Estrangement: por que alguns filhos decidem cortar relações com a família

Apesar de ser julgado em nossa sociedade, o afastamento familiar pode ter impactos positivos (e negativos) na saúde mental. Entenda!

Também conhecido como “afastamento familiar”, o estrangement tem sido um tópico bastante discutido nas redes sociais nos últimos anos. Trata-se de um afastamento deliberado de familiares com a intenção de cortar a relação com um ou mais membros da família.

Em geral, esse afastamento ocorre por iniciativa de uma pessoa, enquanto o resto da família sente-se injustiçado pelo afastamento. No entanto, dependendo do caso, esse afastamento pode ser saudável para a pessoa que se afastou, ou pode ser apenas uma fase na complexa relação entre familiares.

Neste texto, vamos falar sobre o fenômeno do estrangement, por quais motivos tende a ocorrer, os impactos psicológicos em quem se afasta e no resto da família, bem como discutir uma tendência crescente em patologizar as relações familiares de forma que prejudica a manutenção de relações saudáveis.

Por que familiares se afastam?

O afastamento familiar pode ocorrer em qualquer grau de parentesco, mas ele é mais comum entre filhos adultos e seus pais.

A decisão do afastamento pode se dar tanto por iniciativa do filho adulto quanto por iniciativa dos pais que, por um motivo ou outro, acabam por discordar do estilo de vida e valores dos filhos, resolvendo cortar a relação.

Dentre os motivos mais comuns para o afastamento familiar estão:

Reconhecimento de abusos

Nem sempre é fácil reconhecer abusos, principalmente quando eles ocorrem na infância e adolescência e são perpetrados pelas pessoas que deveriam ser nossos principais protetores: os familiares.

É frequente que pessoas só percebam e reconheçam os abusos que sofreram ao longo de seu desenvolvimento quando chegam na vida adulta, geralmente com a ajuda de um terapeuta.

Ao encarar tudo isso, muitas pessoas acabam confrontando seus pais e familiares que, muitas vezes, não admitem seus erros do passado (seja porque não lembram ou porque não querem mesmo).

Assim, os caminhos para reparação da relação são escassos e o afastamento parece ser uma das soluções mais eficazes para lidar com essas questões, especialmente se os abusos se perpetuam até a idade adulta.

Transtornos mentais

Transtornos mentais variam em severidade e, dependendo do caso, podem causar rupturas significativas na vida familiar e social, especialmente se não houver tratamento.

Muitas das pessoas que se afastam de suas famílias relatam histórico familiar de diversos transtornos não tratados, de forma que as relações entre os membros da família sejam desgastadas.

Isso não ocorre apenas em casos de transtorno delirante induzido (folie à deux), em que pessoas que convivem intimamente acabam compartilhando sintomas psicóticos, mas pode ocorrer também com transtornos mais comuns como uma depressão não tratada, transtorno bipolar e transtornos de personalidade.

Não é raro que ouvimos falar de uma pessoa que rompeu laços com seus familiares que seus pais eram narcisistas, por exemplo. Embora grande parte das pessoas assim descritas não se encaixem no transtorno de personalidade narcisista, é possível que grande parte desses pais tenham algum transtorno não diagnosticado e, consequentemente, não tratado, que acaba influenciando nas relações intrafamiliares.

Comportamentos destrutivos

Familiares podem apresentar comportamentos destrutivos que acabam por prejudicar as relações familiares. Nem sempre esses comportamentos destrutivos estão necessariamente relacionados a um transtorno mental.

Questões como traições de confiança e manipulações podem ser comportamentos destrutivos que podem ocorrer em qualquer família, independente de histórico de transtornos mentais, e são razões válidas para um afastamento, especialmente quando a pessoa não se arrepende e não demonstra mudanças no comportamento.

Abuso de substância

O abuso de substância e a dependência química são dois motivos bastante frequentes para o afastamento familiar, especialmente quando se trata de uma substância altamente destrutiva, como o álcool, cocaína, crack, entre outros.

Em geral, o afastamento ocorre depois de diversas tentativas de ajudar a pessoa a se recuperar do vício. No entanto, se a pessoa acaba tendo recaídas frequentes e não se importa em preveni-las, é compreensível que alguns familiares decidam pelo afastamento.

