As mudanças climáticas são um assunto de grande importância há décadas, mas atualmente há um maior destaque por conta do aumento da frequência de desastres naturais registrados nos últimos anos. Junto disso, cresce o número de pessoas que sofrem um impacto significativo na saúde mental: é a chamada ecoansieade.
Neste texto, vamos falar sobre o conceito de ecoansiedade, seus sintomas, se é uma patologia ou não, bem como algumas dicas para lidar com esse fenômeno crescente.
O que é ecoansiedade?
De acordo com a American Psychological Association (APA), a ecoansiedade é definida como um medo crônico de um cataclismo ambiental causado pelas mudanças climáticas, associado à preocupação com o futuro.
Também conhecida como ansiedade climática, essa ansiedade está ligada diretamente às crises climáticas que temos vistos nos últimos anos, como aumento nas temperaturas, aumento nos desastres naturais, entre outros.
Esses sentimentos negativos podem ser tanto em relação às mudanças em si como em relação às pessoas e instituições que têm o poder de fazer alguma coisa para remediar a situação, e que frequentemente negligenciam essa questão.
Sentimentos comuns ao processo de luto, como raiva e tristeza, são frequentes em pessoas que sofrem de ecoansieade. Outros sentimentos presentes nesses casos são a sensação de impotência e injustiça.
Esse tipo de ansiedade é mais comum nas populações mais jovens, que tem dificuldades em imaginar um futuro no qual as consequências das mudanças climáticas não serão catastróficas. Essas pessoas veem o estilo de vida atual como insustentável e entendem que, devido às mudanças climáticas, muito do que conhecemos hoje pode mudar rapidamente nas próximas décadas.
É importante lembrar que a ecoansiedade pode aparecer tanto de forma direta, quando uma pessoa é vítima de algum desastre natural (como incêndios florestais, enchentes, deslizamentos, entre outros), ou de forma indireta, quando vemos um mundo no qual cada vez mais existem refugiados climáticos (pessoas que precisam sair de suas moradias por questões climáticas).
Uma pesquisa realizada em 2021 mostra que cerca de 60% das pessoas jovens estão muito ou extremamente preocupadas com problemas ambientais, e entre 50 e 67% dessa população admite que as mudanças climáticas provocam sentimentos angustiantes como medo, ansiedade, raiva, culpa, entre outros.
Porém, o problema não é apenas a presença de sentimentos negativos, mas sim o fato de que, em alguns casos, esses sentimentos podem ter um impacto funcional na vida da pessoa. Cerca de 45% das pessoas nesta pesquisa relatam que esses sentimentos causam dificuldades em atividades diárias como se concentrar, dormir, comer, ir para a escola e até mesmo brincar.
Além disso, 64% dos participantes consideram que as respostas dos governos aos problemas climáticos não são adequadas, ou seja, os governos e instituições não estão fazendo o que deveriam para combater e remediar as mudanças climáticas.
Um dos grandes problemas da ecoansiedade é que não é possível eliminar o tema ansiogênico: as mudanças climáticas são reais e praticamente irreversíveis neste momento. Sendo assim, é necessário entender que a ecoansiedade é um quadro crônico e que pode durar a vida toda de uma pessoa.
Sintomas da ecoansiedade
Os sintomas da ecoansiedade são parecidos com sintomas de outros quadros ansiosos, como:
- Inquietação
- Dificuldades para se concentrar
- Preocupação frequente
- Tensão muscular
- Palpitações
- Respiração irregular
- Dificuldades para dormir
- Ataques de pânico
- Sentimentos de desesperança e impotência
A principal diferença da ecoansiedade é que esses sintomas estão diretamente relacionados ao estresse ambiental, ou seja, eles ocorrem quando a pessoa pensa em questões ambientais e nas mudanças climáticas.
Há também pessoas que se sentem sobrecarregadas pelo assunto e acabam se distanciando dele, sendo a aversão uma resposta comum para tentar lidar com a ansiedade.
O que causou o aumento na ecoansiedade?
A ecoansiedade não surgiu de forma repentina, mas ganhou força nas últimas décadas à medida que as evidências das mudanças climáticas se tornaram mais visíveis e frequentes no cotidiano.
O aumento da temperatura média do planeta, as ondas de calor recordes, as secas prolongadas, os incêndios florestais de grandes proporções e as enchentes devastadoras passaram a ocupar espaço constante nas notícias, fazendo com que a crise climática deixasse de ser percebida como um problema distante e passasse a fazer parte da realidade de milhões de pessoas.
Nos últimos anos, eventos como os incêndios florestais no Canadá e na Grécia, as ondas de calor extremas registradas na Europa, na Ásia e na América do Norte, as enchentes históricas no Rio Grande do Sul em 2024 e as secas severas que afetaram diferentes regiões do mundo reforçaram a percepção de que os impactos das mudanças climáticas já estão ocorrendo.
Ao mesmo tempo, relatórios científicos têm alertado para o agravamento desses fenômenos caso as emissões de gases de efeito estufa não sejam reduzidas nas próximas décadas.
Outro fator importante para o crescimento da ecoansiedade é a velocidade com que essas informações circulam. As redes sociais, os noticiários em tempo real e a divulgação constante de imagens de desastres ambientais aumentam a sensação de urgência e vulnerabilidade. Para muitas pessoas, especialmente jovens, a combinação entre a percepção de um futuro incerto e a impressão de que as respostas políticas e econômicas são insuficientes pode gerar sentimentos persistentes de preocupação, impotência e medo.

A ecoansiedade é uma patologia ou apenas uma reação emocional normal?
