open, 4(1). https://doi.org/10.1093/schizbullopen/sgad025


