Quando o sentimento de culpa é constante, exagerado e sem uma razão clara, ele pode estar ligado a vários transtornos mentais.
Destacam-se aqui aqueles transtornos em que a pessoa volta os sentimentos negativos para si mesma, como a ansiedade e a depressão.
De modo geral, a culpa surge quando sentimos que fizemos algo errado, como se tivéssemos quebrado regras ou valores importantes para nós.
No caso da culpa patológica, porém, essa sensação aparece mesmo quando não há um motivo real ou proporcional, como se a pessoa estivesse sempre em dívida consigo mesma.
Neste texto, vamos entender o que é culpa, quando ela se torna patológica e qual a sua relação com diversos transtornos mentais.
O que é culpa?
A culpa é um sentimento que pode ser puramente subjetivo, embora possa ter alguma relação com a realidade objetiva. Ela surge quando sentimos que fizemos algo errado, ainda mais se o que fizemos traz algum problema para alguém.
Quando a culpa é objetiva, ela ocorre quando uma pessoa acaba quebrando alguma regra de um grupo social, que pode ser desde uma comunidade de amigos até uma religião ou um estado. Nestes casos, a pessoa pode até receber o adjetivo “culpado”.
Já a culpa subjetiva surge de uma reflexão negativa acerca de si mesmo e das suas próprias ações, especialmente ao considerar o impacto dessas ações para outras pessoas significativas na vida do indivíduo.
A culpa é um tema estudado por diferentes áreas do conhecimento, como a biologia, a psicologia e até a religião. Cada uma delas tenta explicar por que sentimos culpa e qual é a sua função.
Do ponto de vista da biologia evolutiva, a culpa faz parte de algo chamado “altruísmo recíproco”, considerada a tendência de ajudar os outros esperando que, no futuro, também sejamos ajudados.
Nesse sentido, a culpa tem um papel importante: ela ajuda a controlar comportamentos egoístas e incentiva atitudes que mantêm boas relações com outras pessoas.
Assim, a culpa pode ser útil, funcionando como uma espécie de proteção que ajuda as pessoas a conviverem melhor entre si.
Já no campo da saúde mental, a culpa foi definida por psicólogos e psiquiatras como uma emoção desagradável associada à transgressão de regras e valores pessoais.
Quando é assim, a culpa pode ser resolvida por meio de movimentos de reparação e restituição, ou através da confissão e do perdão dos outros.
A culpa é uma experiência humana muito comum e, ao mesmo tempo, bastante dolorosa.
Quando a culpa se torna intensa ou persistente, as pessoas costumam buscar formas de se livrar desse sentimento, muitas vezes recorrendo à terapia ou à orientação religiosa.
Nesses contextos, o objetivo geralmente é ajudar a pessoa a aceitar que todos têm falhas e imperfeições, ao mesmo tempo em que reconhece suas qualidades e sua capacidade de mudar e melhorar.
Culpa funcional versus culpa patológica
A culpa pode ter um papel positivo em nossas vidas. Nesses casos, o sentimento de culpa é chamado de “culpa funcional”.
Ela surge quando realmente prejudicamos alguém ou violamos alguma regra que pode ser reparada proativamente.
Já a culpa patológica surge quando o sentimento de culpa é intenso e desproporcional, muitas vezes relacionado a incidentes completamente normais, nos quais a pessoa agiu de forma apropriada e não precisa necessariamente se retratar.
A culpa patológica frequentemente gera uma compulsão por buscar a reafirmação de outras pessoas, numa ânsia de acertar os erros o quanto antes.
No entanto, quando a culpa patológica toma conta, esse comportamento compulsivo pode acabar sabotando as relações, pois as outras pessoas podem acabar perdendo a paciência com a pessoa que está buscando reafirmação constante.
Culpa como traço versus culpa como estado afetivo
Uma forma comum de entender a culpa é separar dois tipos: a culpa como um estado momentâneo e a culpa como uma característica da pessoa.
A chamada “culpa como traço” é quando a pessoa tem uma tendência constante a se sentir culpada, mesmo sem um motivo claro ou proporcional. Nesse caso, a culpa faz parte de como ela se vê e entende a si mesma, quase como se fosse um traço da sua personalidade.
Já a “culpa como estado” é diferente: ela aparece em situações específicas, como uma reação emocional a algo que aconteceu. É um sentimento passageiro, que surge em determinado momento e depois tende a diminuir ou desaparecer.

A culpa nos transtornos mentais
Pessoas que sofrem com transtornos mentais frequentemente tem sentimentos de culpa mais intensos e/ou frequentes. Alguns transtornos com os quais a culpa tem uma grande relação são:
Depressão
Na depressão, a culpa costuma ser intensa, persistente e muitas vezes desproporcional. A pessoa pode se culpar por coisas pequenas ou até por situações fora do seu controle. É comum surgirem pensamentos como “tudo é minha culpa” ou “eu estrago tudo”.
Essa culpa se mistura com uma visão negativa de si mesma, reforçando sentimentos de inutilidade e desvalor. Em casos mais graves, pode evoluir para ideias de punição ou de que a pessoa “merece sofrer”.
