Ketamina no tratamento da depressão resistente: o que é, como funciona e quando pode ajudar

Substância anestésica tem efeito comprovado em sintomas depressivos, mas seu uso é indicado para alguns casos apenas. Entenda!

Estima-se que 5,7% da população mundial adulta sofre de depressão, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). O transtorno é caracterizado por sintomas como sentimentos de tristeza, apatia, baixa autoestima e incapacidade de sentir prazer, e pode ser tratado com medicamentos psiquiátricos e psicoterapia.

Entre 60 e 70% dos casos de depressão respondem bem ao tratamento medicamentoso e entram em remissão. No entanto, quando um paciente não melhora mesmo após múltiplos tratamentos antidepressivos diferentes, considera-se que o paciente está lidando com uma depressão resistente.

É neste contexto que surge uma opção inovadora: a quetamina, também grafada como ketamina ou cetamina. Trata-se de uma substância com ação rápida e que ajuda mesmo nos casos em que os tratamentos convencionais falharam.

Neste artigo, vamos falar um pouco sobre a quetamina, como ela funciona para combater os sintomas depressivos, para quem é indicada, além de questões como administração da substância e efeitos colaterais possíveis.

O que é a quetamina e por que ela virou tratamento para depressão?

A quetamina é uma substância anestésica frequentemente usada em emergências médicas e cirurgias, mas também é conhecida pelo seu uso recreativo como droga de abuso.

Apesar de não ter sido desenvolvida para o tratamento de transtornos de humor, ao longo de diversos estudos a quetamina se mostrou bastante útil no tratamento de casos de depressão resistente (ou refratária).

Leia mais: Depressão refratária: O que é e como tratar a depressão resistente?

Isso porque a quetamina atua no sistema glutamatérgico, um sistema diferente do sistema no qual antidepressivos tradicionais atuam. Em geral, os antidepressivos tradicionais costumam atuar em neurotransmissores reguladores do humor e da vigília, como a serotonina e a noradrenalina.

Foi percebido que a quetamina atua na depressão já nos anos 2000, quando Dennis S. Charney e John H. Krystal, pesquisadores na Universidade de Yale, perceberam que voltar a atenção para o sistema glutamatérgico poderia trazer novas respostas aos quadros que não respondiam ao tratamento convencional.

Até então, a pesquisa com medicamentos antidepressivos eram focadas apenas em monoaminas (grupo no qual estão inseridos os neurotransmissores serotonina, norepinefrina etc.). Ao perceber que a quetamina trabalhava justamente no sistema glutamatérgico, os pesquisadores decidiram investigar seu potencial como antidepressivo.

De início, foi administrada uma dose intravenosa de quetamina em 7 pacientes com depressão severa. Para a surpresa dos pesquisadores, os pacientes já demonstraram melhoras significativas em apenas algumas horas. Isso era um fato inovador considerando que, nos tratamentos convencionais, a medicação antidepressiva costuma demorar cerca de 2 semanas para fazer efeito de fato.

Apesar dos resultados da pesquisa terem sido publicados já em 2000, a comunidade científica não recebeu a descoberta com muita atenção. Com isso, não foram feitos muitos estudos posteriores tentando replicar esse estudo, o que, na ciência, é fundamental para termos certeza de que os achados são verdadeiros.

Contudo, Charney não desistiu de continuar pesquisando os efeitos da quetamina em casos depressivos, buscando replicar o estudo em outras instituições. Eventualmente, a comunidade científica percebeu que os resultados eram promissores e, com isso, a farmacêutica Janssen auxiliou na condução de ensaios em grande escala.

Tudo isso culminou na aprovação da substância para tratamento da depressão por via nasal em 2019. Conhecida como esketamina nasal, a substância hoje em dia também está disponível na forma de infusão venosa em clínicas especializadas.

Como a quetamina atua no cérebro?

A quetamina atua na modulação do glutamato, o principal neurotransmissor excitatório do sistema nervoso central. A excitação neuronal é o fenômeno responsável pela comunicação entre neurônios, fazendo com que o glutamato seja imprescindível nesse processo.

Diante disso, entende-se que a quetamina auxilia na sinaptogênese, ou seja, na formação de novas sinapses (processo de troca de informações entre neurônios), aumentando a plasticidade cerebral por meio da estimulação de novas conexões entre neurônios.

Em geral, uma pessoa deprimida apresenta uma plasticidade cerebral bastante prejudicada, resultando em uma rigidez cognitiva que reforça os sintomas depressivos.

