Testes para TDAH ajudam — mas não fecham diagnóstico: entenda por quê

Hoje em dia, existem diversas ferramentas para auxiliar no diagnóstico do TDAH, mas quando isoladas, não podem fechar o diagnóstico. Entenda!

O transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) é um transtorno do neurodesenvolvimento que tem início na infância e, em muitos casos, seus desafios tendem a perdurar a vida inteira.

Atualmente, existem evidências que o TDAH é subdiagnosticado globalmente. Isso significa que existem muitas pessoas que têm TDAH e que nunca foram diagnosticadas adequadamente.

Essa falta de diagnósticos pode ter um alto custo, considerando quantas pessoas passam suas vidas sem o tratamento adequado para sua condição. O TDAH não identificado pode trazer prejuízos funcionais significativos, podendo ter impacto direto na vida privada, social e profissional de uma pessoa.

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Existem diversas ferramentas de triagem para TDAH que podem ajudar a identificar o transtorno tanto na infância quanto na idade adulta, como as escalas e questionários SNAP-IV, ASRS, BAARS, Conners, entre outras. Contudo, a validade dos testes aplicados na triagem precisa ser avaliada de forma criteriosa a fim de evitar falsos positivos ou falsos negativos.

O que medem os testes?

Os testes costumam ser feitos de escalas que servem para avaliar os sintomas comportamentais do TDAH em sua frequência e intensidade, bem como as consequências emocionais destes sintomas.

No desenvolvimento de um teste para avaliação de sintomas de qualquer transtorno mental, são reunidos dados sobre os sintomas na população geral, assim como na população diagnosticada, a fim de permitir uma comparação entre o que seria um comportamento esperado e o que seria indicativo do transtorno.

Sintomas do TDAH podem ocorrer em qualquer pessoa, por diversos motivos. Todo mundo pode esquecer coisas importantes às vezes, ou ter dificuldades para prestar atenção em uma tarefa que considera chata ou difícil, ou ficar hiperativo em momentos de ansiedade. Contudo, na população geral, estes sintomas ocorrem em uma determinada frequência, enquanto para pessoas com TDAH, tais sintomas ocorrem numa frequência muito maior, tendo consequências muito mais severas para seu funcionamento no dia-a-dia.

Quando se trata de crianças, é esperado que seu comportamento seja mais hiperativo e desatento dependendo do contexto. Por isso, os testes usados na infância são diferentes dos testes usados em adultos.

Para assegurar a precisão dos testes, avaliam-se os conceitos de sensibilidade e especificidade.

Sensibilidade é a proporção de pessoas com TDAH que são corretamente identificadas, já a especificidade é a proporção de pessoas sem TDAH que são corretamente identificadas como não tendo TDAH.

Os níveis aceitáveis de sensibilidade e especificidade dos testes para indicar uma ferramenta de boa precisão deve ser de cerca de 80%. Neste sentido, uma sensibilidade de 80% significa que 20% dos casos de TDAH passam não detectados pela ferramenta. Já uma especificidade de 80% significa que 20% das pessoas com resultados positivos para TDAH não têm TDAH de fato.

Em 2021, foi publicado um estudo no periódico científico American Academy of Child and Adolescent Psychiatry que buscava identificar a sensibilidade e especificidade dos testes mais usados para detectar TDAH em crianças e adolescentes por meio de uma revisão sistemática. De acordo com esse estudo, nenhum dos testes atingiu o nível aceitável de sensibilidade e especificidade, mostrando que a aplicação de testes não é o suficiente para fechar o diagnóstico de TDAH.

Quando se trata da população adulta, o risco de outros transtornos adjacentes influenciarem nos resultados dos testes é consideravelmente alto. Isso porque diversas condições que acometem essa população, como transtornos de humor, ansiedade e abuso de substâncias, também podem causar diversos sintomas semelhantes ao TDAH.

Com isso, fica claro que os testes de triagem podem ajudar a identificar chances de uma pessoa ter TDAH, mas precisam estar associados a uma investigação completa e criteriosa para fechar o diagnóstico corretamente.

Da triagem ao diagnóstico

O processo de triagem, no qual são usados os testes mencionados anteriormente, é caracterizado pelo levantamento da suspeita de um transtorno, bem como a identificação da presença dos sintomas na vida do paciente.

Para além da triagem, são necessárias entrevistas estruturadas que ajudam os profissionais da saúde mental a compreender o contexto dos sintomas, bem como o prejuízo funcional que estes sintomas causam na vida da pessoa.

As entrevistas podem ser feitas diretamente com o paciente, mas muitas vezes podem ser necessárias entrevistas com outras pessoas, como pais e professores (em crianças) ou parceiros (adultos).

No caso das crianças, a observação clínica também pode trazer informações importantes para o profissional que está fazendo a avaliação.

Já no caso dos adultos, uma das principais entrevistas estruturadas usadas é a DIVA-5, que possui alta sensibilidade e especificidade na detecção do TDAH, chegando a acertar mais de 90% dos casos positivos e negativos em alguns estudos clínicos.

Isso ocorre porque a entrevista estruturada consegue investigar com profundidade todos os sintomas e critérios diagnósticos do transtorno, bem como ajuda a compreender a possibilidade de outras causas para os sintomas. A entrevista também ajuda a documentar a frequência e o impacto funcional dos sintomas no dia-a-dia do paciente.

Outras informações importantes são histórico de desenvolvimento na infância, bem como outros diagnósticos e tratamentos que a pessoa em investigação já recebeu anteriormente. O histórico médico também pode ajudar, considerando que existem enfermidades que podem imitar os sintomas do TDAH, como deficiências auditivas ou epilepsia.

Todas as informações coletadas são comparadas com os critérios diagnósticos presentes no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), considerando questões como o histórico familiar, contexto e idade do aparecimento dos sintomas, entre outros.

Embora a avaliação neuropsicológica seja frequentemente recomendada para o diagnóstico de TDAH, existem diversos órgãos internacionais que consideram a avaliação desnecessária. No entanto, a avaliação neuropsicológica ainda pode ser benéfica para identificar condições adjacentes que podem causar sintomas similares, como transtornos de aprendizagem ou de linguagem.

Os testes neuropsicológicos podem ajudar a avaliar o desempenho de funções cognitivas como atenção, controle inibitório, memória etc., especialmente em crianças. Há estudos que indicam que crianças com TDAH exibem déficits significativamente maiores em atenção, inibição de respostas, planejamento e memória de trabalho quando comparadas a crianças com outros transtornos do desenvolvimento, como transtorno de tiques ou dificuldades de aprendizagem.

Por fim, os testes neuropsicológicos também podem documentar os pontos fortes e fracos cognitivos do indivíduo com TDAH, sendo de grande auxílio para o planejamento do tratamento e intervenções após o diagnóstico.

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As entrevistas podem ser realizadas por profissionais da saúde mental, como psiquiatras e psicólogos, ou por um médico pediatra. No entanto, o diagnóstico só pode ser fechado de fato por um profissional da medicina, como o psiquiatra ou pediatra.

O processo todo pode demorar várias horas, que podem ser distribuídas em diversas sessões de entrevistas e aplicação de testes.

Embora haja evidências de que o TDAH é, de fato, subdiagnosticado, não se pode confiar apenas nos testes psicométricos existentes atualmente para diagnosticá-lo.

Se você suspeita ser um caso de TDAH não diagnosticado, os testes podem ser um bom indicativo para procurar ajuda, mas é importante a avaliação de um profissional habilitado para diagnosticar e tratar adequadamente o transtorno.

Referências

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