Na depressão, é comum o fenômeno da ruminação, que pode intensificar sentimentos de culpa (e vice-versa).
Transtorno obsessivo-compulsivo (TOC)
No transtorno obsessivo-compulsivo, a culpa aparece muito ligada a pensamentos intrusivos, que são ideias indesejadas que surgem na mente, muitas vezes de conteúdo agressivo, imoral ou proibido. Mesmo sem agir, a pessoa pode sentir culpa apenas por ter pensado aquilo.
Pesquisas mostram que, para muitos pacientes com TOC, a preocupação não é que eles serão responsabilizados pelas consequências de suas obsessões. Em vez disso, eles temem que os pensamentos obsessivos indiquem um desejo involuntário de que elas se concretizem.
Transtorno de estresse pós-traumático (TEPT)
A culpa também está presente no transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), tanto no simples quanto no complexo.
Embora o TEPT esteja relacionado a sentimentos de medo, pesquisas mostram que emoções como raiva, culpa, vergonha, tristeza e entorpecimento são mais frequentes.
Muitas pessoas que sofrem de TEPT sentem algum tipo de culpa: por ter sobrevivido ao incidente traumático ou até mesmo por se sentirem responsáveis pelo incidente do qual foram vítimas.
Quando o TEPT vem acompanhado de muitos sentimentos de culpa, os sintomas tendem a ser até mais frequentes e limitantes, pois a pessoa passa a usar muitas estratégias de enfrentamento evitativas.
Transtorno de personalidade borderline
No transtorno de personalidade borderline, a culpa costuma ser intensa, instável e muito ligada aos relacionamentos. Isso porque o transtorno causa uma série de conflitos interpessoais após os quais a pessoa pode sentir uma culpa esmagadora, acompanhada de vergonha e medo de abandono.
Ao mesmo tempo, essa culpa pode oscilar rapidamente, indo de uma auto recriminação intensa até uma raiva ou sensação de injustiça em questão de poucas horas.
Autoestima e autocrítica
Por fim, a culpa também pode aparecer de forma mais significativa em casos nos quais a pessoa é muito crítica de si mesma, o que também tem uma relação com baixos níveis de autoestima.
Quando a pessoa trata pequenas falhas como grandes fracassos, cria-se um ciclo no qual quanto mais a pessoa se critica, mais culpa sente (e vice-versa).
Como tratar sentimentos de culpa?
Quando estamos lidando com a culpa funcional, geralmente o sentimento desaparece quando a pessoa faz os movimentos de reparação necessários.
No entanto, quando a culpa é patológica, pode ser necessário a ajuda de um profissional da saúde mental.
Em geral, a psicoterapia é indicada para tratar questões associadas com a culpa. Se a pessoa tem também algum transtorno mental adjacente, este deve ser acompanhado por um médico psiquiatra.
Algumas abordagens que ajudam no tratamento da culpa são:
Terapia cognitivo-comportamental (TCC)
A terapia cognitivo-comportamental entende que a atividade cognitiva pode estar distorcida, como é o caso de quando uma pessoa apresenta culpa patológica.
Nesta abordagem, são identificados padrões de pensamento e comportamento que acabam por alimentar essas distorções cognitivas e, consequentemente, aumentar o sentimento de culpa desproporcional.
O terapeuta irá utilizar uma série de técnicas para ajudar o paciente a modificar a atividade cognitiva aos poucos, até que consiga se desvencilhar da culpa patológica.
Saiba mais: Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC): O que é? Como funciona?
Terapia do esquema
Na terapia do esquema, também se trabalha com distorções cognitivas, mas aqui elas são vistas como grandes esquemas que se retroalimentam de forma bastante profunda e complexa.
Em geral, essa terapia costuma trabalhar com padrões de pensamento muito antigos e enraizados, focando bastante no passado do indivíduo e de que forma suas vivências influenciaram o surgimento da culpa patológica.
Entenda melhor: Terapia dos esquemas: o que é, como funciona?
Terapia de aceitação e compromisso (ACT)
Ao contrário das terapias anteriores, a terapia de aceitação e compromisso (ACT) não busca eliminar o sentimento de culpa, ainda que ele seja caracterizado como patológico.
Na ACT, a ideia é entender que nossos pensamentos e sentimentos não são fatos, de modo que a culpa pode existir sem necessariamente prejudicar a nossa forma de viver e nosso compromisso com nossos valores pessoais.
Saiba mais: Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT): o que é e como funciona

Referências
Stewart, E., & Shapiro, L. (2011). Pathological guilt: A persistent yet overlooked treatment factor in obsessive-compulsive disorder. Annals of Clinical Psychiatry, 23(1), 63–70.
Ganguly, O., & Tarafder, S. (2024). The Many Faces of Guilt: A Review Mapping Unique and Overlapping Expressions in OCD and Depression. Indian journal of psychological medicine, 48(1), 6–15. https://doi.org/10.1177/02537176241283385


