O ser humano nunca esteve tão conectado. Graças à tecnologia, temos acesso a mensagens instantâneas, redes sociais, chamadas de vídeo e uma infinidade de plataformas permitem que estejamos em contato com outras pessoas praticamente a qualquer momento. Ainda assim, em meio a essa hiperconexão, a solidão parece ganhar cada vez mais espaço.
O fenômeno chegou a ser descrito por diversos governos e órgãos de saúde como uma epidemia contemporânea, chamando a atenção não apenas para o sofrimento subjetivo causado pela sensação de desconexão, mas também para suas possíveis consequências para a saúde mental e física.
O primeiro relatório global da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre conexão social mostra que 1 em cada 6 pessoas no mundo relata sentir-se sozinha. Neste sentido, é importante ressaltar que sentir-se só e estar só de fato são fenômenos diferentes, o que será explorado mais a frente.
Atualmente, estima-se que entre 17% e 21% da população entre 13 e 29 anos relata sentir-se sozinha. Embora países ricos levem a fama de maiores níveis de solidão, o problema é generalizado e também ocorre em populações de baixa renda.
Neste texto, vamos explorar os impactos da solidão na saúde mental, bem como entender de que forma esses impactos existem em tempos de redes sociais, que, na teoria, facilitam a comunicação instantânea com outras pessoas.
Solidão, isolamento social e ficar sozinho: qual a diferença?
É importante diferenciar solidão, isolamento social e o simples ato de ficar sozinho. Embora possam parecer semelhantes, essas experiências têm significados bastante diferentes.
Uma pessoa pode passar bastante tempo sozinha sem se sentir solitária, assim como pode estar cercada de pessoas e experimentar uma profunda sensação de solidão.
Solidão
A solidão pode ser entendida como um sentimento, uma sensação subjetiva de estar só. Ela está mais relacionada à forma como a pessoa percebe suas relações, surgindo quando suas relações não atendem às necessidades emocionais da pessoa.
Sendo assim, o sentimento de solidão não depende necessariamente da quantidade de pessoas ao redor. Uma pessoa pode ter família, amigos, colegas de trabalho e ainda assim sentir que não é compreendida, acolhida ou verdadeiramente conectada em suas relações.
Isolamento social
O termo isolamento social se refere ao afastamento das pessoas, das relações significativas e da rede de apoio. Quando em isolamento, a pessoa passa a ter menos contato com familiares, amigos, colegas ou outros grupos dos quais costumava participar.
Esse afastamento pode acontecer por diferentes razões e, quando prolongado, pode reduzir as oportunidades de receber apoio emocional, compartilhar experiências e manter vínculos significativos.
Neste sentido, o isolamento social também pode alimentar a própria solidão, criando um ciclo em que quanto menos a pessoa se relaciona, mais difícil pode parecer retomar os contatos.
Ficar sozinho
Ficar sozinho, no sentido de passar um tempo curtindo sua própria companhia, é um hábito saudável quando se trata de uma escolha. O ficar só, neste caso, também é chamado de “solitude”.
Em outras palavras, ficar só pode ser bom quando a pessoa ainda mantém as conexões necessárias com pessoas significativas, mas permite-se um tempo a sós para poder descansar, organizar os pensamentos, dedicar-se a interesses pessoais ou recuperar energia depois de interações sociais.
Quando ficar sozinho é uma escolha, trata-se de um hábito importante de autocuidado. Já quando esse tempo sozinho é algo imposto pois suas relações não vão bem, aí sim podemos falar sobre questões de solidão e isolamento social.
Entenda melhor: Os benefícios de ficar sozinho
Como a solidão afeta a saúde mental e física?
Nas últimas décadas, saíram diversos estudos mostrando que a solidão pode ter um impacto significativo na saúde, tanto física quanto mental. O impacto é tão grande que a solidão chega a ser comparada a fumar 15 cigarros por dia.
No que tange a saúde física, a solidão está associada a aumento em problemas como obesidade, sedentarismo, aumento no risco de demência e problemas cardiovasculares como AVC e ataque cardíaco.
Outros problemas recorrentes associados à solidão são inflamações crônicas, distúrbios do sono e enfraquecimento do sistema imunológico.
Na saúde mental, os impactos são bastante visíveis. Um estudo publicado em 2025 mostra que pessoas que se sentem solitárias com mais frequência tendem a ter uma chance maior de desenvolver sintomas depressivos, bem como apresentam mais “dias ruins” de saúde mental quando comparados a pessoas que não se sentem solitárias com tanta frequência.
Além disso, a solidão está associada a uma mortalidade precoce maior, o que pode estar relacionado tanto com os prejuízos na saúde física quanto na saúde mental. A solidão pode agravar significativamente sintomas de transtornos mentais, aumentando, consequentemente, a ideação suicida.
