Muito se fala sobre como transtornos mentais como a depressão acabam fazendo com que a pessoa não veja mais sentido em sua vida. No entanto, questionar o sentido da vida e de todas as coisas nem sempre é um problema, sendo uma atividade até bastante comum.
Trata-se da angústia existencial, também chamada de ansiedade existencial, uma experiência unicamente humana ligada ao fato de que somos conscientes de nós mesmos e de nossas limitações, como a morte, as incertezas e a falta de garantias.
Longe de ser uma patologia, a angústia existencial já foi pensada e explorada por diversos pensadores, como Søren Kierkegaard, Martin Heidegger e Jean-Paul Sartre, expoentes da filosofia existencial.
Para estes pensadores, a angústia existencial não seria um problema, um erro ou uma doença, mas uma simples experiência inerente ao ser humano.
Qual a diferença entre a angústia existencial e a angústia clínica?
Quando falamos de angústia clínica, estamos falando de um estado afetivo que causa prejuízos significativos no funcionamento de uma pessoa. Em outras palavras, trata-se de uma angústia patológica, que causa limitações na capacidade da pessoa de viver o dia-a-dia.
É o caso da depressão, por exemplo, que pode impactar muito a maneira que uma pessoa funciona em diversos contextos, como o social, interpessoal, acadêmico, laboral, entre outros.
A angústia clínica também pode aparecer na forma de transtornos de ansiedade, nos quais as incertezas podem chegar a causar sintomas fisiológicos, como palpitações, tensão muscular, hiperventilação, hipervigilância, entre outros.
Embora a angústia existencial traga emoções negativas e questionamentos profundos acerca de nossas escolhas, ela não costuma gerar todo esse prejuízo no funcionamento de um indivíduo.
Em outras palavras, se você sente que seus questionamentos filosóficos acabam por prejudicar o seu dia-a-dia de alguma forma, pode ser que você esteja lidando com um quadro clínico, não apenas existencial.
Características da angústia existencial
A angústia existencial é caracterizada por questões acerca da condição humana, como a finitude, as incertezas, a liberdade, a culpa e sentimentos de vazio e falta de sentido.
Tudo isso é angustiante porque o ser humano consegue ter consciência de todas essas questões, sem conseguir dar uma resposta definitiva a nenhuma delas.
Nosso cérebro evoluiu para funcionar como uma máquina de resolver problemas. Quando não conseguimos encontrar uma solução para uma questão, é natural que tenhamos reações emocionais negativas.
A angústia existencial está atrelada justamente a essas questões que não podemos resolver, como:
Confronto com a liberdade
O conceito de liberdade costuma ser visto como algo positivo, mas também é algo que pode gerar bastante angústia a partir do momento em que estamos “condenados a sermos livres”, como diria o filósofo existencialista Jean-Paul Sartre.
Isso significa que, não importa o que aconteça, estamos sempre fazendo escolhas e renúncias, o que pode gerar muita frustração e angústia. Mesmo a tentativa de não escolher acaba sendo uma ilusão, pois ainda precisamos nos responsabilizar pelas consequências dessa “não-escolha”.
A partir disso, podemos também entender como sentimentos de culpa podem surgir durante momentos de angústia existencial.
Falta de sentido
Outro ponto importante da angústia existencial é a falta de sentido e os sentimentos de vazio que a acompanham.
É interessante perceber que, apesar da existência de religiões, culturas e sociedades que buscam dar sentido para a vida, não existe uma garantia de que essas maneiras de ver o mundo e a vida estão objetivamente corretas.
Em outras palavras, muitas pessoas reconhecem que, objetivamente, não existe um sentido inerente à existência humana.
Pensadores como Viktor Frankl destacaram como o ser humano é profundamente orientado pela necessidade de encontrar propósito.
A angústia existencial aparece quando esse sentido não está claro, se perde ou parece frágil demais diante das incertezas da vida.
Consciência da finitude
A ideia de que a vida é limitada, de que vamos morrer e de que o tempo é irreversível pode gerar um tipo de inquietação silenciosa, mas persistente.
Nem sempre a consciência da morte é algo apenas negativo. Essa consciência pode até mesmo nos despertar para uma vida mais autêntica.
No entanto, o contato com essa realidade frequentemente vem acompanhado de angústia.
Incertezas
Por fim, as incertezas também acabam sendo um fator chave na angústia existencial.
Diferente de medos concretos (como medo de perder um emprego ou de adoecer), a inquietação causada pelas incertezas vem da percepção de que não existem garantias últimas.
