Muitas vezes, nossas reações corporais são sentidas muito antes que possamos entender o que elas significam. Essas sensações corporais podem indicar os mais diversos estados afetivos, incluindo emoções positivas e negativas. Esse sentido interno que nos permite perceber como nosso corpo reage às situações tem nome: interocepção.
Neste texto, vamos compreender o que é a interocepção e de que forma ela se relaciona com sintomas ansiosos, bem como entender o ciclo das sensações internas que podem desencadear ataques de pânico.
O que é interocepção?
A interocepção é o sentido que permite a percepção do estado interno do nosso corpo. Em outras palavras, o sentido que faz com que a possamos sentir nossos processos fisiológicos internos, como a fome, a sede, a necessidade de ir ao banheiro, as palpitações quando nosso coração acelera, entre outros.
Este é um dos diversos sentidos do ser humano que não costumam ser falados quando estudamos os 5 sentidos básicos. Essa capacidade de perceber os sinais do próprio corpo desempenha um papel importante na manutenção da saúde e do bem-estar, incluindo a saúde mental.
Contudo, para que a interocepção funcione de forma adequada, a pessoa precisa saber dar significado às sensações corporais. Em outras palavras, a pessoa precisa saber interpretar o que esses sinais querem dizer para conseguir agir conforme a necessidade apresentada.
Se uma pessoa tem dificuldade em interpretar o que a interocepção capta, ela pode acabar confundindo as reações. Por exemplo, uma pessoa que sente o coração acelerado após subir alguns lances de escada pode acabar achando que tem algo de errado com seu coração se ela não conseguir contextualizar o aumento da frequência cardíaca com a atividade física exercida.
Quando se trata de saúde mental, a interocepção também recebe bastante relevância. Isso porque muitas emoções se manifestam primeiro através de reações fisiológicas, para só depois a pessoa perceber a emoção que está sentindo.
Pessoas que sofrem de alexitimia, uma condição em que há uma maior dificuldade em identificar e expressar as próprias emoções, podem acabar sentindo as reações corporais das emoções de forma bastante significativa, mas ter dificuldade em atribuir um significado a essas reações.
Pesquisas mostram que pessoas com uma maior dificuldade em interpretar os sinais internos também apresentam uma tendência maior à alexitimia. Já pessoas que apresentam maiores capacidades de autorregulação apresentam uma associação negativa com a alexitimia.
Por isso, diante de situações de incerteza sobre o que está sendo sentido, atentar-se para o corpo como se tentasse escutar o que ele tem a dizer (ao invés de apenas reagir ao que está sendo sentido), acaba ajudando bastante na autorregulação.
Leia mais: Eu me sinto ‘estranho’: como identificar e nomear emoções na prática
Qual a relação da interocepção com a ansiedade?
A ansiedade não é uma emoção, mas uma resposta fisiológica e psicológica à percepção de ameaças futuras. Quando uma pessoa está em um estado ansioso, seu corpo responde como se estivesse diante de uma ameaça concreta: o coração passa a bater mais forte, a respiração fica mais curta, pois se a pessoa está enfrentando um perigo, é importante que seu corpo esteja preparado para lutar ou fugir.
Neste sentido, muitas pessoas percebem que estão ansiosas quando percebem alguma alteração no corpo que indicam esse estado, como ao sentir palpitações ou falta de ar. É aí que entra a interocepção, sendo a capacidade de interpretar esses sinais corporais imprescindíveis para uma identificação correta do que está acontecendo.
Em 2024, foi publicada uma meta-análise (tipo de estudo que avalia outros estudos sobre um determinado assunto) avaliando a relação entre a interocepção e ansiedade. O estudo foi publicado no periódico científico Neuroscience & Biobehavioral Reviews e analisava os níveis autorrelatados de interocepção e sua relação com sintomas ansiosos.
O que os estudos mostram é que níveis maiores de interocepção não indicam necessariamente mais ou menos ansiedade. A questão, no caso, é que depende mais da capacidade da pessoa interpretar e confiar nos sinais do próprio corpo.
Contudo, níveis mais altos de ansiedade estão relacionados a uma maior atenção a sinais corporais negativos, bem como uma dificuldade maior em descrever esses sinais.
