Treinos para o cérebro funcionam? O que sabemos sobre exercícios cognitivos na saúde mental

Muitos aplicativos prometem melhoras milagrosas no desempenho da memória e da atenção, mas isso pode ser puro marketing. Saiba mais aqui!

O que você faria se fosse possível melhorar sua memória e cognição apenas com um aplicativo de celular? É isso que os chamados aplicativos de jogos para treinar o cérebro prometem.

Aplicativos descritos como “ginástica cerebral” prometem melhorar a memória, o foco, prevenir demência, prevenir esgotamento mental e até mesmo melhorar quadros depressivos e ansiosos. Mas até que ponto essas promessas são verdade ou apenas puro marketing?

Muitos destes aplicativos se dizem baseados em evidências, seguindo pesquisas e técnicas da psiquiatria que fazem intervenções de treinamento cognitivo (também chamado de remediação cognitiva) no tratamento de diversos transtornos.

No entanto, o que de fato a ciência tem a dizer sobre a eficácia destes treinamentos? E isso se reflete nos jogos que encontramos nas lojas de aplicativos?

Neste texto, vamos explorar essas questões e entender, de fato, o que funciona e o que é puro marketing.

O que é treinamento cognitivo (CCT/CR) e qual  a diferença dos “joguinhos”?

O treinamento cognitivo é uma intervenção na área da saúde mental que pode auxiliar no tratamento de diversos transtornos, auxiliando a combater os sintomas cognitivos presentes nestes transtornos.

O computerized cognitive training (CCT) é um treinamento feito através de computadores que tem como objetivo fortalecer processos cognitivos, como memória, foco, função executiva, entre outros.

Trata-se de uma prática repetida e estruturada em torno de tarefas cognitivas específicas, contando com parâmetros controlados. Em outras palavras, é um treinamento bastante controlado e que não pode ser replicado facilmente em jogos digitais, por exemplo.

Já a remediação cognitiva é composta por programas estruturados mediados por um profissional da saúde mental, como psiquiatra, neuropsicólogo ou até mesmo neurologista, e tem como foco generalizar os ganhos do treinamento para a vida diária.

Ambos os tipos de treino cognitivo são feitos de forma controlada e passaram por diversas pesquisas para avaliar sua eficácia.

Já os jogos e aplicativos disponíveis em lojas digitais não passaram por esse rigor científico, de modo que, ainda que sejam baseados em pesquisas sérias, não é possível garantir resultados nem mesmo semelhantes aos treinamentos feitos em um contexto clínico.

Qual a eficácia dos treinos cognitivos clínicos?

Ainda que não haja evidências robustas sobre jogos e aplicativos disponíveis no mercado, é fato que existem muitos estudos a respeito da eficácia de treinos cognitivos no contexto clínico.

Meta-análises são estudos que reúnem diversos outros estudos sobre um assunto e que buscam analisar as evidências encontradas. Esse tipo de pesquisa costuma ser usada para compreender de forma mais robusta se um tratamento é eficaz ou não.

Atualmente, os treinos cognitivos são usados em diversos transtornos quando há prejuízo significativo na cognição, como é o caso de quadros depressivos e a esquizofrenia, e existem diversas meta-análises a respeito destes casos.

Saiba mais: Neurotoxicidade: como os transtornos mentais impactam a cognição

Treinos cognitivos na depressão

Uma meta-análise publicada em 2021 no periódico científico Neuropsychology Review mostra que há melhoras significativas no afeto (humor) e cognição após treinamento cognitivo em quadros depressivos. Contudo, poucos dos estudos analisados buscaram compreender o impacto destes treinamentos no funcionamento diário dos participantes, de modo que esses resultados não podem ser generalizados.

Contudo, isso significa que o treino cognitivo é uma técnica promissora para auxiliar no tratamento na depressão, em especial nos casos em que há um prejuízo significativo na atividade cognitiva, trazendo problemas de memória, atenção, entre outros.

Já em 2024, um ensaio clínico randomizado publicado no periódico científico Frontiers in Psychiatry buscou medir sintomas depressivos, cognição e os níveis de neurotrofina (uma proteína que ajuda na sobrevivência, crescimento e funcionamento dos neurônios) antes e depois de treinos cognitivos em pacientes mais velhos.

O estudo foi feito com uma amostra pequena de 28 pessoas, com média de idade de 66 anos, e fez uma comparação entre testes e escalas que medem sintomas depressivos e cognição antes e depois do treinamento. A neurotrofina também foi medida antes e após o treinamento.

O treinamento foi feito pela técnica computerized cognitive training (CCT), enquanto o grupo controle recebeu apenas um conteúdo educativo ao invés do treinamento cognitivo de fato.

Os resultados do estudo são promissores: após um período de 6 semanas de treinamento, os participantes demonstraram uma melhora no humor e na cognição global, havendo também um aumento perceptível nos níveis de neurotrofina.

Treinos cognitivos na esquizofrenia

Os sintomas da esquizofrenia são classificados entre sintomas positivos, como alucinações e delírios, e sintomas negativos, como sintomas cognitivos e comportamentais. Sendo assim, o tratamento da esquizofrenia precisa considerar estes dois tipos de sintomas para melhorar a qualidade de vida do paciente, o que nem sempre é possível apenas com medicamentos.

