Maconha e TDAH: pode ajudar? Quais são os riscos?

O uso de cannabis por pessoas com TDAH não é raro e há pessoas que relatam melhoras no bem-estar. No entanto, será que é assim mesmo? Entenda!

Embora o uso recreativo e ocasional da maconha possa ser considerado relativamente seguro, a história muda bastante quando se trata do uso frequente, especialmente em pessoas com TDAH.

O transtorno de déficit de atenção e hiperatividade é conhecido pela dificuldade de concentração. Já o uso da cannabis também está associado a maiores dificuldades de concentração. Sendo assim, como há pessoas que relatam sentir melhoras usando maconha?

É o que buscamos entender neste texto, bem como os riscos de fazer o uso contínuo de cannabis tendo TDAH.

O que é o TDAH?

Geralmente diagnosticado na infância, o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade é um transtorno do neurodesenvolvimento que persiste ao longo da vida.

Em outras palavras, é um transtorno que prejudica o desenvolvimento do cérebro e, por isso, resulta em sintomas comportamentais. Os principais sintomas do TDAH são: 

  • Dificuldade em focar em tarefas que não são do seu interesse;
  • Dificuldade para iniciar tarefas e de se manter focado até concluí-las;
  • Dificuldade em estabelecer prioridades;
  • Má gestão de tempo;
  • Esquecimento;
  • Desorganização;
  • Impulsividade;
  • Inquietação motora ou nos pensamentos (pensamento acelerado);
  • Desregulação emocional;
  • Baixa tolerância à frustração.

O transtorno costuma ser diagnosticado na infância pois, nesta fase, os sintomas são mais proeminentes.

No entanto, existem pessoas que escapam do diagnóstico na infância e acabam recebendo o diagnóstico apenas na vida adulta, quando estão com dificuldades em dar conta de todas as responsabilidades e compromissos dessa fase da vida por conta dos sintomas.

Saiba mais: Diagnóstico do TDAH em adultos: por que é tão difícil?

Em muitos desses casos, a pessoa começa a consumir maconha pois sente que isso alivia alguns dos sintomas.

Por que pessoas com TDAH usam maconha?

O uso da cannabis ativa o circuito de recompensa do cérebro, aumentando a liberação de dopamina. Em pessoas com TDAH, a disponibilidade de dopamina tende a ser mais baixa do que em outras pessoas, fazendo com que o uso da maconha traga a sensação de estar resolvendo o problema.

O pensamento rápido e hiperativo é um problema comum no TDAH, que pode causar muita frustração às pessoas com o transtorno. Com a maconha, muitas pessoas acabam sentindo uma desaceleração dos pensamentos, trazendo uma capacidade maior de discerni-los, dando a impressão de uma melhora no foco. Além disso, a sensação de relaxamento proporcionado pela cannabis pode fazer com que a pessoa sinta também uma melhora na sua hiperatividade motora.

Embora não haja evidências de que a maconha melhore sintomas como falta de atenção, há relatos de pessoas sentindo melhoras em outras facetas do transtorno, como a ansiedade, a disforia sensível à rejeição e problemas para dormir.

A ansiedade é uma comorbidade extremamente comum em pessoas que sofrem de TDAH. Estima-se que as dificuldades de funcionamento no dia-a-dia causados pelo transtorno tornem essas pessoas mais propensas ao desenvolvimento de ao menos um transtorno ansioso.

Já a disforia sensível à rejeição não é um transtorno reconhecido, mas é uma condição que ocorre com muitas pessoas que sofrem de TDAH. Essa disforia se refere a uma sensibilidade maior em relação a momentos de rejeição ou desaprovação dos outros. Em outras palavras, a pessoa é mais sensível a críticas, podendo se sentir profundamente afetada mesmo que tenha sido uma crítica construtiva, por exemplo.

Estima-se que essa disforia ocorra por uma mistura de problemas de regulação emocional, comuns em pessoas com TDAH, e dificuldades de autoestima, que também costuma ser afetada pelo TDAH.

O fato de pessoas com TDAH terem dificuldades com a atenção e a memória faz com que essas pessoas frequentemente encontrem dificuldades nas relações interpessoais, o que pode fazer com que sejam alvos de críticas com frequência e gerando uma sensação de ser sempre uma decepção para os outros. Com isso, torna-se difícil construir uma boa autoestima.

Por fim, dificuldades para dormir também são uma reclamação frequente entre pessoas com TDAH. Não é raro que, além de medicamentos estimulantes para o tratamento do transtorno, sejam prescritos medicamentos hipnóticos (indutores do sono) para essas pessoas.

Apesar desses relatos, é importante ressaltar que, até agora, não existem evidências científicas de que a maconha possa ter um efeito terapêutico para o TDAH.

A maconha piora o TDAH? Riscos e danos

O THC (tetrahidrocanabinol) é o princípio ativo da maconha responsável pelos seus efeitos recreativos. Ele funciona inibindo conexões neurais, tornando o processo de sinalização do cérebro mais lento. Em outras palavras, a comunicação entre os neurônios fica prejudicada e devagar.

Além disso, a maconha também causa alterações na arquitetura dos dendritos, estruturas do neurônio que estão ligadas ao processamento de informações, ao aprendizado e à saúde do cérebro como um todo.

