A esquizofrenia é um transtorno psicótico crônico e severo que pode prejudicar significativamente a qualidade de vida. É caracterizada por alterações na percepção da realidade, influenciando a maneira que a pessoa pensa e se relaciona com o mundo.
Estima-se que cerca de 23 milhões de pessoas sofrem com esquizofrenia ao redor do mundo. Felizmente, existe tratamento para o quadro, que é feito principalmente com medicamentos antipsicóticos.
Estes medicamentos funcionam bloqueando a atividade da dopamina, um neurotransmissor importante na motivação e no aprendizado.
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Os medicamentos antipsicóticos foram descobertos “por acaso”, ou seja, os pesquisadores e profissionais da saúde da época não sabiam que existia uma correlação entre o funcionamento da dopamina no organismo e os sintomas psicóticos.
Graças a isso, posteriormente os pesquisadores começaram a associar a esquizofrenia (e demais transtornos psicóticos) a alterações no funcionamento normal da dopamina.
Contudo, também foi possível perceber que os medicamentos funcionam primariamente nos sintomas positivos (alucinações e delírios) do transtorno, não tendo tanto efeito nos sintomas negativos (afeto embotado, dificuldades cognitivas etc.).
Por conta disso, pesquisadores também passaram a suspeitar que o transtorno não seria apenas uma questão de uma dopamina em desequilíbrio, mas poderiam haver outros neurotransmissores envolvidos no quadro.
Em setembro de 2024, o surgimento de uma nova medicação, chamada xanomelina-tróspio (KarXT), pôs em cheque essa ideia da dopamina ser o principal mecanismo por trás da esquizofrenia.
Isso porque essa nova substância não age bloqueando a atividade da dopamina, mas sim nos receptores muscarínicos do cérebro.
O medicamento atua nestes receptores ajudando a regular a liberação de dopamina através da redução da liberação de acetilcolina. Por conta disso, o medicamento consegue atuar tanto nos sintomas positivos quanto nos negativos.
Embora o medicamento ainda atue na regulação da dopamina de forma indireta, fica evidente que os sintomas da esquizofrenia podem estar ligados a outros mecanismos e que a regulação da dopamina é apenas a “ponta do iceberg” do tratamento.
Breve história da esquizofrenia
Cientistas buscam entender o mecanismo neurobiológico por trás da esquizofrenia há mais de um século. Uma das primeiras descrições do transtorno data de 1893, em que o psiquiatra Emil Kraepelin descreveu a condição como uma demência precoce por conta dos sintomas negativos.
Já outro psiquiatra, chamado Eugen Bleuler, produziu diversas notas sobre o comportamento de pacientes esquizofrênicos ao longo de uma década, enquanto trabalhava no Hospital Psiquiátrico Rheinau, em Zurique.
De acordo com Bleuler, não é em todos os casos de esquizofrenia que se é observada uma deterioração progressiva da cognição, e nem todos os casos têm início na adolescência ou no início da vida adulta. Sendo assim, não poderia ser um tipo de demência precoce.
Foi então que Bleuler nomeou o transtorno “esquizofrenia”, que significa “mente dividida”. O nome diz respeito à fragmentação das funções mentais, característica central do transtorno.
Bleuler também acredita que não existiria apenas uma esquizofrenia, mas sim diversas esquizofrenias, como um espectro de sintomas que variam em severidade.
Foi também Bleuler que percebeu que a esquizofrenia teria componentes biológicos e psicológicos. Dentre os componentes biológicos está a hereditariedade do transtorno, embora não se saiba exatamente quais os genes associados.
Já dentre os componentes psicológicos, evidencia-se que fatores ambientais como adversidades na infância são de grande influência no surgimento do transtorno.
A compreensão do transtorno foi bastante reduzida e simplificada quando surgiram os primeiros medicamentos antipsicóticos, pois os sintomas positivos eram reduzidos graças ao mecanismo de bloqueio da dopamina.