O uso de substâncias também está associado a sentimentos de solidão, de forma que o abuso serve como uma válvula de escape deste sentimento. Não é raro que algumas pessoas tenham dificuldade em socializar sem o uso de alguma substância envolvida.
Fatores de risco para a solidão
Algumas populações estão especialmente suscetíveis à solidão devido a forma que nossa sociedade é organizada. Dentre estes grupos estão:
Idosos
Pessoas na terceira idade estão mais suscetíveis por diversos fatores, como a perda da socialização com colegas de trabalho por conta da aposentadoria, bem como a perda de entes queridos que também estão na mesma faixa etária.
Adolescentes
A solidão entre adolescentes pode ser um fenômeno mais recente, considerando que a adolescência é uma época em que ainda há bastante contato social em diversas esferas da vida, como na escola, durante atividades extracurriculares, entre outros.
No entanto, o que se vê nas últimas décadas é uma tendência maior que adolescentes e jovens adultos acabem se isolando socialmente, tendo preferência pelas interações através da tecnologia e das redes sociais, o que nem sempre traduz em interações de qualidade e conexões que preenchem necessidades emocionais.
Pessoas que vivem em grandes centros urbanos
Os grandes centros urbanos podem ter uma grande densidade populacional, mas isso não se traduz automaticamente em relações interpessoais de qualidade.
A verdade é que, mesmo com tantas pessoas ao redor, grande parte das pessoas em grandes centros urbanos acabam não conseguindo cultivar relações interpessoais que suprem suas necessidades emocionais.
Isso porque a vida nessas cidades costuma ser bastante corrida, de forma que as interações muitas vezes acabam sendo negligenciadas pela falta de tempo e disponibilidade.
Além disso, aqui também entra a questão das conexões através das tecnologias, que tendem a tomar um grande espaço na socialização de pessoas que vivem nos grandes centros urbanos por conta da conveniência das redes sociais e mensageiros instantâneos.
Pessoas com transtornos mentais
O estigma associado aos transtornos mentais frequentemente leva ao isolamento social. Além disso, os próprios sintomas de transtornos podem prejudicar a sociabilidade.
Pessoas com problemas de autoestima, por exemplo, podem acabar tendo receio em socializar por medo de estar atrapalhando ou encher a paciência das pessoas que gostam. O mesmo pode ocorrer com pessoas que sofrem de ansiedade social.
Já pessoas com transtornos de personalidade podem ter dificuldade em manter relações estáveis por conta dos sintomas característicos dos transtornos.
Sendo assim, a solidão no caso de pessoas com transtornos mentais pode ocorrer por diversos fatores, dentre eles os próprios sintomas do transtorno e o estigma associado que pode levar colegas, amigos e familiares a se distanciar.
Pessoas com deficiência
Pessoas com deficiência têm uma tendência maior ao isolamento social por questões de acessibilidade. Ambientes mal adaptados podem fazer com que essas pessoas não tenham muitas oportunidades de sair de casa, conhecer pessoas, fazer a manutenção dos vínculos, entre outros.
Pessoas marginalizadas
Grupos sociais marginalizados, como pessoas LGBTQIA+, também apresentam maiores chances de acabarem se sentindo solitárias.
O preconceito contra essas populações pode fazer com que haja uma exclusão das relações familiares, do trabalho, entre outros. Além disso, se a pessoa não tiver acesso a espaços inclusivos, pode ser que tenham dificuldades em fazer amizades semelhantes.

Solidão em tempos de redes sociais: hiperconexão e sensação de vazio
Vivemos em uma época em que estar conectado se tornou quase permanente. Mensagens, notificações, redes sociais e atualizações constantes fazem com que seja difícil passar muito tempo sem algum tipo de contato com outras pessoas.
Essa presença contínua pode criar a sensação de que estamos sempre acompanhados. Ainda assim, nunca foi tão simples estar conectado e, ao mesmo tempo, sentir-se sozinho.
Para entender essa contradição, é preciso prestar atenção na qualidade das interações que são estabelecidas nesses espaços virtuais. Estar exposto diariamente às vidas de outras pessoas nas redes sociais não equivale a compartilhar uma conversa significativa com um amigo, dividir uma experiência durante um jantar ou falar abertamente sobre aquilo que sentimos com alguém de confiança.
A internet ampliou nossas possibilidades de contato, mas quantidade de interação não significa necessariamente proximidade. Muitas dessas trocas são rápidas, superficiais ou marcadas pela necessidade de apresentar uma determinada imagem de si, o que pode dificultar a construção da intimidade e da sensação de pertencimento que relações mais profundas proporcionam.
Para além disso, questões como a comparação constante com outras pessoas também pode trazer um prejuízo real à autoestima, bem como a sensação de exclusão que pode ocorrer ao acompanhar a vida de amigos e familiares através de uma tela ao invés de pessoalmente.
