Deixa de sentir prazer é, talvez, uma das experiências mais emocionalmente devastadoras que o ser humano pode passar, embora nem sempre ela seja percebida como tal.
De forma sorrateira, a pessoa vai deixando de sentir prazer nas coisas simples da vida, como o sabor do café pela manhã, o entusiasmo de reencontrar um amigo ou a satisfação de concluir um projeto.
Não se trata de uma tristeza profunda, mas sim do silenciamento do sistema de prazer do cérebro. Aos poucos, o mundo perde seu sabor, seu brilho e sua capacidade de elicitar emoções positivas.
Entender esse fenômeno é fundamental para compreender a complexidade de diversos transtornos.
A anedonia não é uma escolha ou uma falha de caráter, mas uma barreira biológica e psicológica que impede o indivíduo de se conectar com o que traz sentido à vida.
Neste texto, vamos falar sobre o que caracteriza a anedonia, quais mecanismos cerebrais estão por trás dela, seus sintomas e como ela pode atrapalhar no dia-a-dia.
O que é anedonia?
A anedonia é a falta de interesse e prazer nas experiências da vida. Isso inclui coisas que antes a pessoa gostava de fazer e coisas que são entendidas como universalmente prazerosas, como satisfazer necessidades básicas como comer e dormir, ou passar tempo com amigos e familiares.
O termo anedonia vem do grego, em que an- e hédoné significam “sem prazer”.
É normal que, com o tempo, nossos gostos mudem e a gente não sinta mais vontade de fazer algumas coisas que gostávamos de fazer no passado.
No entanto, na anedonia, esse sentimento é generalizado: não temos interesse nem nas coisas que gostamos e nem nas coisas que precisamos fazer.
A anedonia pode ser tanto social quanto física.
Na anedonia social, a pessoa não sente mais vontade de passar tempo junto de outras pessoas, mesmo aquelas com quem possui relacionamentos íntimos como melhores amigos, familiares ou parceiros românticos. Ao passar tempo com essas pessoas, o indivíduo não se sente bem e não se diverte.
Já na anedonia física, o que ocorre é que os sentidos não trazem mais prazer ou alegria. A pessoa pode não sentir mais prazer em ouvir música, comer ou até mesmo em ter relações sexuais.
A anedonia não é um transtorno mental por si só, mas é um fenômeno comum em diversos transtornos e sua presença geralmente indica que algo não vai bem na saúde mental.
Se você se identifica com o que foi apresentado acima, não hesite em buscar um profissional da saúde mental.
Animais também sentem anedonia
Um fato curioso é que é possível perceber que animais também sentem anedonia.
Podemos observar isso quando o animal perde o interesse em emitir os comportamentos comuns da sua espécie, mesmo tendo oportunidades para tal.
Por exemplo, um animal que não sente vontade de comer mesmo tendo acesso à comida abundantemente. Outro exemplo mais específico é um camundongo que não apresenta o comportamento de roer, mesmo tendo uma abundância de materiais para ele roer em seu ambiente.
Como não podemos diagnosticar animais com transtornos mentais, não é possível dizer que estes animais estão deprimidos.
No entanto, quando são realizadas pesquisas com animais (camundongos e ratos), geralmente usa-se o estado de anedonia como um paralelo à depressão para entender quais tratamentos e intervenções funcionam, à medida em que o animal passa a voltar a emitir os comportamentos comuns à sua espécie.
Sintomas da anedonia
A experiência subjetiva da anedonia pode não ser tão perceptível para quem a sente.
Uma maneira de identificar a anedonia é ao perceber que você não está sentindo suas emoções e parece que existe uma sensação de vazio onde suas emoções deveriam estar.
Isso não deve ser confundido com alexitimia, uma condição na qual a pessoa tem dificuldades em reconhecer e expressar as próprias emoções.
Alguns exemplos de como a anedonia se manifesta no dia-a-dia são:
- Indiferença;
- Tédio;
- Apatia;
- Negatividade excessiva;
- Dificuldade em planejar atividades;
- Indecisão.
Não é raro que pessoas sofrendo com anedonia também apresentem outros sintomas relacionados, como:
- Dificuldades para dormir;
- Falta de apetite;
- Diminuição da libido;
- Isolamento social.
Anedonia e apatia: tem diferença?
Embora a anedonia e a apatia possam se parecer muito quando observadas de fora, existe uma diferença chave entre as duas: a anedonia é a falta de prazer ao fazer as coisas, enquanto a apatia é a falta de energia ou motivação para fazer as coisas.
Saiba mais: Apatia emocional: por que às vezes parece que nada importa?
Apesar de serem condições diferentes e que se assemelham em seus sintomas, as duas condições podem ocorrer simultaneamente. Ou seja, uma pessoa pode apresentar apatia e anedonia ao mesmo tempo.

Quais os mecanismos neurobiológicos por trás da anedonia?
Existem pesquisas que tentam entender quais os mecanismos neurobiológicos por trás da anedonia, ou seja, como a anedonia se apresenta no cérebro.
Algumas pesquisas demonstram que a anedonia está relacionada a uma diminuição na atividade em uma área cerebral chamada estriado ventral, cujo funcionamento é muito importante para o sistema de recompensa, motivação, aprendizado e regulação do humor.
Essa área do cérebro é onde circula grande parte da dopamina, um neurotransmissor associado ao prazer e à motivação.
Saiba mais: Mecanismo de recompensa: como o cérebro processa nossas conquistas
Embora não seja possível dizer que essas alterações causam a anedonia (até porque pode ser a anedonia que causa essas alterações), é importante ter em mente que existe todo um mecanismo neurobiológico que pode nos dar pistas de como tratar quadros de anedonia.
