A história da cetamina na medicina é um tanto surpreendente, ilustrando como o reposicionamento de uma substância pode trazer novos horizontes ao tratamento de saúde mental.
Desenvolvida na década de 1960, a cetamina foi inicialmente introduzida na prática clínica como um anestésico geral, amplamente utilizado em campos de batalha devido à sua capacidade de induzir analgesia e sedação sem comprometer o sistema respiratório.
Durante décadas, sua reputação ficou restrita aos centros cirúrgicos, à medicina veterinária e, paralelamente, ao uso recreativo ilícito devido aos seus intensos efeitos dissociativos.
Contudo, com a virada do milênio, pesquisadores começaram a observar que doses significativamente menores do que as anestésicas causavam uma transformação quase imediata no cérebro de pacientes com transtornos afetivos graves, como o caso da depressão refratária.
Leia mais: Quetamina: da droga de abuso ao tratamento para depressão
O que a ciência já sabe?
Atualmente, a ciência já desvendou muitas coisas sobre o funcionamento da cetamina e do porquê ela age em quadros de depressão.
Enquanto os tratamentos antidepressivos convencionais focam na regulação lenta e gradual de neurotransmissores como a serotonina e a noradrenalina, o que demora no mínimo algumas semanas para fazer algum efeito, a cetamina age diretamente no sistema glutamatérgico.
Esse sistema é responsável pela maior parte da atividade neuronal excitatória, promovendo a ativação neuronal, sendo essencial para o aprendizado, a memória e a neuroplasticidade.
A neuroplasticidade, entendida como a capacidade do cérebro em modificar sua própria estrutura e função de acordo com as experiências do indivíduo, é um ponto chave nos efeitos rápidos da cetamina: ao alterar as conexões sinápticas, a substância ajuda a reforçar conexões positivas e descartar conexões negativas associadas aos sintomas depressivos.
Com isso, o efeito da cetamina é muito mais rápido do que dos tratamentos antidepressivos convencionais.
Justamente por isso ela é usada para tratar pacientes com ideação suicida aguda, considerando que ela consegue reduzir significativamente a suicidalidade em horas ou poucos dias.
Contudo, todos esses efeitos terapêuticos só são obtidos quando os protocolos de segurança e controle são seguidos. Pessoas que fazem o uso recreativo da substância não obtêm os efeitos terapêuticos aqui descritos.
Como a cetamina é administrada?
No tratamento da depressão, a cetamina é administrada de forma bastante controlada, pois estamos buscando seus efeitos terapêuticos, e não os efeitos recreativos buscados no abuso da substância.
Atualmente, existem algumas formas bem estabelecidas de administração da cetamina. São elas:
Cetamina injetável (IV)
A cetamina injetável é administrada pela via intravenosa (IV), ou seja, o medicamento vai direto na veia do paciente.
Essa forma de administração é feita em hospital ou clínica especializada, em um ambiente controlado e com uma equipe capacitada.
Os efeitos da cetamina injetável tem duração de cerca de 2 semanas, fazendo com que o paciente não precise administrar a medicação todos os dias, mas sim fazer a manutenção do tratamento quinzenalmente.
Esta frequência tende a diminuir com o tempo, de acordo com a avaliação da resposta feita por um médico psiquiatra.
Esketamina nasal
Outra forma de administração da cetamina é pela via nasal, a partir do medicamento Spravato®.
Apesar de ser um método menos invasivo, a aplicação ainda é supervisionada e deve seguir os protocolos de segurança estabelecidos pelas pesquisas.
Uso oral
O uso oral da cetamina ainda não é uma realidade para o público geral. Isso porque ainda estão sendo realizadas pesquisas sobre essa via de administração e, até o momento, não há aprovação formal para o uso clínico rotineiro da cetamina por via oral.

Quais as indicações clínicas da cetamina?
A cetamina não é uma substância simples que pode ser usada para tratar qualquer tipo de depressão, sendo geralmente uma última opção em casos de depressão que não respondem bem aos tratamentos convencionais.
As principais indicações para o uso terapêutico de cetamina são:
- Depressão refratária;
- Depressão associada à ideação suicida aguda (ou seja, quando a pessoa tem o desejo intenso e planos concretos de atentar contra a própria vida).
Atualmente, há também pesquisas em andamento sobre a possível eficácia da cetamina no tratamento de outros transtornos mentais. No entanto, ainda não existem evidências o suficiente que justifiquem a indicação para estas outras condições psiquiátricas.
Qual a segurança da cetamina?
Apesar dos estudos indicarem que a cetamina pode ser bastante segura se usada de forma controlada, seguindo adequadamente as indicações e protocolos de segurança, a verdade é que toda substância traz consigo alguns riscos associados.
No caso da cetamina, estes riscos são:
Efeitos colaterais mais frequentes
Os efeitos colaterais mais frequentes do tratamento com cetamina são:
- Perda de conexão com a realidade;
- Despersonalização;
- Alucinações visuais;
- Sonhos desagradáveis;
- Dificuldades de atenção, aprendizado e memória;
- Vômitos;
- Fala arrastada;
- Amnésia;
- Dificuldade para realizar movimentos;
- Delírios (com ou sem agitação psicomotora);
- Espasmos;
- Batimentos cardíacos irregulares;
- Hipotensão;
- Diminuição da respiração;
- Flashbacks que podem durar dias após a utilização da substância.
