Memória emocional: como o cérebro registra o que sentimos

As emoções têm um forte impacto na maneira que nosso cérebro registra as memórias. Entenda!

Você já se perguntou porquê se lembra de certos eventos mais do que outros? Ou como o cérebro escolhe o que é um evento marcante, e quais eventos podem ser esquecidos?

Trata-se do que chamamos de memória emocional. Neste texto, vamos entender como as emoções influenciam na consolidação de memórias e como isso é uma vantagem evolutiva, apesar de poder causar problemas.

O que é memória emocional?

Memória emocional se refere ao fenômeno no qual as pessoas conseguem se lembrar com mais facilidade de eventos que evocam emoções mais intensas do que eventos emocionalmente neutros.

Em suma, é o que faz com que algumas memórias sejam mais marcantes, tanto quando se trata de emoções boas quanto de emoções ruins.

É por isso que eventos traumáticos costumam ser lembrados com tantos detalhes, assim como eventos positivos grandiosos como um show da sua banda favorita ou o dia do seu casamento.

Por outro lado, o termo memória emocional também pode se referir a como um objeto, evento ou mesmo uma pessoa pode nos fazer sentir ao evocar uma memória que possui significado emocional.

Um exemplo é quando você conhece uma pessoa nova e sente uma simpatia de imediato porque ela usa o mesmo perfume que sua avó usava.

Pesquisas demonstram que os processos emocionais podem tanto ajudar quanto prejudicar na consolidação de memórias e, mesmo quando as emoções não alteram a precisão do conteúdo lembrado, elas ainda podem alterar a experiência subjetiva dessas recordações, alterando como um evento é lembrado.

Como o cérebro processa uma memória emocional?

Estudos de neuroimagem foram capazes de detectar as principais estruturas e sistemas do cérebro envolvidos na memória emocional. Dentre as estruturas e sistemas estão a amígdala, num papel de modulador da atenção, e o sistema límbico, no papel de modulador das emoções.

A amígdala é uma estrutura no formato de uma amêndoa que detecta a relevância emocional de um evento, em especial eventos que envolvem medo ou ameaças.

Diante de uma situação emocionalmente carregada, a amígdala serve como um modulador da atenção, fazendo com que o cérebro fique mais alerta naquele momento. Há pesquisas que mostram uma maior atividade na amígdala quando a pessoa é exposta a vídeos emocionantes em comparação a quando é exposta a vídeos neutros.

Quando a pessoa está em um estado maior de alerta, como ao sentir uma emoção mais intensa, ela acaba liberando mais hormônios relacionados ao estresse (mesmo em situações positivas), como a adrenalina e o cortisol.

Esses hormônios reforçam a consolidação das memórias no hipocampo, uma das estruturas cerebrais mais importantes para a memória como um todo.

Um estudo mais recente, publicado em 2026, mostra que, quando o cérebro está consolidando uma memória emocional, ele aumenta a coesão entre diferentes redes cerebrais. Os pesquisadores conseguiram analisar isso através de ressonância magnética funcional (fMRI).

Uma metáfora interessante para entender esse funcionamento é a metáfora da orquestra. É possível entender o cérebro como uma orquestra composta de vários músicos e instrumentos.

Durante alguns momentos, esses músicos tocam separadamente, enquanto em outros momentos eles tocam juntos em harmonia.

Nessa metáfora, é como se as emoções ajudassem na condução dessa orquestra, fazendo com que todos os músicos (ou seja, as redes cerebrais) trabalhassem ao mesmo tempo.

Dessa forma, as memórias se tornam mais precisas, detalhadas e duradouras.

Como a memória emocional pode ser vantajosa?

No que tange a evolução, muitos mecanismos do cérebro humano se desenvolveram por trazer alguma vantagem evolutiva. Com as memórias emocionais não foi diferente.

Ao longo do tempo, o cérebro “percebeu” que é bastante vantajoso se lembrar de coisas que evocam emoções intensas, como por exemplo predadores, alimentos tóxicos, entre outros. Dessa forma, poderíamos aprender mais facilmente a evitar essas situações no futuro.

Isso significa que, quando há envolvimento emocional, a aprendizagem se dá de forma mais rápida e não é necessário repetir o evento diversas vezes para aprender.

Há também a ideia de que memórias emocionais ajudam no fortalecimento de vínculos sociais, fortalecendo o pertencimento. Isso é especialmente importante porque o ser humano é social e necessitamos uns dos outros para manter-nos seguros e saudáveis.

A memória emocional pode causar problemas?

Mesmo com uma série de vantagens evolutivas, a memória emocional também pode causar alguns problemas. É o caso das memórias traumáticas.

Memórias traumáticas são memórias emocionalmente carregadas que ocorrem diante de situações de grande medo e ameaça.

Uma pessoa que sobrevive a uma situação de quase morte, por exemplo, tende a ter recordações vívidas do momento justamente por conta desse fenômeno da memória emocional.

Situações traumáticas também podem causar uma hiperatividade na amígdala, fazendo com que a pessoa passe então a associar mais estímulos neutros com eventos emocionais. Em outras palavras, ocorre uma generalização do medo.

Memórias emocionais negativas também podem ser intrusivas, ou seja, a pessoa pode acabar se lembrando desses acontecimentos mesmo sem querer. Isso pode levar a fenômenos como os pensamentos ruminativos.

O fenômeno da memória emocional está muito associado ao desenvolvimento do transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).

As emoções fortes também podem causar distorções na memória, aumentando recordações enviesadas ou imprecisas.

É possível trabalhar memórias emocionais negativas?

Quando se trata de memórias emocionais negativas, podemos pensar em traumas e como eles acabam nos prejudicando no dia-a-dia. Felizmente, isso não significa necessariamente que essas memórias vão influenciar nossa vida para sempre.

Existem diversas terapias que podem ajudar a trabalhar memórias emocionais negativas, como por exemplo:

Terapia cognitivo-comportamental (TCC)

A terapia cognitivo-comportamental (TCC) é um tipo de psicoterapia que busca identificar e modificar padrões de pensamento distorcidos. Quando se trata de memórias emocionais, elas acabam por influenciar e fomentar esses padrões de pensamento.

A TCC pode ajudar bastante através da técnica da reestruturação cognitiva, na qual o  paciente consegue confrontar a interpretação que tem dos acontecimentos e pode modificar a forma que o cérebro acessa essas memórias emocionais.

Análise do comportamento

A análise do comportamento (AC) pode auxiliar nos casos em que as memórias emocionais acabam por criar uma generalização do medo, fazendo com que a pessoa acabe desenvolvendo comportamento de esquiva em diversas situações para evitar qualquer coisa que remeta ao trauma vivido.

Através de técnicas como a exposição gradual, a AC pode ajudar o paciente a ressignificar os estímulos neutros para que eles não causem mais reações emocionais negativas.

Referências

Park, J.S., Gollapudi, K., Ke, J. et al. (2026). Emotional arousal enhances narrative memories through functional integration of large-scale brain networks. Nat Hum Behav, 10, 370–383. https://doi.org/10.1038/s41562-025-02315-1

Haas, B. W., & Canli, T. (2008). Emotional memory function, personality structure and psychopathology: a neural system approach to the identification of vulnerability markers. Brain research reviews, 58(1), 71–84. https://doi.org/10.1016/j.brainresrev.2007.10.014

https://psychology.uchicago.edu/news/new-research-explores-what-makes-emotional-memories-stick

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