Até hoje, as pesquisas realizadas não sabem dizer com certeza se esses efeitos são reversíveis. Há pesquisas que mostram que, em algumas áreas do cérebro, o crescimento neuronal saudável é retomado após a pessoa parar o uso da maconha, enquanto em outras áreas isso não ocorre.

Em usuários de longo prazo, a motivação fica prejudicada pois o uso de cannabis prejudica funções cognitivas necessárias para a motivação, como a memória, a atenção e o processo de tomada de decisão. Isso é chamado de hampering effect, ou “efeito dificultador” em português.

No que tange a memória, o uso de cannabis é especialmente prejudicial antes dos 25 anos de idade, pois altera o funcionamento do hipocampo e do córtex orbitofrontal, áreas do cérebro em que grande parte da memória é processada.

Como dito anteriormente, o uso de cannabis causa prejuízos em diversas funções cognitivas. Por conta disso, a performance em tarefas complexas pode ser gravemente impactada.

Vale ressaltar que tudo isso já são problemas presentes no TDAH, fazendo com que os sintomas do transtorno se tornem ainda mais evidentes e prejudiciais.

Além disso, o uso de maconha é mais prejudicial para o desenvolvimento cerebral de pessoas com TDAH do que outras pessoas. Isso porque o TDAH causa um atraso no desenvolvimento e maturação dos lobos frontais, o que torna o cérebro mais vulnerável aos efeitos da maconha nas conexões neurais.

Além disso, o uso de maconha em conjunto com os medicamentos para TDAH, como o metilfenidato, pode ter efeitos significativamente prejudiciais para a saúde do coração. Há estudos que mostram que o uso da maconha também diminuir a eficácia da medicação estimulante, padrão ouro no tratamento do transtorno.

Por fim, pesquisas mostram que o uso contínuo de maconha tende a aumentar o risco de suicídio em pessoas com TDAH, que já é maior nessa população em relação a pessoas que não tem TDAH.

Risco de dependência

Pessoas com TDAH também apresentam um risco maior de desenvolver dependência da maconha. Estudos mostram que a prevalência de dependência nessa população chega a ser 2 vezes maior do que no resto da população.

Ao contrário do que é propagado em muitas mídias, a maconha pode sim causar dependência, tanto psicológica quanto química. Hoje em dia, a concentração de THC na maconha é a maior em toda a história conhecida, fazendo com que esse problema se torne ainda mais provável.

Em outras palavras, a maconha que era fumada por pessoas no movimento de contracultura dos anos 60, que defendiam que seu uso era inofensivo, era bem mais fraca do que a maconha em circulação hoje em dia. Os argumentos que valiam naquela época, portanto, não valem para os dias de hoje.

A dependência de maconha é conhecida como transtorno por uso de cannabis e é caracterizada pelos seguintes sintomas:

  • Usar cannabis em quantidades maiores ao longo do tempo;
  • Dificuldade para parar o uso de cannabis;
  • Desejo intenso e quase incontrolável por usar cannabis;
  • Perder muito tempo do seu dia-a-dia tentando obter cannabis, usando cannabis ou tentando se recuperar do uso;
  • Problemas no trabalho, escola ou em casa por conta do uso de cannabis;
  • Problemas sociais ou interpessoais por conta do uso de cannabis;
  • Desistência ou diminuição de demais atividades por conta do uso de cannabis;
  • Uso recorrente de cannabis durante situações perigosos, como ao dirigir;
  • Problemas físico ou psicológicos exacerbados pelo uso da cannabis;
  • Desenvolvimento de tolerância (necessitar doses cada vez maiores para alcançar o mesmo efeito);
  • Sintomas de abstinência ao cessar o uso.

Como tratar a dependência de maconha?

O tratamento da dependência de maconha geralmente se mantém o mesmo que o tratamento de qualquer dependência, mesmo em pessoas com TDAH.

Psicoterapia e desintoxicação são o caminho com maior evidências de eficácia no tratamento de dependências químicas.

Além disso, é interessante perceber fatores que podem contribuir para a manutenção do hábito de fumar maconha e cortá-los. Um exemplo é manter conexões sociais com pessoas que fazem o uso da maconha, evitar ir para lugares nos quais a maconha é acessível, entre outros.

Pesquisas mostram que um dos fatores que ajudam as pessoas a cessar o uso é justamente a necessidade de guardar dinheiro, sendo que o descontrole financeiro é bastante comum em pessoas com TDAH por conta da impulsividade que frequentemente acompanha o transtorno.

Em pessoas que ainda não fazem o tratamento do TDAH com medicamentos estimulantes, o uso dessas medicações pode ajudar a controlar sintomas que antes a pessoa tentava remediar com o uso da cannabis, diminuindo a “necessidade” da maconha. Nestes casos, o tratamento com estimulantes não é considerado quebra da sobriedade.

Apesar de ser ilegal, o uso da maconha para fins recreativos é bastante comum, especialmente na população com TDAH. Porém, tendo noção dos riscos envolvidos, é interessante repensar se esse uso não tem sido prejudicial a longo prazo.

Se você tem TDAH e sente que está tendo problemas com o uso de maconha ou de qualquer outra substância, não hesite em procurar ajuda com um profissional da saúde mental!

Referências

https://www.additudemag.com/cannabis-use-disorder-marijuana-adhd/
https://www.verywellmind.com/weed-and-adhd-what-the-research-says-5443195
https://www.healthline.com/health/marijuana-and-adhd

Confira posts relacionados