O que é transtorno de escoriação (skin picking) e tricotilomania? Como tratar? Comorbidades?

Transtornos relacionados ao transtorno obsessivo-compulsivo podem trazer prejuízos e preocupações com a saúde física. Saiba mais!

Nem todos os transtornos mentais se manifestam apenas na forma de pensamentos e emoções. Alguns aparecem na forma de comportamentos que podem trazer prejuízos à saúde, estéticos e sociais.

É o caso do transtorno de escoriação, também chamado de skin picking, caracterizado por uma compulsão por cutucar, esfregar ou arranhar a pele, e a tricotilomania, caracterizada pela compulsão por arrancar cabelos e pelos corporais.

Anteriormente, estes transtornos eram classificados como transtornos do controle de impulsos, mas na versão mais atual do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 5ª edição, texto revisado (DSM-5 TR), os transtornos são classificados como transtornos relacionados ao transtorno obsessivo-compulsivo (TOC).

Neste texto, falaremos sobre as duas condições, a relação do skin picking e da tricotilomania com a ansiedade e possíveis tratamentos para elas.

O que é o transtorno de escoriação?

O transtorno de escoriação é caracterizado pelo hábito recorrente de beliscar ou cutucar a própria pele a ponto de causar lesões e prejudicar a qualidade de vida da pessoa.

Mais comumente, a pessoa belisca o próprio rosto, braços e mãos, mas existem pessoas que beliscam muitas outras partes do corpo. A pele beliscada pode ser saudável, ou a pessoa pode ter preferência por beliscar irregularidades na pele, lesões como espinhas, calos, cascas de lesões anteriores, entre outros.

Embora grande parte das pessoas usem as próprias mãos e as unhas para se cutucar e beliscar, existem também casos de pessoas que usam pinças, alfinetes ou outros objetos perfurocortantes.

Além de beliscar e cutucar, é comum que a pessoa com esse transtorno também tenha comportamentos de esfregar, espremer, arranhar ou morder a própria pele, sempre de forma excessiva e que acaba causando lesões.

O que é tricotilomania?

A tricotilomania também é conhecida como transtorno de arrancar cabelos, pois seu principal sintoma é a compulsão por arrancar pelos corporais (incluindo os cabelos) de forma recorrente.

Esse arrancar de cabelos e pelos não tem objetivo estético, como no caso de cortes de cabeleireiro e depilação, mas são resultado de um ato compulsivo.

A pessoa com tricotilomania pode arrancar cabelos e pelos várias vezes durante o dia, em episódios breves distribuídos, ou pode apresentar episódios mais longos e intensos que duram horas, mas não ocorrem diversas vezes no mesmo dia. O hábito em si pode durar meses ou até mesmo anos, especialmente se não houver tratamento.

Os cabelos e pelos arrancados podem ser de diversos locais: do couro cabeludo, das axilas, da região púbica, ou até mesmo de pelos faciais como sobrancelhas e cílios.

Nem sempre os pelos arrancados são aleatórios. Existem casos em que a pessoa arranca um tipo específico de fio que percebe em seu corpo, como por exemplo fios com texturas e cores específicas diferentes dos demais fios, embora a escolha de removê-los não seja por motivos estéticos.

Depois de arrancar os pelos ou cabelos, não é raro que pessoas com tricotilomania parem para analisar o pêlo arrancado, podendo parar para cheirá-lo ou até mesmo mordê-lo e engoli-lo.

Nem sempre a pessoa arranca pelos dos mesmos lugares. Em pessoas com tricotilomania, podem haver espaços totalmente sem pelos (alopecia) ou uma diminuição na densidade dos pelos por conta dos arrancamentos.

Há casos em que a pessoa tende a arrancar cabelos de outras pessoas, de animais, ou até mesmo de objetos inanimados como bonecas, tapetes e outros materiais fibrosos.

Semelhanças entre o transtorno de escoriação e a tricotilomania

As duas condições possuem semelhanças bastante importantes, o que as categorizam como um mesmo tipo de transtorno (associados ao TOC). Além disso, os dois transtornos frequentemente ocorrem em conjunto, ou seja, são comorbidades.

Nos dois transtornos, a pessoa pode apresentar episódios compulsivos que duram de poucos minutos até mesmo horas. A pessoa pode apresentar um episódio de longa duração por dia, ou pode apresentar vários episódios de curta duração ao longo do dia.

Em geral, nenhuma das condições está relacionada a problemas subjacentes como doenças da pele (dermatite, eczema ou psoríase) e a pessoa não necessariamente vê nada de errado com sua pele ou seus cabelos e pelos corporais. O hábito de se arranhar e beliscar ou arrancar cabelos não tem fins estéticos, sendo apenas uma compulsão mesmo.

Esses episódios compulsivos estão frequentemente associados a vários estados emocionais desagradáveis, como ansiedade, tristeza, tédio, estresse, ou até mesmo sentimentos de tensão crescentes que se aliviam após o ato de cutucar a pele ou arrancar pelos. Contudo, há também pessoas que desenvolvem o hábito de beliscar a pele ou arrancar cabelos de forma automática. Em outras palavras, nem sempre o hábito é precedido por sentimentos negativos ou tensão.

