As dificuldades relacionadas à saúde mental tem se tornado cada vez mais prevalente em pessoas jovens, e uma faixa etária que chama a atenção é entre os 10 e 19 anos. Isso porque há estudos que apontam que cerca de 16% dessa população está sendo diagnosticada com algum transtorno atualmente.
Existem diversos estudos que apontam uma ligação entre o uso de redes sociais e problemas psicológicos, em especial um aumento das taxas de depressão, ansiedade e problemas de autoestima.
A questão que fica é: será que as redes sociais são realmente um problema para a saúde mental de crianças e adolescentes? Será que existe alguma possibilidade do uso de redes sociais ser positivo para essa população? É que o vamos explorar neste artigo.
Como as redes sociais impactam adolescentes?
Uma pesquisa publicada em 2022 no periódico científico Clinical Child Psychology and Psychiatry revela que as redes sociais impactam adolescentes em 5 temas diferentes: autoexpressão e validação, comparações de aparência e corpo ideal, pressão para se manter conectado, engajamento social e apoio de pares, exposição ao bullying e conteúdos prejudiciais.
Além disso, o artigo também traz uma breve explicação de quais seriam os prejuízos na cognição de adolescentes com o uso excessivo de redes sociais.
Autoexpressão e validação
Segundo o estudo, os adolescentes enxergam nas mídias sociais um potencial para encorajar a autoexpressão, construindo perfis e páginas que poderiam refletir sua melhor versão.
Apesar de ser algo potencialmente libertador, considerando que muitos adolescentes podem ter problemas para se expressar em casa ou em seus ambientes sociais como escola, igreja, entre outros, há ainda adolescentes que admitem que essa exposição também vem acompanhada de uma grande valorização da opinião de terceiros.
Em outras palavras, a reação das outras pessoas levava os adolescentes a um ciclo de mudanças na sua apresentação nas redes sociais, o que muitas vezes refletia em um número de curtidas maior, trazendo emoções positivas como entusiasmo.
No entanto, essas emoções tinham duração curta, levando esses adolescentes a buscarem mais curtidas, podendo entrar novamente nesse ciclo de buscar agradar os outros para conseguir reconhecimento nas plataformas.
Comparações do número de curtidas e demais métricas de engajamento também são comuns entre esses adolescentes, podendo refletir em dificuldades com a autoestima.
Esses problemas afetam em maior escala os adolescentes que já lidam com uma ansiedade pré-existente, mas podem acometer qualquer um.
Os próprios adolescentes percebem esse ciclo e essa necessidade de validação externa como algo negativo, mas percebem também como uma parte indissociável do uso das redes sociais.
Comparações de aparência e corpo ideal
Nas plataformas focadas no compartilhamento de fotos, a questão da aparência ganha um destaque maior. Fotografias que recebem centenas de curtidas acabam sendo tidas como sinais de popularidade.
Para garotas adolescentes, o número de curtidas pode ser interpretado como confirmações de que estão de acordo com ideais de corpo e aparência enraizados na representação de beleza da mídia.
Por conta da tendência à comparação, as plataformas de redes sociais focadas em fotos podem ter um efeito bastante prejudicial na autoestima. Além disso, a ideia de um corpo ideal pode ajudar no desenvolvimento de transtornos alimentares, como a anorexia.
Por fim, a ansiedade relacionada ao corpo pode ser aumentada por comentários maldosos nas redes sociais, bem como quando há exposição ao cyberbullying focado no corpo.
Pressão para se manter conectado
Os adolescentes relataram que a interação online passaram a dominar seu dia-a-dia, chegando a sentir uma pressão para se manter conectado o tempo todo e não perder novidades.
O termo “cronicamente online” é frequentemente utilizado para descrever esse comportamento de estar sempre por dentro dos últimos memes e notícias. Embora o termo tenha uma conotação negativa para algumas pessoas, há também quem se sinta pressionado a se manter online o tempo inteiro para conseguir se encaixar nos grupos com seus amigos, por exemplo.
O receio de acabar sofrendo uma espécie de exclusão social por não estar ligado nas últimas notícias das redes sociais acaba sendo um fator que reforça esse comportamento de ficar online o tempo inteiro.
Com isso, muitos adolescentes acabam desenvolvendo um comportamento impulsivo de ficar pegando o celular e ficar descendo o feed de diversos aplicativos de redes sociais sempre que possível.
O resultado disso é, frequentemente, uma redução na qualidade e na frequência das interações offline. Em casos mais graves, isso pode gerar um afastamento de amigos e familiares.
Engajamento social e apoio de pares
Para muitos adolescentes, as mídias sociais podem contribuir positivamente para o bem-estar por meio do engajamento social com pessoas que podem apoiar umas às outras.
O apoio de pares (pessoas da mesma idade e status social) é extremamente importante em qualquer idade, mas na adolescência pode ser imensamente positivo para o desenvolvimento.
Por meio das postagens nas redes sociais, há adolescentes que conseguem fazer novas amizades ou fortalecer laços antigos. No mundo online, os adolescentes relatam uma menor pressão em relação aos encontros presenciais.