Divergência de valores políticos e morais

Em geral, famílias tendem a compartilhar os mesmos valores políticos e morais, mas isso nem sempre é uma realidade. A medida em que os filhos crescem e se entendem como pessoas neste mundo, não é raro que comecem a apresentar divergências políticas e morais da família de origem.

Em dinâmicas saudáveis, essa divergência de valores pode gerar discussões e trocas saudáveis, de modo a ampliar a visão de mundo dos envolvidos. No entanto, isso nem sempre ocorre, e sempre vai depender do quanto os membros da família estão abertos a essas visões diferentes.

Sendo assim, a fim de evitar maiores problemas, pessoas que divergem muito de suas famílias politica e moralmente podem optar pelo afastamento.

Religião

Outro fator que muitas vezes leva ao afastamento entre familiares é a religião. Em países em que há liberdade religiosa e cada um pode escolher a religião que deseja seguir (ou se deseja não seguir nenhuma religião), é possível que as famílias não aceitem muito bem quando um dos membros decide mudar de religião ou deixar de seguir a religião da família.

Em casos mais extremos, em que a família é estritamente religiosa, esse rompimento pode surgir por parte da própria família, que não aceita conviver com uma pessoa de um credo diferente.

Sexualidade e identidade de gênero

Pessoas que fazem parte da comunidade LGBTQ+ têm mais chances de se afastarem de suas famílias de origem do que pessoas heterossexuais. Muitas vezes, isso está relacionado às questões de divergências de valores e religião.

Nestes casos, muitas vezes o afastamento é iniciado pela própria família ao invés do indivíduo, mas também pode ocorrer por iniciativa do indivíduo LGBTQ+ ao perceber um ciclo de intolerância e abusos.

Outros fatores

Fatores como temperamento e resiliência emocional também influenciam na decisão de uma pessoa de se afastar de seus familiares. Pessoas que costumam valorizar muito o passado também têm mais chances de acabarem se afastando.

Em geral, o afastamento ocorre depois de um momento em que se atinge a gota d’água, ou seja, trata-se de um momento de ruptura depois de um longo período em que a relação entre os familiares já não ia muito bem.

No entanto, nem sempre esse é o caso. Há também casos em que o afastamento acontece gradualmente, com as partes se distanciando mutuamente por conta das diferenças.

De qualquer forma, em nenhum dos casos o afastamento é repentino: ele sempre é precedido por longos anos em que as coisas não vão muito bem na relação.

O quão comum é o afastamento familiar?

O estrangement é relativamente comum. Estimativas dos Estados Unidos mostram que 38% dos adultos estão atualmente afastados de algum familiar.

Estima-se que 24% estejam afastados de um irmão, enquanto 16% estão afastados de uma figura parental (mãe ou pai), 10% de um filho adulto, 9% de um avô, e 6% de um neto.

No Brasil, entretanto, estes dados podem variar. Existem diversos fatores na cultura brasileira que podem causar diferenças nessas estatísticas. A sociedade estadunidense costuma ser mais individualista, mas para além disso fatores socioeconômicos também podem ser um fator determinante na manutenção e dissolução de relações familiares.

Pais e mães narcisistas: todo afastamento é um caso de narcisismo?

Recentemente, com o maior acesso à informação que a internet proporciona, vimos uma onda de pessoas se referindo aos seus pais (dos quais geralmente estão afastados) como narcisistas, e muitas pessoas passaram a se identificar com essas narrativas e chamar seus próprios familiares de narcisistas.

No entanto, é importante tomar cuidado com esse tipo de categorização, pois nem todo caso de abuso em família se trata, de fato, de um narcisismo.

O transtorno de personalidade narcisista é um transtorno descrito no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) e possui critérios diagnósticos bastante claros e definidos, de forma que muitas das pessoas acusadas de narcisismo não se encaixem nos critérios.

O que acontece é que muitas pessoas podem possuir traços narcisistas sem necessariamente se enquadrar nos critérios diagnósticos. Além disso, pessoas leigas podem interpretar situações complexas como traços narcisistas quando, na realidade, não o são.

Uma mãe sobrecarregada com as demandas da vida adulta pode apresentar dificuldades em estar emocionalmente disponível na criação dos filhos e, embora isso tenha um impacto significativo no desenvolvimento emocional dessas crianças, não se trata de um indício de narcisismo.