A ecoansiedade é entendida como uma ansiedade racional, ou seja, ela tem um embasamento na realidade. É como se nosso organismo tivesse um alarme nos dizendo que tem algo de errado, o que de fato é verdade quando se trata das mudanças climáticas.
Sendo assim, é possível entender que, até certo ponto, a ecoansiedade é uma reação emocional normal ao momento que estamos vivendo.
Há quem compare a ecoansiedade ao medo que a geração baby boomer (nascidos entre 1946 e 1964) sentia em relação a um desastre nuclear por conta da Guerra Fria, o que também era um medo bem fundamentado na época.
Por conta disso, a ecoansiedade não é um diagnóstico reconhecido formalmente pelo DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) e nem pelo Código Internacional de Doenças (CID). No entanto, isso não significa que ela não pode causar sofrimento clinicamente significativo.
Justamente por isso, pessoas que sofrem de ecoansiedade podem receber algum diagnóstico com sintomas semelhantes, como o transtorno de ansiedade generalizada (TAG).
Além disso, pessoas que já possuem algum diangóstico prévio podem ter seus sintomas agravados pela ecoansiedade.
Em outras palavras, ainda que a ecoansieade não seja um transtorno em si e não haja motivo para patologizá-la, pessoas que sofrem com esse tipo de ansiedade podem sim precisar de cuidados psiquiátricos e psicológicos.
Além disso, as experiências emocionais atreladas à ecoansiedade podem aumentar a resiliência e a agência de uma pessoa, fazendo-a se engajar mais em métodos coletivos de combate às mudanças climáticas.
Ecoansiedade versus luto ecológico versus solastalgia
Além da ecoansiedade, o estresse ambiental afeta a saúde mental de diversas outras formas.
Outros termos conhecidos neste contexto são luto ecológico e solastalgia:
Luto ecológico
O termo “luto ecológico” se refere aos sentimentos de luto que ocorrem em relação às perdas atuais e esperadas do ambiente natural e aos impactos da mudança climática.
Dentro dos sentimentos de luto estão a tristeza, a raiva e adesesperança. Desta forma, o luto ecológico é indicativo de uma aceitação de que essas perdas ambientais são inevitáveis.
Isso é bastante diferente da ecoansiedade, que muitas vezes ajuda o indivíduo a ter uma maior agência em relação a ações preventivas, enquanto o luto ecológico entende que não haveria nada a ser feito.
O luto ecológico implica numa diminuição da ansiedade ecológica, mas ainda pode ser bastante angustiante e prejudicial para a saúde mental.
Solastalgia
A solastalgia é a angústia causada pela transformação e degradação do ambiente que a pessoa considera um lar. Este conceito está relacionado não apenas à natureza em si, mas também a estruturas humanas como casas, prédios, entre outros.
Os desastres naturais, cada vez mais frequentes, são grandes causadores de solastalgia por fazer com que muitas pessoas percam suas moradias e suas rotinas em lugares familiares. No entanto, a solastalgia pode ocorrer por conta de diversos outros eventos destrutivos, como guerras ou acidentes.
O termo foi descrito em primeiro lugar em relação a populações nativas (como populações indígenas, por exemplo) ao observar a degradação de seus territórios tanto pela expansão da vida urbana como pelos desastres naturais causados pelas mudanças climáticas.
A solastalgia carrega consigo também uma conotação de perda de identidade coletiva pelas mudanças que acabam com a familiaridade do local.
Como lidar: estratégias de enfrentamento da ecoansiedade
A ecoansiedade é uma realidade com a qual precisamos aprender a lidar, uma vez que ela está enraizada em ameaças realistas. Sendo assim, algumas ideias para ajudar a lidar e enfrentar a ecoansiedade são:
- Técnicas de regulação emocional: São técnicas importantes para que uma pessoa consiga lidar com as próprias emoções, em especial as emoções desagradáveis e angustiantes que podem trazer prejuízos funcionais no dia-a-dia;
- Buscar soluções coletivas: Participar de coletivos que tem como objetivo aumentar a conscientização, cobrar de governos e demais instituições e até mesmo por a mão na massa por meio de ações práticas pode ajudar a lidar com sentimentos de impotência e desesperança;
- Buscar tratamento em caso de sintomas significativos: Se os sintomas da ecoansiedade causam limitações como dificuldades para fazer as tarefas do dia-a-dia, trabalhar, estudar, entre outros, pode ser necessário buscar ajuda profissional com um psicólogo ou psiquiatra.
É importante ressaltar que, por mais que a psicoterapia e psiquiatria possam ajudar a lidar com os sintomas mais limitantes da ecoansieade, não é possível resolver um problema como um todo apenas com cuidados individuais com a saúde mental.
A ecoansieade está atrelada a problemas estruturais e, como tal, o combate a ela também precisa ser sistêmico, através de iniciativas coletivas de prevenção e remediação de problemas climáticos.
Neste sentido, a sociedade como um todo é responsável pela melhora ou agravamento da ecoansiedade.

Embora a ecoansieade seja uma resposta racional ao momento que estamos vivendo, é fato que os sintomas podem se tornar tão severos e invasivos que podem prejudicar o nosso funcionamento no dia-a-dia.
Se você acredita que está tendo sintomas ansiosos que prejudicam seu funcionamento, não hesite em procurar um profissional da saúde mental!
Referências
Hickman C, Marks E, Pihkala P et al. (2021). Climate anxiety in children and young people and their beliefs about government responses to climate change: a global survey. The Lancet Planetary Health, 5, e863-e873. DOI: 10.1016/S2542-5196(21)00278-3
https://www.unicef.org/blog/what-is-eco-anxiety
https://www.ecoanxiety.com/what-is-eco-anxiety/
https://www.gov.uk/guidance/climate-change-awareness-and-mental-health