Inicialmente, o primeiro medicamento antipsicótico, chamado clorpromazina, foi descoberto ao acaso. A clorpromazina era usada como anestésico para realização de cirurgias, mas os médicos perceberam que, nos pacientes esquizofrênicos submetidos a procedimentos cirúrgicos, havia uma diminuição de sintomas como alucinações e delírios.

Na época, não se sabia ainda como a clorpromazina atuava. No entanto, estudos com camundongos revelaram que a substância bloqueia os receptores de dopamina do cérebro
Junto disso, pesquisas realizadas com anfetaminas (que aumentam a disponibilidade de dopamina no cérebro) mostraram que o efeito da substância pode desencadear sintomas psicóticos em seres humanos.
A conclusão em que os pesquisadores da época chegaram é de que os sintomas psicóticos estariam relacionados a uma quantidade excessiva de dopamina no cérebro.
Contudo, a quantidade de efeitos colaterais significativos e prejudiciais que os antipsicóticos causavam nos pacientes acabou por influenciar a comunidade científica a continuar pesquisando outras possibilidades de tratamento.
A partir da década de 90, pesquisadores começaram a analisar a atividade cerebral por meio de exames como a tomografia por emissão de pósitrons (PET scan), e perceberam que o mecanismo por trás dos sintomas psicóticos podem ser mais complexos do que um simples excesso de dopamina.
As pesquisas com pacientes esquizofrênicos mostram que a atividade da dopamina está aumentada em uma região específica do estriado, uma estrutura amplamente envolvida na formação de conexões mentais entre eventos ou coisas distintas. Essa alteração pode aumentar as chances de uma pessoa com esquizofrenia fazer associações falsas ou ter percepções distorcidas.
Além disso, os cientistas descobriram que os níveis de dopamina estão reduzidos no córtex pré-frontal, interferindo, assim, em funções executivas como a resolução de problemas e a regulação emocional, que caracterizam sintomas negativos do transtorno.
Já em 2012, um professor de psiquiatria molecular na King’s College em Londres demonstrou que, em suas pesquisas, as pessoas com esquizofrenia que não respondem bem ao tratamento com antipsicóticos bloqueadores da dopamina na realidade possuem padrões de atividade da dopamina distintos das pessoas que respondem bem às medicações.
Essas investigações demonstram que a dopamina não é o único neurotransmissor envolvido na esquizofrenia.
Outros pesquisadores passaram a incluir o glutamato, um neurotransmissor fundamental na ativação dos neurônios, em seus estudos.
Pesquisas realizadas com ketamina (uma substância que bloqueia a atividade do glutamato) mostram que ela pode induzir sintomas de psicose em pessoas saudáveis.
Outras pesquisas, dessa vez focadas nas variantes genéticas associadas à esquizofrenia, mostram que pessoas com alterações em genes envolvidos na sinalização do glutamato tem um risco maior para o desenvolvimento do transtorno.
Por conta disso, nas últimas décadas, muitos medicamentos que têm como alvo o glutamato foram desenvolvidos, mas nenhum ainda passou por ensaios clínicos.
Por fim, outro neurotransmissor identificado como de interesse para o estudo da esquizofrenia é a acetilcolina, que age nos receptores muscarínicos do cérebro. Por isso, novos medicamentos sendo desenvolvidos têm como alvo esses receptores.
Contudo, apesar da descoberta de novos mecanismos relacionados aos sintomas psicóticos e sintomas negativos da esquizofrenia, é importante ressaltar que os mecanismos neurobiológicos exatos por trás do transtorno seguem desconhecidos.

Embora seja um transtorno bastante conhecido, suas causas e mecanismos ainda são difusos. Pesquisas recentes parecem corroborar com a ideia de que não haveria uma única esquizofrenia, mas diversos mecanismos diferentes que podem causar os sintomas descritos em quadros esquizofrênicos.
Se você suspeita que está lidando com sintomas psicóticos ou qualquer outro sintoma de algum transtorno mental, não hesite em buscar ajuda com um profissional!
Referências
https://www.scientificamerican.com/article/a-new-picture-of-schizophrenia-emerges-and-so-do-new-ways-to-treat-it