Neste sentido, pacientes com esquizofrenia costumam ser tratados de forma multidisciplinar, com programas focados em psicoeducação, habilidades sociais e treinamento cognitivo, bem como o tratamento medicamentoso.

Pesquisas mostram que o treinamento cognitivo em casos de esquizofrenia traz resultados importantes, embora modestos. Uma meta-análise publicada em 2025 no periódico científico Schizophrenia Bulletin mostra que o treinamento cognitivo tem efeito nos sintomas negativos da esquizofrenia, independente de idade, duração do transtorno, sintomas e dosagem do medicamento antipsicótico.

O estudo também mostra que programas que buscam fazer uma relação entre os treinos cognitivos e as atividades diárias tiveram um impacto maior na melhora dos sintomas negativos.

Em quadros de esquizofrenia, o treinamento cognitivo também pode ser estruturado para melhorar a cognição social, trabalhando questões como teoria da mente, processamento das emoções e empatia.

É importante lembrar, no entanto, que o tratamento da esquizofrenia é complexo e multidisciplinar, de forma que os resultados do treinamento cognitivo são profundamente afetados pelos outros tratamentos. Pesquisas mostram que pacientes com esquizofrenia precisam tratar primeiramente questões de motivação e de aderência ao tratamento antes de poderem se beneficiar de um treinamento cognitivo.

Além disso, evidências sugerem que o treinamento cognitivo e as habilidades sociais são recíprocas, no sentido de que os dois tendem a melhorar simultaneamente. Usando a ideia da teoria do aprendizado social, é possível entender que o treinamento de habilidades sociais dependem de processos cognitivos durante o aprendizado de comportamentos desejados. Sendo assim, déficits na cognição podem se mostrar uma barreira significativa no treinamento de habilidades sociais.

Os limites dos treinos cognitivos

Apesar de uma série de evidências promissoras, é importante ressaltar que os treinos cognitivos possuem limitações.

Muitas das pesquisas não chegam a demonstrar evidências de que os treinos trazem uma melhora generalizada a longo prazo. Em outras palavras, ficar melhor em um jogo que envolve a memória, por exemplo, não significa que a pessoa melhorou sua memória como um todo.

Além disso, a qualidade dos estudos presentes é bastante heterogênea e foram feitos com amostras pequenas (poucos participantes), abrindo espaço para questionamentos acerca dos resultados.

Sendo assim, quando um jogo ou aplicativo de ginástica mental diz ser baseado em evidências, vale lembrar que os achados científicos destas pesquisas costumam ser extrapolados para fins de marketing.

Em outras palavras, ainda que existam evidências de que determinadas atividades podem melhorar a memória, por exemplo, as evidências se referem a condições específicas e muito provavelmente os resultados são exagerados pelos desenvolvedores do jogo/aplicativo.

É importante sempre desconfiar de promessas grandes e milagrosas, como a ideia de prevenir o Alzheimer ou curar a depressão ou ansiedade, por exemplo.

Essa questão do marketing desses aplicativos é tão relevante que já houveram casos de justiça envolvendo grandes empresas do ramo, considerando suas promessas como propaganda enganosa ao fazer consumidores acreditarem que poderiam ter uma performance melhor no trabalho ou na escola e até mesmo desacelerar o declínio cognitivo da idade ao usar o aplicativo.

Leia mais: Função executiva e os prejuízos nos transtornos mentais

Quando “ginástica para o cérebro” pode fazer sentido?

Se existem tantas pesquisas com resultados promissores sobre treinos cognitivos, isso significa que, de alguma forma, eles podem ajudar, certo? Contudo, é importante ter em mente em quais contextos faz sentido que o tratamento seja complementado com esses treinamentos.

Para além de tratamento complementar na depressão e na esquizofrenia, o treinamento cognitivo também faz sentido em quadros de TDAH (transtorno de déficit de atenção e hiperatividade) e envelhecimento com queixas cognitivas (ainda que não haja necessariamente um diagnóstico de demência).

Contudo, mesmo nestes casos, não basta simplesmente incorporar joguinhos e aplicativos na rotina. É necessário seguir protocolos estruturas com a supervisão de profissionais capacitados, como psiquiatras, neuropsicólogos e terapeutas.

Além disso, nestes casos, o foco é a funcionalidade do paciente, e não apenas obter uma pontuação maior em testes de memória, por exemplo. Os treinamentos são elaborados de forma a ajudar com eficiência a memória de trabalho, a organização da rotina e a capacidade de aprendizagem.

Saiba mais: O que é Psiquiatria Intervencionista?

Buscar melhorar a saúde cognitiva é um objetivo bastante nobre, mas é importante lembrar que não existe uma estratégia milagrosa.

Para resultados eficazes, é necessário priorizar intervenções indicadas por profissionais de saúde, bem como manter hábitos saudáveis como uma alimentação equilibrada, prática de exercícios físicos, sono adequado e cultivar boas relações interpessoais.

Se você acredita estar com problemas na cognição ou na saúde mental como um todo, não hesite em buscar ajuda de um profissional habilitado!

Referências

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https://www.ftc.gov/news-events/news/press-releases/2016/01/lumosity-pay-2-million-settle-ftc-deceptive-advertising-charges-its-brain-training-program

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