Imagine olhar para sua mãe e jurar que ela foi substituída por uma sósia. Para quem sofre da Síndrome de Capgras, esse é um terror vivido, e a ciência está começando a entender por quê.
Neste texto, vamos falar sobre o que é a síndrome de Capgras, condições associadas à síndrome, o que se sabe sobre ela até hoje, bem como possibilidades de tratamento.
O que é síndrome de Capgras?
A síndrome de Capgras é uma condição na qual a pessoa acredita que as pessoas ao seu redor foram substituídas por sósias, especialmente nas relações mais próximas como casamento, família, entre outras.
A pessoa acredita que aquele indivíduo à sua frente é um impostor que se parece e age igual ao ente querido, o que pode gerar sentimentos de desconfiança e medo. Em casos mais severos, a pessoa acredita que seus entes queridos foram substituídos por seres não-humanos, como aliens ou robôs.
Esse estranhamento das pessoas conhecidas pode ser agudo (durar poucas horas ou dias), crônico (durante anos) ou ocorrer em episódios intermitentes.
O transtorno, que não está presente no DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), foi descrito primeiro por Joseph Capgras, um psiquiatra francês do século XIX.
É considerado uma síndrome de falsa identificação delirante, um termo genérico que descreve condições nas quais a pessoa acredita que a identidade de uma pessoa, objeto ou lugar foi, de alguma forma, alterada.
Apesar da condição ser considerada um delírio, a síndrome é mais comum em transtornos neurodegenerativos e casos de lesões cerebrais, embora ainda possa acontecer em pacientes com transtornos psicóticos, como a esquizofrenia e a psicose breve, e até mesmo transtornos de humor.
A síndrome de Capgras é bastante rara. Estima-se que a prevalência seja de 0,12% na população geral, e 1,3% em indivíduos com algum transtorno mental. Ela também é mais comum em mulheres do que em homens, afetando três mulheres para cada dois homens.
Histórico da síndrome de Capgras
A síndrome foi descrita inicialmente em um artigo publicado em 1923 por Joseph Capgras e Jean Reboul-Lachaux. Neste artigo, os autores contam o caso de uma mulher francesa que se queixava que seu marido e outras pessoas de sua convivência foram substituídas por sósias.
Madame M., como ficou conhecida a primeira paciente da síndrome, acreditava que seu marido e sua filha eram constantemente substituídos por sósias, e que existiam inúmeras sósias de seus entes queridos e até de si mesma. Sua convicção de substituição era tanta que ela acreditava que seu marido original havia falecido e desejava se divorciar do que seria um sósia.
Inicialmente, a síndrome foi entendida como algo puramente psiquiátrico, podendo até mesmo ter alguma relação com a histeria feminina, uma categoria diagnóstica da época que caiu em desuso com o desenvolvimento da compreensão da saúde mental.
No entanto, nos anos 1980, percebeu-se que a síndrome de Capgras estava frequentemente atrelada a casos de doenças neurodegenerativas e de lesões cerebrais, o que ajudou a compreender que pode haver um componente neurobiológico por trás do problema.
Sintomas da síndrome de Capgras
Os sintomas da síndrome de Capgras incluem:
- Uma crença genuína de que um familiar próximo, um amigo ou outra pessoa significativa foi substituída por um impostor;
- Uma mudança repentina no comportamento ao lidar com essa pessoa que se acredita ter sido substituída;
- Sentimentos de medo e ansiedade na presença do suposto impostor;
- Agir de forma agressiva em relação ao suposto impostor, seja por meio verbal ou físico, incluindo ameaças e tentativas de ataque;
- Agir de forma agressiva com outras pessoas significativas que não acreditam que há um impostor;
- Sentimentos de desconfiança das pessoas mais próximas, incluindo pessoas que não acredita terem sido substituídas;
- Desacreditar de evidências que mostram quem o suposto impostor não é um impostor;
- Desenvolver uma fixação em expor o impostor.
É interessante notar que a maior parte dos pacientes com síndrome de Capgras não chegam a entrar em luto pela pessoa que supostamente foi substituída, nem tentam buscar ajuda de policiais, por exemplo.
Ao perguntar para uma dessas pessoas se ela possui evidências de que se trata de um impostor, a pessoa tem dificuldades para explicar claramente em palavras a distinção entre a pessoa original e o suposto impostor.

O que causa a síndrome de Capgras?