Da mesma forma, existem também diversos transtornos mentais que prejudicam a capacidade de uma pessoa em estar emocionalmente disponível na criação dos filhos. Alguns podem ter traços parecidos com o transtorno de personalidade narcisista, enquanto outros podem não ter relação alguma, mas o resultado na criação acaba sendo o mesmo.

Sendo assim, antes de compreender uma criação como fruto de pais narcisistas, é importante levar em consideração as condições dessa criação como um todo, o histórico de vida e de saúde mental destes pais, bem como fatores histórico-culturais e diferenças geracionais que também contribuem para comportamentos errôneos na criação dos pequenos.

O afastamento familiar é para sempre?

Em geral, quando uma pessoa decide se afastar de um familiar, a ideia é terminar aquela relação da mesma forma que se termina um namoro ou uma amizade de longa data. No entanto, existem muitos casos em que o afastamento é apenas temporário.

Pode ser que isso aconteça porque as relações familiares sofrem uma pressão social maior para serem mantidas, mas também pode ser porque, no fundo, muitos desses afastamentos se dão por questões que podem ser resolvidas e a relação pode ser reparada posteriormente.

No entanto, para que a relação seja reparada de fato, muito provavelmente os dois lados da relação precisam passar por períodos de autorreflexão e uma mudança significativa de comportamento.

O papel de um terceiro no afastamento

Geralmente, quando ocorre um afastamento familiar, é comum que a parte que não queria o afastamento acabe culpando uma terceira pessoa pelo afastamento.

Essa terceira pessoa pode ser um parceiro romântico de quem se afastou, pode ser um amigo íntimo, um líder religioso ou até mesmo um terapeuta.

Apesar da influência de terceiros, é importante lembrar que uma pessoa adulta que resolve se afastar segue sendo uma pessoa adulta, com sua própria autonomia e senso crítico.

Sendo assim, culpar totalmente um terceiro pelo afastamento acaba sendo uma invalidação da decisão da pessoa que se afastou.

Impacto emocional do afastamento familiar

O afastamento familiar pode ter um impacto significativo em ambos os lados da relação.

Em geral, a pessoa que iniciou o afastamento costuma apresentar uma melhora na saúde emocional, em especial quando o motivo do afastamento está relacionado a conflitos e abusos.

Enquanto as pessoas que iniciam o afastamento relatam um aumento na autoestima e nas relações interpessoais, as pessoas que não queriam o afastamento acabam relatando sentimentos de solidão e pioras na autoestima.

O afastamento familiar também acaba por ativar uma resposta de luto ambíguo, em que não existe um desfecho verdadeiro no processo de luto pois a outra pessoa segue viva. A esperança de retomar o contato eventualmente acaba por prejudicar o processamento desse luto, de forma que a fase de aceitação nunca é alcançada.

Por fim, quando a pessoa que não queria o afastamento está em seu leito de morte, a angústia causada pela ausência da pessoa pode piorar significativamente esse momento emocionalmente vulnerável.

Afastar-se de familiares não é uma escolha fácil, mesmo quando há um ambiente familiar hostil envolvido. Geralmente, quem inicia o afastamento familiar o faz por necessidade de se afastar de fatores estressores, sendo algo que prefeririam não ter que fazer.

Se você considera se afastar de familiares que fazem mal, não hesite em buscar a ajuda de um profissional da saúde mental para auxiliar na elaboração desses sentimentos e ter um maior apoio neste momento.

Já se você sofreu um afastamento contra a sua vontade, um profissional da saúde mental pode auxiliar na recuperação da autoestima e a lidar com os sentimentos de rejeição que surgem nestes momentos, bem como ajudar a reatar o vínculo caso seja possível.

Referências

Conti, R. P. (2015). The psychology of estrangement: A systematic review. Family Relations, 64(5), 666–678. https://doi.org/10.1111/fare.12141 

Agllias, K. (2017). Missing families of the mentally ill: A social systems framework for understanding estrangement. Australian Social Work, 70(2), 197–209. https://doi.org/10.1080/0312407X.2016.1139395 

https://yougov.com/en-us/articles/52733-family-estrangement-how-often-and-why-it-happens

https://www.apa.org/monitor/2024/04/healing-pain-estrangement

https://en.wikipedia.org/wiki/Family_estrangement

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