Em outras palavras, não sabemos exatamente quem somos, nem o que acontecerá, nem qual é “o caminho certo”, gerando uma sensação de instabilidade interna.

Quando é preciso tratar a angústia?
Na maior parte dos casos, a angústia existencial não precisa de tratamento.
Isso porque se trata de um fenômeno comum que, apesar de causar sentimentos negativos e mal-estar, tende a ser passageiro, não interferindo na qualidade de vida da pessoa.
Em certos momentos, essa angústia existencial pode até mesmo ser benéfica, ajudando a pessoa a avaliar sua vida e as escolhas que tem feito.
No entanto, há casos em que essa angústia pode se tornar crônica e patológica, atrapalhando o funcionamento no dia-a-dia.
Se uma pessoa começa a não ver sentido em tudo, em um primeiro momento ela pode até conseguir lidar, mas com o tempo pode ser que seu humor decaia e suas emoções passem a ser mais negativas, podendo até mesmo desenvolver uma espécie de apatia emocional.
Aos poucos, a motivação vai desaparecendo e a pessoa deixa de fazer suas atividades do dia-a-dia, mesmo aquelas que gosta e lhe trazem prazer.
As incertezas também podem gerar uma angústia paralisante, impedindo a pessoa de tomar decisões e fazer novas escolhas em sua vida, podendo levar até mesmo a quadros patológicos como ataques de pânico.
No contexto laboral, a síndrome de burnout pode ser resultado de uma angústia existencial não elaborada, bem como pode contribuir para essa angústia existencial a partir da sensação de arrependimento por dedicar tanto de sua vida em um trabalho com o qual não se identifica ou que perdeu o sentido.
Esses são casos em que há necessidade de intervenção psiquiátrica o quanto antes para que a pessoa consiga retomar a sua qualidade de vida.
Em geral, quando a angústia existencial vem acompanhada de sintomas psiquiátricos e fisiológicos, como pensamentos intrusivos, dificuldades de concentração, alterações no sono e no apetite, palpitações, entre outros, entende-se que não se trata apenas de uma angústia existencial e que é preciso buscar ajuda profissional.
Como lidar com a angústia existencial?
Quando se trata de uma angústia meramente existencial e não clínica, existem diversas formas de lidar. Muitas delas foram pensadas justamente por filósofos, mas também por psicólogos clínicos como Carl Gustav Jung.
Em muitos aspectos, a chave para lidar com a angústia existencial está em buscar criar uma vida que faça sentido a partir do desenvolvimento de recursos internos, ao invés de focar numa busca por um sentido externo a si.
Em outras palavras, na falta de sentido da vida, a proposta é justamente criar um sentido a partir das nossas próprias vivências e valores pessoais, que também servem para nos guiar em nossas escolhas.
Mesmo que se trate de uma angústia existencial e não propriamente clínica, a psicoterapia pode ajudar a desvendar questões acerca de si mesmo que podem auxiliar na elaboração dessa angústia.
Técnicas como o mindfulness também podem ajudar ao fazer a pessoa se concentrar no momento presente ao invés de ponderar exageradamente sobre as questões existenciais.
Vale lembrar que não é necessário um diagnóstico psiquiátrico para fazer terapia, e a psicologia pode ajudar pessoas independente de elas terem um transtorno mental ou não.
Contudo, se a situação passa a se mostrar como mais do que uma angústia existencial, é possível buscar um encaminhamento para um psiquiatra, para que ele possa identificar e tratar possíveis transtornos mentais adjacentes que podem estar interferindo na elaboração dessas questões.
Muitas pessoas também lidam com a angústia existencial através da espiritualidade.
Diversas crenças e religiões podem trazer a sensação de que existem respostas para estes questionamentos, fazendo com que muitas pessoas consigam alcançar um estado de maior paz de espírito em relação a estas questões.
No entanto, não se trata de uma solução que funciona para todo mundo, visto que muitas pessoas não conseguem acreditar em nada espiritual e não há nada de errado nisso.

Independente se for uma angústia que surge no último dia do final de semana ou se é algo que o acompanha com frequência, a angústia existencial pode ter seu lado bom e seu lado ruim.
Se você percebe que, junto com as questões existenciais, você está vivenciando sintomas de que pode haver algo com sua saúde mental, não hesite em buscar ajuda de profissional!
Referências
https://www.psychologytoday.com/us/blog/when-to-call-a-therapist/202005/existential-angst
https://dictionary.apa.org/existential-anxiety
https://therapygroupdc.com/therapist-dc-blog/the-psychology-of-existential-dread/


