A relação entre mente e corpo é um assunto que intriga a humanidade há muitos séculos, havendo registros de escritos sobre isso datados de 400 a.C.
Contudo, à medida em que a medicina foi se tornando um estudo rigoroso do corpo e dos processos corporais, a ideia de que a mente poderia ter alguma influência na saúde corporal foi sendo perdida.
Mais recentemente, no século XIX, a ligação entre corpo e mente voltou a ser a resposta para muitos dos mistérios da saúde. Os estudos de Freud e demais profissionais da saúde da época destacam que o que ocorre em nossas mentes pode sim ter um reflexo em nossa saúde física.
É a isso que chamamos de psicossomatização. Neste texto, vamos falar sobre este conceito, como ela ocorre, os principais sintomas psicossomáticos encontrados atualmente e de que forma é possível tratar as chamadas “doenças psicossomáticas”.
O que é psicossomatização?
O termo psicossomatização se refere a um processo em que o sofrimento mental se manifesta a partir de sintomas físicos, também chamados de somáticos.
O sofrimento mental em questão pode variar desde estresse crônico e traumas até a ansiedade do dia-a-dia. No entanto, ele costuma ser bastante intenso para acabar resultando em uma psicossomatização.
O termo vem da junção das palavras gregas psyche (mente) e soma (corpo), refletindo justamente a ideia de que mente e organismo estão profundamente conectados.
Na prática, isso significa que experiências emocionais como ansiedade, estresse crônico, tristeza, medo, culpa ou traumas podem contribuir para o surgimento ou agravamento de sintomas físicos reais.
A psicossomatização pode ser identificada a partir do momento em que a pessoa apresenta sintomas físicos mas não existem evidências médicas de que a pessoa possui aquela doença em específico.
Em outras palavras, a pessoa pode apresentar sintomas condizentes com doenças conhecidas sem que haja uma causa orgânica para o desenvolvimento da doença.
Quando uma pessoa sofre de uma condição psicossomática, seus exames sempre voltam normais e ela não apresenta melhora significativa mesmo seguindo o tratamento adequado.
Breve histórico da psicossomatização
A ideia de que corpo e mente estão interligados e podem influenciar um ao outro não é nova, embora possa parecer assim.
Já na Grécia Antiga, médicos como Hipócrates defendiam que mente e corpo não deveriam ser vistos como entidades separadas. Para ele, emoções, ambiente e estilo de vida participavam diretamente do processo de adoecimento.
Isso tudo mudou quando René Descartes, filósofo francês, propôs uma visão dualista, separando mente e corpo em dimensões distintas, o que influenciou significativamente o desenvolvimento da medicina ocidental.
Foi só no século XIX, com o avanço da neurologia e da psiquiatria, que alguns médicos começaram a observar pacientes que apresentavam sintomas físicos importantes sem uma explicação orgânica clara, trazendo à tona a ideia de que a mente poderia ter uma influência na saúde física.
Nesse contexto, estudos sobre histeria realizados por Jean-Martin Charcot e posteriormente por Sigmund Freud tiveram grande impacto. Freud propôs que conflitos emocionais inconscientes poderiam se converter em sintomas corporais, fenômeno que chamou de “conversão”.
Com o avanço das neurociências, da endocrinologia e da psiconeuroimunologia nas décadas seguintes, a compreensão da psicossomatização tornou-se mais complexa e científica.
Pesquisas passaram a demonstrar que estresse crônico, traumas, ansiedade e depressão podem alterar sistemas fisiológicos importantes, como o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA), o sistema nervoso autônomo e o sistema imunológico.
Leia mais: Quando o corpo percebe antes da mente: o papel do corpo no sofrimento psíquico
Assim, sintomas físicos relacionados ao sofrimento psíquico deixaram de ser vistos como mera imaginação, passando a ser compreendidos como manifestações reais produzidas pela interação contínua entre cérebro, corpo e ambiente.
Hoje, a compreensão da psicossomatização é baseada em modelos biopsicossociais, que entendem saúde e doença como resultado da interação entre fatores biológicos, psicológicos e sociais.
Causas da psicossomatização
A psicossomatização surge sempre de um sofrimento psicológico intenso, geralmente crônico, que pode ser negligenciado por muito tempo antes de virar um sintoma físico.