Riscos cardiovasculares
A cetamina atua como um estimulante indireto do sistema nervoso simpático. Isso significa que, logo após a administração, é comum ocorrer um aumento temporário da frequência cardíaca e da pressão arterial.
Para a maioria dos pacientes saudáveis, essa elevação é transitória e bem tolerada.
Contudo, ela se torna um perigo real para indivíduos com histórico de hipertensão descontrolada, insuficiência cardíaca, aneurismas ou doença arterial coronariana, nos quais o aumento súbito do esforço cardíaco pode desencadear eventos graves como infartos ou acidentes vasculares cerebrais.
Efeitos dissociativos
Os riscos dissociativos afetam diretamente a percepção e a cognição do paciente durante a infusão.
A cetamina altera significativamente a forma como o cérebro processa os estímulos sensoriais, induzindo um estado conhecido como anestesia dissociativa.
Na prática, o paciente pode experimentar uma sensação de desconexão profunda entre a mente e o próprio corpo, distorções na percepção do tempo e do espaço, além de ilusões visuais ou auditivas.
Em alguns casos, essa experiência é acompanhada de ansiedade intensa, episódios de pânico ou uma sensação de perda total de controle.
Embora esses sintomas geralmente desapareçam cerca de uma hora após o término da aplicação, eles exigem um ambiente de clínica médica monitorado e um suporte psicológico adequado para garantir que o paciente permaneça seguro e acolhido enquanto a substância é metabolizada.
Esse efeito colateral pode ser especialmente prejudicial para pacientes que lidam com sintomas psicóticos, como por exemplo pessoas diagnosticadas com esquizofrenia. O uso recorrente da cetamina nestes pacientes podem desencadear sintomas psicóticos, mesmo quando o transtorno se encontra em remissão (ou seja, quando os sintomas estão controlados pelo tratamento).
Uso terapêutico versus uso recreativo
A cetamina para uso terapêutico pode não ser indicada para pessoas que apresentam uma tendência ao abuso de substâncias.
Isso porque a pessoa pode começar a fazer o uso inadequado e recreativo da substância, perdendo todo o seu potencial terapêutico e trazendo uma série de outros prejuízos.
O uso recreativo costuma ser feito porque a cetamina promove algumas sensações que podem ser tidas como agradáveis, como sensação de estar sonhando, euforia, alterações na percepção, sensações eróticas e sensação de empatia.
Embora alguns destes efeitos possam surgir como efeito colateral durante o tratamento com a substância, é importante ressaltar que eles são tidos como efeitos indesejáveis e não estão associados à eficácia terapêutica.
Risco de tolerância
O uso recorrente de uma substância aumenta o risco de tolerância, ou seja, a necessidade de usar uma dose cada vez maior para conseguir os mesmos efeitos.
Esse risco está presente também no tratamento com cetamina, ainda que ele seja amenizado pelos protocolos de segurança já desenvolvidos.
Tratamento com cetamina no IPPr
O IPPr oferece o tratamento com cetamina para pacientes devidamente avaliados e qualificados, nas duas vias de administração disponíveis: cetamina injetável e esketamina nasal.
A administração da cetamina injetável é feita em consultório, em ambiente controlado e com uma equipe capacitada para lidar com quaisquer intercorrências.
Já na versão de administração nasal, o acompanhamento do tratamento é feito por uma equipe qualificada, também pronta para lidar com quaisquer efeitos colaterais resultantes da aplicação do medicamento.
É importante ressaltar que é necessária uma consulta de avaliação antes de iniciar o tratamento, e que nem todas as pessoas são elegíveis para o tratamento com cetamina, mesmo que seja um caso que se enquadra nas indicações.

Embora a cetamina traga esperança em muitos casos de depressão refratária, ela não é indicada para todos e dificilmente estará disponível para o público geral por conta dos riscos associados.
Se você percebe que está lidando com sintomas psiquiátricos insistentes, lembre-se de passar pela avaliação de um profissional e que o tratamento só deve ser feito com acompanhamento.
Referências
Wang, YT., Wang, XL., Lei, L. et al. A systematic review and meta-analysis of the efficacy of ketamine and esketamine on suicidal ideation in treatment-resistant depression. Eur J Clin Pharmacol 80, 287–296 (2024). https://doi.org/10.1007/s00228-023-03605-1
Kawczak, P., Feszak, I., & Bączek, T. (2024). Ketamine, Esketamine, and Arketamine: Their Mechanisms of Action and Applications in the Treatment of Depression and Alleviation of Depressive Symptoms. Biomedicines, 12(10), 2283. https://doi.org/10.3390/biomedicines12102283
Jollant et al. (2023). Ketamine and esketamine in suicidal thoughts and behaviors: a systematic review. Ther Adv Psychopharmacol, 13: 1-25. https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/20451253231151327
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9308739/pdf/nihms-1820760.pdf
https://psychiatryonline.org/doi/pdf/10.1176/appi.ajp.2018.17060720


