O comportamento humano sempre foi alvo de muita curiosidade e, em meio aos avanços na medicina que surgiram após o iluminismo (1685-1815), surgiram diversas ideias de como compreendê-lo.
Dentre elas, está a frenologia, hoje completamente descartada pela ciência e alvo de muitas críticas desde a sua idealização.
Entenda melhor sobre o que é frenologia, sua história, como era realizada, suas críticas e de que forma ela acabou abrindo portas para ciências reais acerca do cérebro humano e do comportamento.
O que é frenologia?
A frenologia era uma pseudociência do século XIX que acreditava que aspectos da personalidade e do caráter de uma pessoa poderiam ser medidos pelo formato do seu crânio.
Através de “leituras cranianas”, os frenologistas seriam capazes de revelar informações sobre o caráter e as tendências de comportamento de uma pessoa.
Os frenologistas acreditavam que certas faculdades mentais estavam localizadas em áreas específicas do cérebro e que, assim como um músculo, cresceriam conforme o exercício dessas faculdades mentais, causando protuberâncias no crânio.
História da frenologia
A frenologia surge em Viena no final do século XIX a partir dos estudos de Franz Joseph Gall e seu discípulo Johann Gaspar Spurzheim.
Na época, a Revolução Francesa trouxe valores do iluminismo, como o da liberdade, igualdade e fraternidade. Vale ressaltar, no entanto, que esses valores não valiam para todas as pessoas, uma vez que, na época, a escravidão ainda era uma realidade.
A partir desse momento, o poder da Igreja na Europa foi significativamente enfraquecido e a ciência se mostrava como uma nova forma de compreender o mundo.
Com isso, o próprio ser humano começa a se ver como parte da natureza e como objeto de estudo da ciência. Foi aí que surgiram diversas disciplinas (estudos) com foco na ideia de que existe uma relação entre os aspectos físicos de uma pessoa e traços morais. A frenologia era uma dessas disciplinas.
Gall era um médico alemão que dava palestras sobre organologia (a ideia de que faculdades mentais poderiam ser isoladas em áreas específicas do cérebro) e cranioscopia (leitura do formato de crânio de indivíduos).
A ideia de que partes do cérebro seriam responsáveis por determinadas faculdades mentais veio da observação de que o córtex cerebral de seres humanos é mais espesso do que o de outros animais. Gall acreditava que era isso que tornava o ser humano intelectualmente superior.
A partir dessa ideia, ele se convenceu de que características físicas do córtex cerebral poderiam influenciar o formato do crânio, de forma a permitir a detecção de certas qualidades intelectuais e morais a partir de protuberâncias na cabeça de um indivíduo.
Como foram feitos os estudos em frenologia?
Os estudos foram feitos com o exame de diversas pessoas e a associação entre o formato de seus crânios e seus comportamentos.
Um exemplo é que quando Gall examinou uma série de batedores de carteira, ele percebeu que muitos desses indivíduos possuíam uma protuberância no crânio numa região logo acima das orelhas. Ele relacionou, então, essas protuberâncias com uma tendência à ganância, acumulação e roubos.
Ao analisar o crânio de pessoas do atual Sri Lanka (antigamente Ceilão), os frenologistas associaram que algumas regiões do crânio estariam associadas à combatividade e agressão, pois nessas pessoas, que eram conhecidas por serem pacíficas, essa área tinha a tendência de ser plana (sem protuberâncias).
Em outras palavras, a frenologia pegava a correlação entre comportamentos de pessoas e o formato de seus crânios como uma relação causal. Embora possa parecer, a mera correlação entre fatores não indica relação causal, o que faz com que o método dos frenologistas seja questionável.
Como eram feitas as leituras em frenologia?
As “consultas” em frenologia estavam mais para leituras do crânio da pessoa.
Para isso, o frenologista iria apalpar gentilmente a cabeça do indivíduo e anotar protuberâncias e indentações encontradas. Ele então iria comparar os resultados com as informações de um busto de frenologia, que era um busto com informações da localização de cada “faculdade” mental no crânio.
A partir disso, o frenologista poderia dizer quais faculdades mentais eram mais ou menos desenvolvidas na pessoa.
A título de curiosidade, aqui vão as 35 faculdades mentais propostas por Gall e seus colegas:
- Amatatividade: instintos reprodutivos, desejos sexuais;
- Filoprogenitividade: o amor pela prole (filhos);
- Concentração: ideias e emoções;
- Adesividade: carinho e amizade;
- Combatividade: autodefesa, coragem, luta;
- Destrutividade, instintos assassinos;
- Sigilo: tendência para esconder coisas, enganar;
- Aquisitividade: senso de propriedade, tendência a roubar;
- Construtividade: vontade de construir e criar;
- Autoestima: consideração pessoal, interesse próprio, egoísmo;
- Amor pela aprovação: necessidade de estima, amor a receber elogios;
- Cautela: medo, timidez;
- Benevolência: bondade, compaixão, desejo de fazer os outros felizes;
- Veneração: respeito pelos outros, instituições ou costumes;
- Firmeza: determinação, tenacidade, teimosia;
- Conscienciosidade: senso de justiça, respeito, amor à verdade;
- Esperança: expectativas de bem futuro;
- Maravilha: desejo de novidade, apreciação pelo mundo;
- Idealidade: amor pela excelência e beleza;
- Sagacidade: astúcia, perspicácia, esperteza;
- Imitação: copiar a aparência ou as maneiras dos outros;
- Individualidade: consciência de fatos e da existência;
- Forma: observador da forma física;
- Tamanho: compreensão das dimensões e distância;
- Peso: percepção de peso e momento (da física);
- Coloração: percepção visual e apreciação;
- Localidade: a ideia de posição relativa;
- Número: capacidade de realizar cálculos;
- Ordem: apreciação por arranjos físicos, habilidades mecânicas;
- Eventualidade: compreensão da sequência de eventos;
- Tempo: percepção de tempo e duração;
- Sintonia: sentido musical;
- Linguagem: faculdade de linguagem e expressão verbal ou escrita;
- Comparação: capacidade de entender diferenças e fazer analogias;
- Causalidade: compreensão de causa e efeito.