O número de amigos ou seguidores nas redes sociais também podem ter um impacto positivo na autoestima, de forma a validar sua popularidade percebida. No entanto, isso também pode ter um impacto negativo se a pessoa se perceber como pouco popular e os números servirem de confirmação dessa percepção.
Por fim, é importante ressaltar que, mesmo com muitos seguidores, há muitos adolescentes que relatam não sentir que esses seguidores realmente se importam com eles. Comparado às amizades na “vida real” (offline), essas relações online nem sempre trazem tanto apoio quanto o esperado, fazendo as amizades offline serem mais valorizadas.
Exposição ao bullying e conteúdos prejudiciais
A exposição ao bullying, chamado de cyberbullying no contexto online, é uma realidade bastante evidente nas redes sociais.
A possibilidade de anonimato que as redes sociais proporcionam também abre espaço para que pessoas mal intencionadas possam realizar esse bullying sem sofrer consequências. Existem leis que permitem a identificação de usuários anônimos nas redes sociais, mas o processo é bastante demorado e, até lá, o dano psicológico do bullying sofrido já foi feito.
Embora seja aceito pelos adolescentes que o certo seria ignorar os avanços de cyberbullies (pessoas que praticam o cyberbullying), o simples fato de estarem sendo alvo de ataques do tipo já é o suficiente para gerar grandes níveis de ansiedade, sentimentos de confusão e isolamento.
Para além do cyberbullying, existe também a possibilidade de exposição a conteúdos prejudiciais, como postagens contendo automutilação, glorificando corpos extremamente magros e discutindo dietas e dicas de emagrecimento não saudável, entre outros. Isso pode ser bastante prejudicial para pessoas que já têm algum histórico de questões de saúde mental ou que possuem alguma predisposição.
Há também uma alta veiculação de conteúdos de violência explícita, que pode chegar no feed dos adolescentes sem que eles tenham controle sobre isso, fazendo com que tenham contato com esse tipo de conteúdo de forma não intencional. A exposição a esse tipo de conteúdo pode ter grandes impactos emocionais e psicológicos, havendo casos em que as pessoas podem ter dificuldades para dormir e ficam revivendo a cena em suas mentes.
As redes sociais também impedem o desvio de notícias angustiantes, fazendo com que os adolescentes se sintam presos em um mundo de atualizações negativas constantes.
Por fim, muitos adolescentes admitem que fazem postagens de forma impulsiva quando estão se sentindo com raiva, o que frequentemente causa conflito com outras pessoas online, mas que também pode se estender para o offline.

Impacto no desenvolvimento de adolescentes
Ao analisar esses resultados diante do contexto de desenvolvimento cognitivo e social dos adolescentes permite uma compreensão maior de como as redes sociais podem impactar a saúde mental e o bem-estar durante este período da vida.
A adolescência é entendida como um período de mudanças cerebrais bastante significativas.
Nesta fase, o córtex pré-frontal não está inteiramente formado, e ele é a principal região cerebral envolvida na tomada de decisão racional. Adolescentes tendem a tomar decisões mais baseadas em emoção por conta disso.
Há também uma maior impulsividade durante este período, pois o núcleo accumbens, região importante do mecanismo de recompensa do cérebro, está hiperativo. No contexto das redes sociais, isso pode ser particularmente preocupante considerando que é possível compartilhar qualquer conteúdo com um único clique, tornando maior a possibilidade de postar algo inapropriado de forma impulsiva.
A poda sináptica, processo em que o cérebro faz uma “limpeza” de sinapses menos relevantes, começa logo ao nascimento mas dura até os 20 anos. Neste sentido, o tipo de conteúdo e a maneira que a criança ou adolescente engaja com o mundo tem uma grande influência em quais sinapses são consideradas relevantes e quais não. Desta forma, padrões de pensamento são reforçados ou enfraquecidos.
Considerando os conteúdos presentes nas mídias, é comum que os padrões de pensamento reforçados sejam negativos, considerando questões como autoimagem e senso de valor próprio.
Para além das questões neurofisiológicas, a adolescência é um período caracterizado pelo conflito entre encaixar-se e se destacar, como proposto pelo psicólogo americano Erik Erikson. Nesta fase, a experimentação com a identidade e maneiras de se portar é essencial, e as plataformas online permitem que estes conflitos se desenrolem em um espaço público.
Prejuízo na cognição
É interessante notar também que o uso de redes sociais e aparelhos tecnológicos têm correlação com pior desempenho acadêmico, capacidade de concentração reduzida e procrastinação.
Além disso, o uso problemático de smartphones está relacionado a um aprendizado mais raso, levando a problemas como criatividade reduzida, dificuldades com organização, bem como dificuldades em formar um pensamento próprio e compreender informações.
O impacto da pandemia
Na pandemia de COVID-19 que assolou o mundo no ano de 2020, o isolamento social era a principal medida de prevenção do contágio. Com isso, o tempo de tela se tornou significativamente maior, tornando as telas não apenas um espaço de entretenimento, como também de trabalho e de educação para muitas pessoas.