Entenda melhor: Como a internet cria a ilusão de conexão social
Apesar de tudo isso, o uso de tecnologias e redes sociais não é de todo ruim. Essas tecnologias podem, de fato, contribuir para a aproximação de pessoas e aprofundamento dos laços, desde que usadas da forma certa: como uma ferramenta mediadora em momentos nos quais não é possível marcar um encontro presencial, por exemplo.
Além disso, a internet permite que entremos em contato com pessoas de todos os lugares, permitindo que pessoas que possuem uma maior dificuldade em fazer amizades pessoalmente consigam encontrar pessoas semelhantes online.
Em outras palavras, o uso de tecnologias não é necessariamente prejudicial às relações, contanto que a ilusão de conexão causada por comentários, curtidas e o compartilhamento de fotos e vídeos temporários não substituam interações reais e profundas.
Como lidar com a solidão?
A solidão pode parecer algo extremamente difícil de lidar, mas com os recursos certos é possível melhorar a relação consigo mesmo e com as outras pessoas. Algumas dicas para lidar com a solidão são?
Investir em conexões saudáveis
Um ponto chave para combater a solidão é investir em conexões saudáveis e interações significativas com pessoas queridas.
É importante lembrar que as amizades saudáveis não exigem uma presença constante, mas uma disponibilidade emocional para manter a relação mesmo nos momentos em que não é possível estar plenamente presente.
As redes sociais e demais tecnologias podem participar disso nos dias em que as limitações da rotina impedem um contato mais próximo.
Se você percebe que suas necessidades emocionais não estão sendo satisfeitas nas relações atuais, sempre é possível buscar novos vínculos que estejam dispostos a construir uma conexão mais profunda.
Mesmo na idade adulta, em que a tendência é ter menos oportunidades de conhecer novas pessoas, é possível fazer isso participando de atividades novas, como clubes ou cursos de algum hobby, fazer trabalho voluntário em alguma instituição, frequentar ambientes novos e permitir-se ser visto.
Vale lembrar que as relações saudáveis não são construídas da noite para o dia e é essencial ter reciprocidade para que a intimidade seja desenvolvida. Sendo assim, é necessário saber falar e saber escutar, prestar atenção no outro e estar disponível para construir esse vínculo.
Psicoterapia
Em alguns casos, a psicoterapia também pode ajudar a trabalhar as relações para que os vínculos sejam estabelecidos com qualidade.
Pessoas que sofrem de transtornos que prejudicam a autoestima ou a sociabilidade podem se beneficiar de técnicas aprendidas em terapia para mudar padrões de pensamento e comportamento que acabam por sabotar os vínculos, aumentando a efetividade interpessoal e permitindo uma resgatar amizades antigas ou fazer novas amizades.
Para além da terapia pessoal, é possível também trabalhar essas questões em terapia em grupo, tanto presencialmente quanto online, bem como participar de grupos de apoio moderados por profissionais da saúde mental.
Quando procurar ajuda profissional?
Embora a solidão seja vista como uma epidemia crescente, muitas pessoas são capazes de melhorar suas relações sem intervenção de um profissional. No entanto, para algumas pessoas, combater a solidão pode precisar de algumas etapas a mais.
Uma saúde mental prejudicada pode estar relacionada à solidão, mas também pode levar uma pessoa a se isolar socialmente.
Sendo assim, buscar a ajuda de um profissional da saúde mental assim que perceber sinais indicativos de algum transtorno, como sintomas depressivos ou ansiosos, pode ser de grande importância não só para combater a solidão, mas também para evitar um agravamento dos sintomas a longo prazo.

Pela natureza social do ser humano, não é de se espantar que a solidão tenha um impacto tão grande na saúde. Contudo, é importante ressaltar que a solidão não é uma falha de caráter e tem se assemelhado cada vez mais com uma epidemia nos tempos atuais, de forma que o cuidado não recai somente ao indivíduo que se sente só, mas também à sociedade como um todo.
Se você sente que está lidando com consequências emocionais provenientes de uma sensação de solidão e percebe que precisa de ajuda para combater este problema, não hesite em buscar um profissional da saúde mental!
Referências
Akinyemi, O. et al. (2025). The impact of loneliness on depression, mental health, and physical well-being. PLoS ONE, 20(7), e0319311. doi:10.1371/journal.pone.0319311.
Holt-Lunstad, J. et al. (2010). Social relationships and mortality risk: a meta-analytic review. PLoS Medicine, 7(7), e1000316. doi:10.1371/journal.pmed.1000316.
https://www.who.int/publications/i/item/978240112360
https://www.ufrgs.br/jornal/solidao-impactos-e-possibilidades-de-cuidado/