Por muito tempo, as causas da síndrome de Capgras foram um mistério. Até que, na década de 80, percebeu-se que a síndrome é mais frequente em casos em que há danos neurológicos, apontando para a possibilidade do transtorno ter alguma origem neurobiológica.
Com o avanço das pesquisas sobre reconhecimento facial, especialistas perceberam que existem dois caminhos neurológicos: um consciente e um inconsciente.
Isso significa que uma pessoa pode reconhecer um rosto e, ao mesmo tempo, não reconhecê-lo totalmente. É o que ocorre nos pacientes com síndrome de Capgras.
Eles reconhecem que aquele rosto pertence a uma pessoa conhecida, como por exemplo o marido ou o próprio filho. No entanto, a parte inconsciente desse reconhecimento parece não estar funcionando plenamente, causando um estranhamento que faz com que a pessoa acredite se tratar de um sósia.
Em especial, essa parte inconsciente do reconhecimento de faces está relacionada a uma resposta emocional autônoma diante do reconhecimento de uma pessoa. Ou seja, quando a pessoa sofre de síndrome de Capgras, ela consegue reconhecer o rosto de seus entes queridos, mas não apresenta essa resposta emocional autônoma, sentindo então que tem algo de errado.
Contudo, vale lembrar que, pela síndrome ser mais frequente em pacientes com lesões cerebrais, pode ser que existam outras estruturas influenciando no surgimento dos sintomas, o que ainda precisa ser mais investigado.
A síndrome de Capgras se diferencia da prosopagnosia justamente porque a pessoa consegue reconhecer conscientemente o rosto, sabendo a quem ele pertence, apesar de negar a autenticidade daquele rosto. Já na prosopagnosia, a pessoa não conhece identificar e reconhecer rostos em geral.
É possível tratar a síndrome de Capgras?
Por se tratar de uma condição bastante enigmática, a síndrome de Capgras não possui um tratamento específico. Geralmente, o tratamento é feito pensando na condição subjacente, como as lesões neurológicas ou transtornos mentais relacionados.
Em alguns casos, é possível que o tratamento também seja acompanhado de medicamentos antipsicóticos para auxiliar com sintomas deliroides.
Se necessário, a pessoa pode ser internada, especialmente quando a síndrome vem acompanhada de comportamentos violentos contra si mesmo ou os outros.
Impacto da síndrome de Capgras
A síndrome de Capgras pode trazer muitos impactos na vida de uma pessoa, em especial nas suas relações com seus familiares e amigos mais íntimos.
A dificuldade em reconhecer que aquela pessoa é a pessoa real e não um impostor pode fazer com que a pessoa com a síndrome a trate de forma diferente. Da mesma forma, a própria pessoa sendo acusada de ser um impostor pode mudar seu comportamento quando interage com a pessoa que sofre da síndrome, reforçando a ideia de que poderia ser um impostor.
Quando a pessoa demonstra comportamentos agressivos, a situação pode ser ainda mais delicada. Existem casos em que a síndrome de Capgras aparece como motivação para crimes, mas é importante ressaltar que estes casos são bastante raros.
De fato, existem muitas pessoas que, apesar de estarem convencidas que seus entes queridos são sósias, continuam os tratando com afeição e não desenvolvem nenhum sentimento negativo em relação a eles, sendo mais sentimentos neutros ou uma leve apreensão por acreditar não se tratar do ente querido em si.
É importante que familiares e demais pessoas próximas de alguém que sofre de síndrome de Capgras entendam que a pessoa está sofrendo de uma condição real e que ela não está cismando de maldade.
Manter o comportamento normal perto da pessoa pode ajudar a estabelecer uma maior segurança na relação. Há casos em que conversar por telefone ou por outros meios, sem ser presencialmente, pode ajudar, pois a síndrome parece estar ligada exclusivamente ao reconhecimento facial visual.

Embora a condição seja bastante rara, a síndrome de Capgras pode causar bastante receio, especialmente naqueles que convivem diretamente com uma pessoa com esses sintomas.
Não hesite em buscar ajuda com um profissional de confiança caso haja suspeita de qualquer transtorno mental ou neurológico.
Referências
Young, A. W. (2024). Capgras delusion from 1923 to the present: A psychological point of view. Annales Médico-psychologiques, revue psychiatrique, Volume 182, Issue 9, November 2024. Pages 876-881, https://doi.org/10.1016/j.amp.2024.05.015
Carson, A. (2023). Capgras syndrome. Brain, Volume 146, Issue 10, October 2023. Pages 3955–3957, https://doi.org/10.1093/brain/awad294