Com isso, a exposição irrestrita às redes sociais se tornou ainda maior. As redes e plataformas online se tornaram a única forma de socialização naquele período. Estudos da época mostram que as taxas de depressão aumentaram consideravelmente durante esse período.
É claro que grande parte desses sintomas podem ter surgido em resposta ao contexto de emergência global, de perda de entes queridos e isolamento social. No entanto, o tempo de tela é reconhecido também como um dos fatores que aumenta as chances de desenvolver sintomas depressivos, pois acaba exercendo influência em outros aspectos importantes para a manutenção da saúde mental, como o sono.
Os perigos de aliciamento online
O aliciamento de menores se tornou muito mais frequente nos últimos anos, considerando a facilidade de acesso a adolescentes nas redes sociais.
O termo “aliciamento de menores” pode ser definido como um adulto entrando em contato com menores de idade por meio das tecnologias da informação (neste caso, redes sociais) com o intenções sexuais, seja de ter um encontro sexual com o menor de idade ou produzir conteúdo pornográfico com menores. Neste caso, encaixa-se também a troca de “nudes” (fotografias sensuais sem roupas ou apenas de roupa íntima) e o sexting (troca de mensagens de cunho sexual).
Na internet, os aliciadores têm um acesso praticamente irrestrito a crianças e adolescentes, podendo convencê-los rapidamente a compartilhar imagens indevidas. Além disso, os aliciadores podem se passar por outro adolescente, aumentando as chances do adolescente ou criança desenvolver confiança nele.
Vale ressaltar que tanto o aliciamento quanto a produção de conteúdo pornográfico com menores de idade são crimes.
No entanto, muitos adolescentes não informados acabam sendo vítimas desses crimes. Pais e cuidadores que não têm acesso aos acontecimentos nas redes sociais dos filhos podem nem mesmo saber o que está acontecendo.
Ser vítima de aliciamento aumenta consideravelmente o risco de transtornos como estresse pós-traumático complexo, transtornos de personalidade, entre outros.
Embora as meninas sejam o principal alvo, a proporção de meninos que são alvos de aliciamento é consideravelmente grande. Em outras palavras, tanto meninos quanto meninas precisam ser protegidos.
Proibição de celulares nas escolas: é efetivo?
A Lei nº 15.100/2025 proíbe o uso de celulares e outros aparelhos eletrônicos portáteis pessoais por estudantes em sala de aula durante o horário de aula e durante os intervalos, salvo em caso de uso para fins pedagógicos, de acessibilidade e de saúde.
Em vigor desde o começo de 2025, a lei também prevê a elaboração de estratégias para tratar do tema do sofrimento psíquico e da saúde mental dos estudantes da educação básica, tratando também do uso imoderado de aparelhos eletrônicos como smartphones.
Neste sentido, podemos entender a lei como uma tentativa de prevenção em saúde mental por meio do engajamento de estudantes nas atividades que ocorrem no ambiente escolar, seja durante a aula ou durante o recreio.
No entanto, cabe prestar atenção a outros momentos para além da escola. É fato que a restrição no ambiente escolar pode trazer melhoras no desempenho acadêmico, por exemplo, bem como facilitar a socialização com pares durante os intervalos.
Contudo, a lei abrange apenas o que ocorre em ambiente escolar, não tendo jurisdição na vida pessoal e no ambiente doméstico dos estudantes. Neste sentido, é interessante que pais e cuidadores tomem medidas reforçadoras do hábito de se engajar em atividades offline, seja em casa ou em demais espaços de convivência que a criança ou adolescente frequente.
Embora a lei seja uma medida para ajudar na saúde mental dessa população, é importante ressaltar que ela sozinha não basta. A proteção de crianças e adolescentes é dever de toda a comunidade, não apenas escolar.

Embora as redes sociais tenham efeitos prejudiciais à saúde mental, elas também configuram um espaço interessante para a experimentação e o autodescobrimento para crianças mais velhas e adolescentes.
No entanto, o acesso a essas redes deve ser moderado, para que haja um equilíbrio entre os benefícios e malefícios de participar em comunidades online.
Se você percebe que crianças e adolescentes da sua convivência estão apresentando sinais de problemas psicológicos, não hesite em buscar ajuda profissional!
Referências
Popat A, Tarrant C. (2022). Exploring adolescents’ perspectives on social media and mental health and well-being – A qualitative literature review. Clinical Child Psychology and Psychiatry, 28(1): 323-337. doi:10.1177/13591045221092884
Bozzola, E., Spina, G., Agostiniani, R., Barni, S., Russo, R., Scarpato, E., Di Mauro, A., Di Stefano, A. V., Caruso, C., Corsello, G., & Staiano, A. (2022). The Use of Social Media in Children and Adolescents: Scoping Review on the Potential Risks. International Journal of Environmental Research and Public Health, 19(16), 9960. https://doi.org/10.3390/ijerph19169960