No caso da tricotilomania, há estudos que observam uma piora na frequência dos episódios compulsivos quando a pessoa está em período pré-menstrual.

Geralmente, os episódios ocorrem quando a pessoa está sozinha ou na frente apenas de pessoas muito íntimas, como familiares. Raramente ocorrem em público.

Os dois transtornos podem ocorrer em qualquer idade, mas costumam ter início na adolescência. No caso do transtorno de escoriação, não é raro que ele se inicie junto com o aparecimento da acne, embora isso não seja uma condição necessária para o desenvolvimento do transtorno.

Trata-se de quadros crônicos, podendo haver períodos de remissão e de recidiva que podem variar semanas, meses ou até mesmo anos.

Vale ressaltar, também, que estes transtornos são diferentes de comportamentos de automutilação, pois as lesões que surgem em decorrência dos episódios compulsivos não são intencionais.

Causas e fatores de risco

Não existem causas específicas para o desenvolvimento dos transtornos de escoriação ou tricotilomania. No entanto, alguns fatores de risco estão associados, como:

  • Histórico familiar: pessoas com familiares que têm esses transtornos ou transtorno obsessivo-compulsivo apresentam mais chances de desenvolverem tricotilomania e transtorno de escoriação;
  • Problemas de regulação emocional e estresse: Muitos dos episódios compulsivos são acompanhados de sentimentos desagradáveis que podem não estar sendo processados e regulados de forma adequada ou devido à exposição ao estresse.

Ansiedade, skin picking e tricotilomania

Embora não seja uma causa direta, existe uma associação muito grande entre altos níveis de ansiedade e o transtorno de escoriação e tricotilomania.

Isso porque, em partes, cutucar a pele ou arrancar pelos podem ser uma resposta aos sentimentos ansiosos.

Muitas pessoas relatam que arranhar a pele ou arrancar pelos proporciona uma sensação momentânea de alívio da tensão, similar a outros comportamentos repetitivos, como roer unhas.

Neste sentido, o comportamento pode ser uma tentativa de controlar emoções negativas.

Isso acaba gerando um ciclo vicioso entre a ansiedade e a compulsão, pois a ansiedade leva à vontade de cutucar a pele ou puxar pelos, o comportamento gera uma sensação de alívio da ansiedade, mas depois a pessoa se sente culpada e volta a sentir ansiedade novamente, de forma até mais intensa que antes.

Comorbidades possíveis

O transtorno de escoriação e a tricotilomania são comumente vistos juntos, ou seja, podem ser comorbidades (condições que ocorrem simultaneamente e que podem influenciar mutuamente os sintomas).

Os dois transtornos estão relacionados ao transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), sendo que este aparece como comorbidade com bastante frequência também (embora não seja sempre).

Uma outra comorbidade comum entre pessoas com transtorno de escoriação e tricotilomania é a depressão, combinação que aparece mais comumente em mulheres.

Todo mundo que cutuca a pele ou arranca o cabelo tem algum desses transtornos?

É importante ressaltar que os comportamentos de cutucar a pele e arrancar os cabelos podem ocorrer em diversos contextos e, muitas vezes, não estão relacionados a um transtorno mental.

Estes são comportamentos completamente normais que podem ocorrer de vez em quando. O problema é quando esses comportamentos passam a apresentar um padrão compulsivo, ou seja, a pessoa continua cutucando a pele ou arrancando pelos de forma repetitiva sem necessidade mesmo que isso esteja causando prejuízos e apresenta uma dificuldade muito grande em parar.

Além disso, existem algumas outras condições que levam as pessoas a esses comportamentos de forma repetitiva que não são os transtornos de escoriação e tricotilomania.

No caso, estes transtornos podem ser doenças de pele, deficiência intelectual, transtornos que causam estereotipias (como o transtorno de espectro autista) ou até mesmo abstinência de substâncias.

Para entender melhor como os transtornos de escoriação e tricotilomania são diagnósticos, aqui vão os critérios diagnósticos de ambos segundo o DSM-5 TR:

Critérios diagnósticos do transtorno de escoriação

A. Beliscar a pele de forma recorrente, resultando em lesões;

B. Tentativas repetidas de reduzir ou parar o comportamento de beliscar a pele;

C. O ato de beliscar a pele causa sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo;

D. O ato de beliscar a pele não se deve aos efeitos fisiológicos de uma substância (p. ex., cocaína) ou a outra condição médica (p. ex., escabiose);

E. O ato de beliscar a pele não é mais bem explicado pelos sintomas de outro transtorno mental (p. ex., delírios ou alucinações táteis em um transtorno psicótico, tentativas de melhorar um defeito ou falha percebida na aparência no transtorno dismórfico corporal, estereotipias no transtorno de movimento estereotipado ou intenção de causar danos a si mesmo na autolesão não suicida).