Em resumo, a quetamina atua no cérebro como um antagonista nos receptores NMDA, ajudando a regular a ação do glutamato no sistema nervoso central, aumentando a plasticidade cerebral e revertendo déficits sinápticos causados por estresse crônico.

O efeito da quetamina pode ser sentido já em poucas horas ou poucos dias, o que é especialmente importante em casos de depressão severa com alto risco de suicídio.

Para quem a quetamina é indicada?

Apesar dos resultados rápidos, a quetamina não é indicada para todos os pacientes com depressão. Considerando que a maior parte dos pacientes entram em remissão por meio dos tratamentos convencionais, não há necessidade de indicar um tratamento tão novo e com questões de segurança um pouco mais complexas.

Portanto, o uso da quetamina, atualmente, é indicado em casos nos quais a pessoa já passou por diversos tratamentos convencionais para depressão e ainda assim não apresentou melhoras significativas. É a chamada depressão resistente ou refratária.

Em casos mais graves, pode ser indicada como tratamento para redução da ideação suicida de forma rápida.

Atualmente, os estudos mostram que a taxa de resposta satisfatória ao tratamento com quetamina é de 50 a 70% dos casos.

Saiba mais: Suicidalidade e depressão resistente em adolescentes: a quetamina pode ajudar?

Como é feita a aplicação?

Diferentemente dos antidepressivos convencionais, que geralmente são administrados por via oral em comprimidos e gotas, a quetamina possui outras vias de administração.

Atualmente, a aplicação da quetamina é feita por infusão endovenosa em clínicas especializadas, sendo necessária a supervisão médica durante a aplicação.

Mais recentemente, há também uma versão em spray nasal, liberado pela Anvisa em 2020, chamado Spravato®, com o princípio ativo esketamina. Seu uso, no entanto, é mais raro.

Quando aplicado de forma endovenosa, isso é feito em sessões de cerca de 40 minutos, sendo necessário que o paciente permaneça na clínica por mais 1 ou 2 horas para observação dos efeitos.

Quais os efeitos colaterais da quetamina?

Quando administrada de forma terapêutica, a quetamina pode apresentar os seguintes efeitos colaterais:

  • Dissociação leve;
  • Náuseas;
  • Aumento da pressão sanguínea.

Em geral, os efeitos colaterais são leves e temporários, sendo bem tolerados pela maior parte dos pacientes.

Quanto tempo dura o efeito? É preciso fazer manutenção?

Embora a quetamina tenha uma resposta muito rápida, o efeito tem duração limitada. Atualmente, estima-se que o efeito de uma sessão de infusão de quetamina dura entre 7 e 14 dias.

Por conta disso, existem protocolos de manutenção do tratamento que sugerem infusões repetidas nas primeiras semanas e, depois, sessões de manutenção conforme o caso.

Vale ressaltar que, nesse tempo, é necessário o acompanhamento com psiquiatra para avaliar e ajustar o plano terapêutico.

Para além do psiquiatra, é interessante buscar psicoterapia para aumentar ainda mais a efetividade do tratamento, pois a terapia pode ter um efeito sinérgico no momento em que a sinaptogênese está melhorada pelo tratamento com quetamina.

Estudos atuais e perspectivas futuras

Embora o tratamento com quetamina já tenha sido aprovado para casos de depressão, há pesquisadores interessados em entender se ela poderia auxiliar também em outros transtornos, como no transtorno afetivo bipolar, transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) e dores crônicas.

Para além disso, há também pesquisas que buscam melhorar a eficácia do tratamento ou ao menos diminuir os efeitos colaterais da substância.

Neste sentido, os estudos com uma modificação da quetamina chamada cetamina (ou r-ketamina) são promissores, considerando que a substância tem mostrado efeitos antidepressivos mais duradouros, bem como uma diminuição significativa na dissociação.

Saiba mais: O que é Psiquiatria Intervencionista?

Embora a quetamina possa parecer um milagre nos casos em que os tratamentos convencionais falharam, ainda é necessário considerar que a depressão resistente é uma condição crônica e que precisa de acompanhamento constante.

Se você percebe que está lidando com sintomas depressivos que não melhoram mesmo com diversas tentativas de tratamento, é interessante conversar com um profissional da saúde mental para avaliar a possibilidade de um outro tratamento, como a quetamina.

Não hesite em contatar um profissional da saúde mental e nunca administre medicamentos ou substâncias por conta própria!

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https://www.psychiatrictimes.com/view/the-revolutionary-discovery-of-ketamine-as-an-antidepressant

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