Interocepção e síndrome do pânico: como o processo se retroalimenta
Em casos mais severos, quando a ansiedade evolui para crises de pânico, a interocepção pode acabar atuando de forma a piorar os sintomas. Isso porque as crises de pânico são acompanhadas de sintomas fisiológicos tão intensos que acabam por gerar ainda mais ansiedade.
O início de uma crise de pânico se dá da seguinte forma: o coração erra uma batida ou a respiração acaba ficando mais rasa por conta de uma postura errada, por exemplo, e a interocepção avisa para o cérebro que o corpo teve alguma alteração no seu estado fisiológico.
Quando uma pessoa tem altos níveis de ansiedade e dificuldade em reconhecer que essas sensações fisiológicas acontecem em um contexto específico e que, no caso, está tudo bem, isso pode acabar desencadeando uma resposta ansiosa pois a pessoa se sente ameaçada de alguma forma.
Assim, o corpo começa a responder como se estivesse diante de uma ameaça, aumentando a frequência cardíaca e se preparando para uma situação de luta ou fuga. Contudo, como a pessoa não consegue reconhecer o que está causando isso, ela pode começar a interpretar esses sinais do corpo como um sinal de que tem algo seriamente errado e ela está em grande perigo.
Pessoas que sofrem de síndrome do pânico frequentemente relatam uma sensação de que vão morrer quando estão tendo uma crise.
Em outras palavras, quando a interocepção percebe alterações fisiológicas e estas são interpretadas como uma ameaça, a ansiedade vai subindo e intensificando as alterações fisiológicas, que novamente são percebidas pela interocepção e voltam a ser interpretadas como ameaça, de forma que o ciclo se retroalimenta até chegar ao pico da ansiedade.
Como o tratamento pode ajudar?
Entender a relação entre a interocepção e os sintomas ansiosos é só o primeiro passo quando uma pessoa está em tratamento para transtornos ansiosos e síndrome do pânico. Porém, para conseguir uma maior eficácia na redução dos sintomas, é necessário o acompanhamento de um profissional da saúde mental, como um psiquiatra e um psicoterapeuta.
Estudos mostram que o uso de técnicas específicas trabalhadas em terapias baseadas em evidências, como a terapia cognitivo-comportamental (TCC) e as terapias comportamentais, podem diminuir significativamente os sintomas ansiosos, podendo até fazer com que o paciente entre em remissão (quando a pessoa não apresenta sintomas ativos por longos períodos de tempo).
Uma revisão sistemática publicada em 2018 no periódico científico Psychological Medicine avaliou o impacto de técnicas aplicadas na terapia cognitivo-comportamental em pacientes com síndrome de pânico, e os resultados são interessantes.
Foram analisados 72 estudos, totalizando 4064 participantes, que mostraram uma maior eficácia e aceitabilidade dos pacientes com técnicas como exposição interoceptiva (que consiste em expor o paciente aos sintomas fisiológicos de uma crise de pânico e trabalhar suas reações neste momento) em tratamentos no formato face a face (presencial).
Isso quer dizer que, embora as técnicas sejam efetivas e possam ser estudadas por conta própria, a realização dessas técnicas devem ser feitas junto de um psicoterapeuta capacitado, especialmente quando há comorbidades (outros transtornos associados, como transtornos de humor ou de personalidade, por exemplo).
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Embora a interocepção seja muito importante para a manutenção do organismo como um todo, ela pode influenciar na manutenção de sintomas negativos se a pessoa não conseguir interpretar os sinais corporais corretamente. Se você sente que tem essa dificuldade e sua ansiedade frequentemente te prejudica, não hesite em procurar a ajuda de um profissional capacitado!
Referências
Van Bael K, Scarfo J, Suleyman E, et al. A systematic review and meta-analysis of the relationship between subjective interoception and alexithymia: Implications for construct definitions and measurement. PLoS ONE. 2024;19(11):e0310411. doi:10.1371/journal.pone.0310411.
Clemente R, Murphy A, Murphy J. The relationship between self-reported interoception and anxiety: a systematic review and meta-analysis of 71 studies. Neuroscience & Biobehavioral Reviews. 2024;167:105923. doi:10.1016/j.neubiorev.2024.105923
Pompoli A, Furukawa TA, Efthimiou O, et al. Dismantling cognitive-behaviour therapy for panic disorder: a systematic review and component network meta-analysis. Psychological Medicine. 2018;48:1945–1953. doi:10.1017/S0033291717003919