Critérios diagnósticos da tricotilomania

A. Arrancar o próprio cabelo de forma recorrente, resultando em perda de cabelo.

B. Tentativas repetidas de reduzir ou parar o comportamento de arrancar o cabelo.

C. O ato de arrancar cabelo causa sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo.

D. O ato de arrancar cabelo ou a perda de cabelo não se deve a outra condição médica (p. ex., uma condição dermatológica).

E. O ato de arrancar cabelo não é mais bem explicado pelos sintomas de outro transtorno mental (p. ex., tentativas de melhorar um defeito ou falha percebidos na aparência, no transtorno dismórfico corporal).

Quais os impactos do transtorno de escoriação e da tricotilomania?

Os dois transtornos podem causar grandes impactos na qualidade de vida, como:

Problemas de autoestima

Os episódios compulsivos de skin picking e tricotilomania frequentemente levam a feridas, cicatrizes e falhas no couro cabeludo ou em outras partes do corpo.

Isso tudo pode ter um grande impacto na autoestima, fazendo com que a pessoa sinta que sua aparência não é adequada.

Sentimentos de falta de controle acerca dos episódios compulsivos também podem impactar a autoestima, fazendo a pessoa se sentir impotente.

Danos físicos

Não é raro que o transtorno de escoriação e a tricotilomania levem a danos físicos como feridas abertas que podem infeccionar e formar cicatrizes.

No caso da tricotilomania, a alopecia (perda de cabelo definitiva) pode ser uma consequência após arrancar pelos diversas vezes do mesmo local.

Isolamento social

Por problemas de autoestima e relacionados à aparência, pessoas que sofrem com transtorno de escoriação ou tricotilomania podem apresentar um comportamento de isolamento social, evitando o contato com outras pessoas.

O isolamento social, por sua vez, pode trazer uma série de consequências para a qualidade de vida, como sentimentos de solidão, dificuldades na regulação emocional, sintomas depressivos e até mesmo ideação suicida.

Como é o tratamento?

O tratamento para os dois transtornos é o mesmo e é semelhante a outros transtornos compulsivos.

Um médico psiquiatra poderá receitar um medicamento antidepressivo, que ajuda não só a regular as emoções mas também ajuda a romper com padrões compulsivos.

No entanto, a psicoterapia também pode ajudar bastante no que tange o manejo da ansiedade e as dificuldades de regulação emocional frequentemente associadas aos transtornos.

Neste sentido, a terapia cognitivo-comportamental (TCC) pode ajudar bastante, investigando padrões de pensamento e sentimentos que podem estar fortalecendo o hábito compulsivo. Além disso, essa terapia pode ajudar a romper com os episódios compulsivos por meio de técnicas comportamentais.

Dicas para lidar com esses transtornos

Se você está lidando com skin picking ou tricotilomania, buscar tratamento é extremamente importante, mas também é importante saber lidar com o transtorno no dia-a-dia. Aqui vão algumas dicas:

  • Mantenha suas mãos ocupadas, utilizando bolinhas antiestresse ou fidget toys;
  • Identificar se existem situações específicas nas quais você costuma apresentar mais o comportamento de skin picking ou de puxar pelos e evitá-las dentro do possível;
  • Tente resistir à tentação o máximo que puder toda vez que ela aparecer, tentando prolongar o tempo entre o surgimento da tensão e o comportamento compulsivo;
  • Tente substituir o cutucar da pele por cuidados com a pele, por exemplo, aplicando uma loção hidratante quando sentir vontade de cutucar;
  • Peça ajuda de outras pessoas para avisá-lo caso você esteja cutucando sua pele ou arrancando pelos de forma automática, sem perceber;
  • Mantenha as unhas sempre curtas a fim de evitar lesões;
  • Esconda objetos como aparadores de pelos e pinças ou, ao menos, tente deixá-los longe do seu alcance a maior parte do tempo;
  • Mantenha a pele e os cabelos sempre limpos para evitar infecções.

Ao constatar que estão com problemas de cutucar a pele ou arrancar os cabelos repetitivamente, muitas pessoas acabam buscando a ajuda de um dermatologista para lidar com o problema, com receio de se tratar de alguma doença de pele.

Embora a ajuda de um dermatologista seja sempre muito bem vinda, há diversos casos em que o comportamento está sendo causado por um transtorno mental, como no caso do transtorno de escoriação e da tricotilomania.

Se você está preocupado que os comportamentos de cutucar a pele ou arrancar os cabelos podem estar tomando mais tempo do que deveriam ou te causando prejuízos, não hesite em procurar a ajuda de um profissional da saúde mental!

Referências

https://www.nhs.uk/mental-health/conditions/skin-picking-disorder/
https://cdd.org.br/noticias/skin-picking-como-lidar-com-o-habito-disfuncional-de-cutucar-a-propria-pele/
https://iocdf.org/about-ocd/related-disorders/skin-picking-disorder/
https://mhanational.org/conditions/excoriation-disorder-skin-picking-or-dermatillomania/

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