Apesar de bustos frenológicos frequentemente apresentarem essas 35 faculdades mentais, originalmente Gall propôs apenas 27. As demais faculdades foram estudadas e introduzidas por seus sucessores.

Por que a frenologia é uma pseudociência?
O termo “pseudociência” se refere a práticas e conhecimentos que se apresentam como científicos, mas que na realidade não são baseadas em métodos científicos de fato.
O método científico pode ser descrito como um processo sistemático de investigação para compreender fenômenos. Esse processo inclui etapas como observação, formulação de hipóteses, realização de experimentos, análise de resultados e conclusão.
A frenologia é uma disciplina que para na formulação das hipóteses, pois a partir do momento em que se fazem experimentos que põem a frenologia à prova, percebe-se que as hipóteses não se sustentam.
Foi entre o começo e meados de 1800 que o médico francês renomado Marie-Jean-Pierre Flourens conseguiu provar, por meio de técnicas de ablação (destruição de partes do cérebro) e estimulação, que os princípios da frenologia estavam errados. Flourens foi um dos pioneiros nos estudos do cérebro por meio de métodos experimentais.
Outro médico importante a falsear a frenologia foi Paul Broca, que estudou a capacidade de compreensão e de produção da linguagem no cérebro, eventualmente levando-o à descoberta da chamada “área de Broca”.
Hoje em dia, com as ferramentas diagnósticas disponíveis, como exames de imagem do cérebro e o entendimento do funcionamento cerebral, é impensável que a frenologia tenha qualquer validade científica.
Críticas à frenologia
A frenologia hoje em dia é considerada como uma grande contribuição para o racismo científico, ou seja, quando a ideia de ciência é utilizada para justificar e validar ideias racistas.
Isso ocorre porque os formatos dos crânios são diferentes dentre as diversas etnias de seres humanos, o que faria com que determinadas etnias fossem mais associadas a certos traços morais e comportamentos.
Com isso, na época, muitos conseguiam justificar a desigualdade racial, a escravidão e até mesmo uma suposta superioridade racial de pessoas brancas.
O racismo científico é uma realidade até hoje, mas aparece de outras formas. Um exemplo é atribuir estudos que mostram que o QI de uma determinada população é mais baixo simplesmente por serem de outra etnia do que por conta das condições sociais nas quais aquelas pessoas estão inseridas.
A frenologia também era criticada já em sua época, embora não pelos mesmos motivos. Um dos principais motivos era a falta de rigor científico de Gall e seus colegas. Qualquer evidência contrária ao que eles postulavam era ignorada, o que simplesmente acaba com a cientificidade da disciplina.
Portanto, apesar de popular, a frenologia logo deixou de ser vista como uma ciência séria e foi categorizada como pseudociência, tal qual a astrologia, numerologia e quiromancia.
Importância para estudo do cérebro-comportamento
Apesar de todas as críticas e o fato de não ser uma ciência de verdade, a frenologia abriu as portas para estudos que buscavam analisar a relação entre cérebro e comportamento.
Embora a frenologia esteja errada, Gall contribuiu para a ideia de que o cérebro possui uma certa organização espacial, o que hoje em dia se sabe que é verdade.
Em outras palavras, o cérebro possui sim áreas mais ou menos especializadas em algumas funcionalidades, mas de maneira completamente diferente do que Gall propôs.
Além disso, nenhuma dessas áreas possui qualquer relação com o tamanho da cabeça ou a estrutura do crânio, conforme proposto por Gall e seus colegas.
Contudo, esse interesse por entender melhor a relação entre o cérebro e o comportamento humano eventualmente deu início ao que hoje conhecemos como o campo da neurologia, uma especialidade médica que estuda e trata o cérebro e suas funcionalidades.
Embora a psiquiatria seja uma área diferente da neurologia, ela também foi beneficiada por esses estudos acerca do comportamento humano e sua relação com o cérebro.
Hoje em dia, se temos acesso a medicamentos que ajudam a tratar transtornos mentais, é porque entendeu-se que o funcionamento cerebral pode ter influência no comportamento, mesmo que não haja nada de errado com a sua estrutura.

Embora não seja possível associar o comportamento humano a algo tão simples como protuberâncias no crânio, hoje em dia entendemos muito melhor como a mente e o cérebro funcionam e sabemos, também, que traços de personalidade e morais não são imutáveis.
Se você sente que tem comportamentos que te prejudicam e geram sofrimento psicológico, não hesite em contatar um profissional da saúde mental!
Referências
Parker Jones, O., Alfaro-Almagro, F., & Jbabdi, S. (2018). An empirical, 21st century evaluation of phrenology. Cortex, 106. pp. 26–35. doi:10.1016/j.cortex.2018.04.011
Yildirim, F. B., & Sarikcioglu, L. (2007). Marie Jean Pierre Flourens (1794 1867): an extraordinary scientist of his time. Journal of neurology, neurosurgery, and psychiatry, 78(8), 852. https://doi.org/10.1136/jnnp.2007.118380
https://revistas.usp.br/humanidades/article/download/113338/111294/205136
https://www.verywellmind.com/what-is-phrenology-2795251


