O transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) costuma ser diagnosticado e tratado na infância, mas os sintomas não se resolvem de forma mágica quando a pessoa vira adulta.
De fato, algumas pessoas acabam tendo o diagnóstico apenas na idade adulta, quando está com problemas em diversas esferas da vida por conta dos sintomas do transtorno.
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O tratamento padrão ouro do TDAH são os medicamentos estimulantes, como o metilfenidato e a lisdexanfetamina, que ajudam imensamente a melhorar a função executiva, uma das principais funções afetadas pelo TDAH.
No entanto, quando se trata de maternidade, fica a questão: é preciso interromper o tratamento, ou ele é seguro para continuar durante a gestação?
Quais são as recomendações atuais?
No momento, o uso de medicamentos estimulantes durante a gravidez é desencorajado. Em outras palavras, quando uma pessoa engravida, é provável que o médico peça para que suspenda totalmente o uso da medicação durante a gestação.
Isso ocorre porque os medicamentos estimulantes, assim como diversos medicamentos em geral, não foram testados em gestantes antes da sua comercialização. O motivo para isso é simples: expor pessoas grávidas a potenciais riscos para o bebê de forma deliberada é considerado antiético, então não costumam ser realizados testes de ensaio clínico em gestantes.
No entanto, para quem lida com TDAH, ficar sem a medicação pode ser muito desafiador. Trabalhar, manter a arrumação da casa em dia, manter uma alimentação saudável e até mesmo os cuidados com a gestação podem ser dificultados pela falta do tratamento.
Isso ocorre porque o TDAH é um transtorno que afeta principalmente a função executiva, que é um conjunto de funções cognitivas essenciais para nossa capacidade de prestar atenção, estabelecer prioridades, planejar, iniciar tarefas e manter o foco nelas até sua conclusão, gestão de tempo, entre outros.
A medicação para TDAH tem efeito justamente nessa função executiva, fazendo com que se torne mais “fácil” realizar as tarefas necessárias para manutenção da vida, da saúde e do bem-estar.
Isso não quer dizer que o medicamento facilita a produtividade num geral, inclusive há pesquisas que mostram que ele não tem esse efeito em pessoas sem TDAH.
Mas, em pessoas com o transtorno, o efeito da medicação faz com que elas se tornem mais funcionais, ou seja, seu nível de funcionamento fica mais próximo do funcionamento de pessoas que não têm o transtorno.
Vale ressaltar que a gravidez é um momento delicado e que traz consigo alterações hormonais com reflexo nas emoções e na cognição. Para pessoas com TDAH, essas alterações podem prejudicar ainda mais seu dia-a-dia.
Usar estimulantes durante a gravidez é seguro?
À medida que sabemos mais sobre medicamentos e seus efeitos, torna-se mais claro se é possível usar algum medicamento específico durante a gestação. No entanto, no caso dos estimulantes, ainda não está claro o suficiente se o uso é seguro de verdade.
Apesar de não termos estudos de ensaio clínico, hoje em dia já existem pesquisas feitas fora desse contexto acerca do efeito dos estimulantes durante a gravidez.
Em 2023, foi publicada no periódico científico Nature um estudo acerca do uso de medicamentos para TDAH durante a gestação. O estudo usou uma amostra de 1,068,073 de nascimentos registrados na Dinamarca e acompanharam esses casos de 1998 a 2015, registrando diagnósticos do desenvolvimento, morte, migração, entre outros.
O estudo comparou as crianças de mães que continuaram o uso dos medicamentos estimulantes durante a gravidez e as crianças de mães que suspenderam o uso das medicações, percebendo que não parece haver riscos maiores das crianças apresentarem algum problema no desenvolvimento mesmo quando a mãe continua o uso de estimulantes durante a gestação.
Essa ideia é corroborada também por uma revisão sistemática publicada em 2020 no periódico científico CNS Drugs.
Isso não significa, no entanto, que o uso seja completamente seguro. Embora não haja muitas evidências de malformações, há estudos que mostram que o uso de estimulantes está correlacionado com:
- Baixo peso ao nascer;
- Crescimento reduzido (o bebê nasce menor do que o esperado ou com a cabeça pequena, por exemplo);
- Nascimento prematuro.
Além disso, o uso de estimulantes pode causar algumas alterações na mãe que devem ser monitoradas durante a gravidez, como falta de apetite e consequente perda de peso, mudanças no batimento cardíaco e alterações na pressão arterial.