Isso pode ocorrer por diversos motivos, desde um transtorno mental adjacente não tratado até uma exposição ao estresse crônico no dia-a-dia.
Mesmo pessoas completamente saudáveis podem desenvolver uma doença psicossomática, especialmente se negligenciar sua saúde mental.

Principais sintomas de psicossomatização
Os principais sintomas de uma psicossomatização costumam ser:
- Problemas digestivos, como gastrite, refluxo gastroesofágico e síndrome do intestino irritável;
- Doenças de pele, como dermatites e psoríase;
- Tensão muscular;
- Enxaquecas;
- Dores nas articulações;
- Fadiga;
- Tontura;
- Úlceras;
- Crises respiratórias, até mesmo crises asmáticas;
- Disfunção erétil;
- Hipertensão arterial;
- Paralisias.
A origem é psicológica, mas a dor é real
Um ponto importante ao falarmos de psicossomatização é que, por mais que a origem dos sintomas seja inteiramente psicológica, isso não quer dizer que a pessoa não esteja sofrendo de fato.
O corpo realmente sente todos aqueles sintomas, acompanhados de todas as dores e desconfortos físicos que eles proporcionam.
Em outras palavras, não podemos invalidar um sintoma psicossomático só porque ele não tem origem biológica. As origens dos sintomas podem ser diferentes, mas eles seguem sendo sintomas reais.
Tratamento das doenças psicossomáticas
Como as doenças psicossomáticas não são enfermidades com uma base biológica, o uso de medicamentos não é capaz de combater os sintomas em sua totalidade e curar o problema.
Ainda que uma pessoa que sofre de gastrite psicossomática possa ter um alívio dos sintomas ao administrar a medicação adequada, o problema acaba nunca sendo curado pois a sua causa não está sendo tratada.
Por ter origem na psique, é tratando a saúde mental que podemos curar a psicossomatização
Esse tratamento costuma ser feito juntando acompanhamento psiquiátrico e psicoterapia, de forma a tratar tanto possíveis transtornos mentais adjacentes quanto os conflitos pontuais que podem ser gatilhos para crises psicossomáticas.
O tratamento físico não deve ser rejeitado, no entanto. Enquanto a pessoa está em tratamento com profissionais da saúde mental, ela ainda pode ter crises e sintomas físicos bastante debilitantes, que devem ser devidamente tratados.
Para além dos tratamentos clínicos, a psicossomatização também pode ser combatida ao adotar diversas práticas importantes para levar uma vida saudável, como a prática de exercícios físicos, uma alimentação equilibrada, boa higiene do sono e boa hidratação.
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Buscar reduzir as fontes de estresse também é importante, pois mesmo quando há um tratamento adequado para quadros psicológicos, o estresse do dia-a-dia pode contribuir muito para a psicossomatização.
Em alguns casos, o uso de medicações psiquiátricas pode ser indicado, especialmente quando há transtornos associados, como ansiedade, depressão ou insônia.
Medicamentos antidepressivos e ansiolíticos podem ajudar a diminuir tanto o sofrimento emocional quanto certos sintomas físicos relacionados aos quadros psiquiátricos adjacentes.
Outro aspecto importante é desenvolver maior consciência emocional e corporal.
Muitas pessoas com psicossomatização têm dificuldade em identificar o que sentem emocionalmente e acabam percebendo o sofrimento apenas através do corpo.
Aprender a reconhecer emoções, limites, necessidades e sinais de sobrecarga pode reduzir a necessidade de o organismo manifestar o sofrimento através dos sintomas físicos.
Vale lembrar que o tratamento costuma ser gradual e pode ser necessário sua manutenção por diversos meses.
Em muitos casos, os sintomas somáticos surgem após anos de estresse, repressão emocional ou funcionamento em estado constante de tensão.
Por isso, o tratamento envolve não apenas aliviar sintomas, mas também reconstruir formas mais saudáveis de lidar com emoções, relações e estresse cotidiano.

Mesmo que você se identifique com o texto e acredite estar sofrendo com sintomas psicossomáticos, lembre-se de investigar tudo adequadamente com um clínico geral ou especialista.
É importante que tanto a medicina tradicional quanto a psiquiatria e a psicologia andem em conjunto para tratar quadros psicossomáticos.
Referências
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https://www.ebsco.com/research-starters/psychology/psychosomatic-disorders