Qual a relação da anedonia com transtornos mentais?
A anedonia é uma experiência comum em diversos transtornos mentais, como a depressão, a esquizofrenia e o transtorno por uso de substâncias.
Ela também pode surgir em algumas condições não psiquiátricas, como deficiência de vitamina D e hipotireoidismo.
Portanto, para que possamos entender que a anedonia está associada a algum transtorno mental, é necessário buscar a avaliação de um profissional, além de verificar se a anedonia vem acompanhada de outros sintomas que indiquem a presença de um transtorno mental propriamente dito.
Vale lembrar que, além destes transtornos, a anedonia também está presente em diversas outras condições, como no transtorno afetivo bipolar (TAB), transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), lesões cerebrais e mal de Parkinson.
Anedonia na depressão
A anedonia é um dos sintomas centrais da depressão, afetando 7 em cada 10 pessoas diagnosticadas com transtorno depressivo maior.
Diferente de uma tristeza passageira, ela se manifesta como um vazio emocional profundo, onde mesmo eventos positivos, como conquistas profissionais ou momentos em família, deixam de gerar a resposta de satisfação esperada.
Na prática, a anedonia associada à depressão costuma afetar tanto a motivação para buscar experiências quanto o prazer sentido durante a experiência em si.
A pessoa tende a se isolar socialmente não por falta de afeto pelos outros, mas porque a interação social parece exaustiva e desprovida de qualquer recompensa emocional.
Esse estado contribui para um ciclo de inatividade, pois o cérebro deixa de perceber razões para investir energia em ações que não resultam em bem-estar.
Anedonia na esquizofrenia
Na esquizofrenia, a anedonia é classificada como um sintoma negativo, o que significa que ela representa uma redução ou perda de funções normais.
Entenda melhor: Esquizofrenia: o que é, sintomas, causas e tratamento
Diferente da depressão, na qual existe um sofrimento emocional subjacente, na esquizofrenia ela frequentemente se apresenta como uma diminuição da expressividade e da capacidade de antecipar o prazer.
A pessoa pode até sentir prazer momentâneo ao comer algo de que gosta, por exemplo, mas falha em planejar ou desejar essa experiência no futuro.
Essa manifestação está intimamente ligada à avolição (falta de vontade) e ao retraimento social.
O indivíduo tem dificuldade em realizar o esforço mental necessário para converter um desejo em ação, o que muitas vezes é interpretado erroneamente por observadores externos como preguiça ou apatia, quando na realidade existe uma desconexão entre o reconhecimento de que algo é bom e a motivação biológica para fazê-lo.
Anedonia no transtorno por uso de substâncias
No contexto do abuso de substâncias, a anedonia frequentemente surge durante o período de abstinência ou após o uso prolongado de substâncias.
O uso frequente inunda o cérebro com níveis artificiais de dopamina, elevando o limiar do prazer.
Com o tempo, o sistema nervoso se adapta a esse excesso, tornando-se incapaz de reagir a estímulos naturais e sutis, como uma conversa agradável ou um pôr do sol.
Isso cria um estado onde nada é capaz de gerar satisfação, exceto a própria substância. Quando o indivíduo tenta parar o consumo, ele enfrenta um período de “deserto emocional”.
As atividades cotidianas parecem insuportavelmente entediantes e sem sentido, o que representa um dos maiores gatilhos para a recaída.
O usuário não busca a droga apenas pelo seu efeito, mas também para escapar da incapacidade de sentir qualquer coisa.
Qual o impacto da anedonia no dia-a-dia e no tratamento de transtornos mentais?
A anedonia pode prejudicar significativamente o funcionamento de uma pessoa no dia-a-dia, pois a falta de prazer pode também aumentar as chances da pessoa não se sentir motivada para fazer nada (apatia).
Sendo assim, ela pode parar de fazer as coisas que gostava de fazer, mas também parar de cumprir com suas obrigações, como cuidar de si mesma.
As relações interpessoais também podem ser imensamente afetadas pela anedonia, especialmente se a pessoa perde a capacidade de sentir prazer e se divertir com as pessoas que ama.
Em casos em que há um transtorno mental associado, a apatia pode contribuir para uma piora dos transtornos.
No que tange o tratamento desses transtornos, a anedonia também pode trazer um grande prejuízo. Isso porque ela prejudica a autonomia do paciente.
Como a anedonia costuma ser mais persistente e menos responsiva a antidepressivos comuns, ela requer abordagens terapêuticas multidisciplinares.
O foco geralmente recai sobre o treinamento de habilidades sociais e o suporte psicossocial para ajudar o indivíduo a navegar em um mundo que ele tem dificuldade em sentir como recompensador.
A anedonia pode ser tratada com medicamentos psiquiátricos, como antidepressivos e estimulantes.
Contudo, para isso, é de extrema importância que o fenômeno seja analisado por um psiquiatra, que irá diagnosticar possíveis transtornos adjacentes e recomendar o tratamento adequado.

Embora a anedonia não seja um transtorno mental por si só, ela pode ser um sinal de que algo não vai bem com a saúde mental. Se você se identificou com os sintomas descritos ao longo do texto, não hesite em buscar ajuda com um profissional!
Referências
Ho, N., & Sommers, M. (2013). Anhedonia: a concept analysis. Archives of psychiatric nursing, 27(3), 121–129. https://doi.org/10.1016/j.apnu.2013.02.001
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK92777/
https://my.clevelandclinic.org/health/symptoms/25155-anhedonia
https://www.webmd.com/depression/what-is-anhedonia