Por fim, é importante ressaltar que, ainda que as pesquisas demonstrem um parecer favorável para o uso de estimulantes durante a gravidez, ainda não há evidências o suficiente para assegurar que o uso de tais medicamentos é de fato seguro na gestação.

Como é feito o uso de estimulantes durante a gravidez?
Considerando os benefícios e riscos junto com o médico, uma pessoa que deseja continuar o uso de estimulantes durante a gravidez precisa ter em mente algumas questões.
A primeira questão é manter o monitoramento, a fim de detectar qualquer questão que possa estar prejudicando a saúde da mãe ou do bebê e, se necessário, interromper o uso. Isso pode se tornar especialmente importante nos casos de alterações na pressão sanguínea, um quadro que pode causar muitas complicações durante uma gravidez.
Além disso, pode ser que não seja possível tomar os medicamentos durante toda a gravidez. Isso porque o primeiro trimestre é crucial para a formação de diversos órgãos no feto. Por conta disso, muitos profissionais preferem que a mãe se abstenha do uso de estimulantes ao menos até a 12ª semana.
Quando a mãe pode retomar o uso da medicação, isso também é feito com ressalvas. Ao invés de tomar todos os dias, dá-se preferência por tomar apenas alguns dias da semana. Os estimulantes, diferentemente de outros remédios psiquiátricos, fazem efeito na hora e, por isso, não é necessário o uso contínuo durante semanas para atingir seu efeito terapêutico.
Além disso, a dose também pode ser diminuída durante a gestação, como medida de precaução.
Estimulantes durante a amamentação
Não existem muitos estudos sobre o uso de estimulantes durante a amamentação, então não é possível dizer que se trata de um uso seguro.
Estudos mostram que as substâncias estimulantes podem ser passadas pelo leite ao bebê, mas mesmo assim não há muitos registros de efeitos colaterais nos bebês lactentes quando as mães usam estimulantes.
Em geral, o uso de estimulantes não é recomendado durante a lactação, assim como não é durante a gestação. Contudo, convém pesar os riscos e benefícios do tratamento.
Uma mãe que não consegue manter seu funcionamento de forma adequada por conta da falta de medicação pode acabar negligenciando os cuidados com a criança, o que torna os riscos mais aceitáveis do que a falta da medicação.
Existem alternativas durante a gravidez?
Infelizmente, no momento, não existem alternativas medicamentosas aos estimulantes que sejam consideradas seguras para o tratamento do TDAH na gravidez.
Caso a mãe siga as recomendações de interromper o uso durante a gestação, cabe à psicoterapia ajudar a mãe a manejar os sintomas do TDAH.
Por se tratar de um transtorno com sintomas comportamentais bem proeminentes, uma terapia que tenha foco no comportamento pode ser mais proveitosa do que uma terapia que tenha como foco forças inconscientes (terapias psicodinâmicas) ou ressignificações.
Neste sentido, alguns exemplos são terapias como terapia cognitivo-comportamental (TCC), a psicoterapia analítica funcional (FAP), a terapia de ativação comportamental, a terapia de aceitação e compromisso (ACT), entre outras.

O uso de medicamentos em geral durante a gravidez é bastante incerto, mas existem substâncias que são seguras e substâncias que, até o momento, não apresentaram riscos maiores.
Contudo, os estimulantes ainda precisam de mais estudos para serem considerados seguros.
Se você gostaria de continuar o tratamento com estimulantes mesmo durante a gestação, converse com a equipe de cuidados pré-natais e seu psiquiatra!
Referências
Bang Madsen, K., Robakis, T.K., Liu, X. et al. (2023). In utero exposure to ADHD medication and long-term offspring outcomes. Mol Psychiatry, 28: 1739–1746. https://doi.org/10.1038/s41380-023-01992-6
Li, L., Sujan, A. C., Butwicka, A., Chang, Z., Cortese, S., Quinn, P., Viktorin, A., Öberg, A. S., D’Onofrio, B. M., & Larsson, H. (2020). Associations of Prescribed ADHD Medication in Pregnancy with Pregnancy-Related and Offspring Outcomes: A Systematic Review. CNS drugs, 34(7), 731–747. https://doi.org/10.1007/s40263-020-00728-2


