Os neurotransmissores são os mensageiros químicos do cérebro, sendo responsáveis pela comunicação entre um neurônio e outro.
Cada neurotransmissor tem uma especificidade: alguns neurotransmissores atuam na regulação do humor e da vigília, outros estão relacionados a processos de aprendizagem etc.
Saiba mais: Neurotransmissores: o que são? Quais são os principais?
A dopamina é um importante neurotransmissor que desempenha um papel central nos processos de aprendizado e adaptação, principalmente através de mecanismos de reforço, previsão de recompensa e plasticidade sináptica.
Neste texto, vamos entender um pouco melhor sobre a atuação da dopamina.
Dopamina e o mecanismo de recompensa
O mecanismo de recompensa do cérebro, também chamado de circuito do prazer, é um mecanismo que explica porquê nós fazemos aquilo que fazemos, ou seja, é o mecanismo que nos faz ter motivação e preferência por determinadas tarefas e atividades.
O principal neurotransmissor nesse mecanismo é justamente a dopamina, responsável por fazer essa “seleção” de comportamentos através da recompensa recebida.
Diante da perspectiva de uma recompensa por uma tarefa específica, os níveis de dopamina sobem. Após receber a recompensa, existem duas possibilidades:
Se a recompensa for melhor do que o esperado, os níveis de dopamina ficam mais altos na próxima vez que for preciso realizar essa mesma tarefa, fazendo com que a pessoa se sinta mais motivada.
Já se a recompensa é pior do que o esperado (ou inexistente), os níveis de dopamina diminuem na próxima vez, fazendo com que a pessoa tenha menos motivação para realizar a tarefa.
Em um exemplo prático, podemos imaginar um estudante que precisa ir bem em uma prova. Para isso, ele precisa estudar. Ao receber uma nota boa após a prova, esse mesmo estudante se sentirá mais motivado para estudar para as próximas provas.
Já se, mesmo estudando, a nota não for muito boa, o estudante não sentirá motivação para continuar estudando para as próximas provas, pois a recompensa (nota) não valeu o esforço.
Saiba mais: Mecanismos de recompensa: como o cérebro processa nossas conquistas?
A influência da dopamina no aprendizado
Compreendendo o mecanismo de recompensa do cérebro, fica mais fácil entender o papel da dopamina na aprendizagem.
Quando vamos aprender algo novo, é importante que nossos esforços sejam recompensados, ainda que essa recompensa seja apenas intrínseca (como o sentimento de realização por ter aprendido algo novo).
Podemos imaginar uma criança que está aprendendo a guardar seus brinquedos nos lugares corretos. Imagine que, para isso, a mãe da criança está mostrando onde vai cada brinquedo e, sempre que a criança acerta onde guardar o brinquedo, a mãe elogia e dá um beijinho.
Esse carinho da mãe após a criança guardar o brinquedo no lugar correto é a recompensa que a criança ganha por ter executado essa tarefa. A criança aprende o lugar correto de guardar cada brinquedo porque é recompensada quando o faz.
Apesar da dopamina ser conhecida como o neurotransmissor do prazer devido a sua associação com o sistema de recompensa, ela é na realidade o neurotransmissor da motivação e do aprendizado.
Experiências que despertam interesse, curiosidade, surpresa ou motivação costumam liberar mais dopamina, o que explica por que aprendemos melhor quando estamos engajados ou emocionalmente envolvidos.

Dopamina e a plasticidade cerebral
O conceito de plasticidade cerebral se refere à capacidade do cérebro de fortalecer, enfraquecer, reorganizar e criar novas conexões. Isso tudo ocorre em resposta às experiências e ao ambiente.
A plasticidade cerebral é extremamente importante para o aprendizado e para a adaptação, quando algo que já foi aprendido não traz mais resultados positivos e é necessário mudar a estratégia.
Um conceito importante para entender a plasticidade cerebral é a potenciação de longo prazo (LTP), que é quando uma conexão entre neurônios fica mais forte após padrões específicos de ativação neuronal.
A consolidação da LTP depende não apenas da atividade entre neurônios, mas também de sinais neuromodulatórios que indicam relevância.
Nesse contexto, a dopamina entra em ação como uma moduladora do processo de plasticidade cerebral, auxiliando o cérebro a determinar quais conexões neuronais valem a pena serem reforçadas e quais devem ser enfraquecidas.
Quando uma conexão neuronal entra em ação junto com a liberação da dopamina, é como se a dopamina avisasse ao cérebro que aquela conexão neuronal é relevante, de forma que seria interessante fortalecê-la.
No que tange o enfraquecimento das conexões neuronais, a falta da liberação de dopamina é o indicador de irrelevância daquela conexão.
Dopamina e o comportamento aversivo
A dopamina também tem um papel importante no comportamento aversivo, embora isso seja menos intuitivo porque ela costuma ser associada apenas a prazer e recompensa.
Hoje se sabe que a dopamina está envolvida não só em buscar coisas boas, mas em aprender a evitar coisas ruins e em ajustar o comportamento diante de resultados negativos.
No comportamento aversivo, a dopamina participa principalmente do aprendizado por erro. Quando uma ação gera um resultado pior do que o esperado, como dor, frustração, punição ou perda, ocorre uma queda na liberação de dopamina em certos circuitos cerebrais.
Essa redução funciona como um sinal de alerta para o cérebro, avisando que o comportamento apresentado não foi uma boa escolha. Com isso, as conexões neurais associadas àquela ação tendem a ser enfraquecidas, diminuindo a probabilidade de que o comportamento seja repetido.
Esse mecanismo é essencial para a adaptação. Graças à dopamina, o cérebro consegue comparar expectativas com resultados reais e atualizar seus modelos do mundo.
Quando acontece algo ameaçador, doloroso ou frustrante, a sinalização dopaminérgica ajuda a aprender rapidamente quais estímulos, contextos ou decisões devem ser evitados no futuro. Assim, a dopamina contribui para comportamentos defensivos e de esquiva que aumentam as chances de sobrevivência.

Embora a dopamina seja frequentemente associada ao prazer, seu papel no sistema nervoso vai muito além, sendo fundamental também para a motivação, o aprendizado e a adaptação de comportamentos.
Se você percebe que tem dificuldades com alguma dessas questões, ou considera estar lidando com problemas psicológicos, não hesite em buscar ajuda com um profissional da saúde mental!
Referências
Pignatelli, M., & Bonci, A. (2015). Role of Dopamine Neurons in Reward and Aversion: A Synaptic Plasticity Perspective. Neuron, 86(5), 1145–1157. https://doi.org/10.1016/j.neuron.2015.04.015
https://www.nature.com/articles/nrn1406
https://nin.nl/news/how-does-dopamine-regulate-both-learning-and-motivation/#


