Alimentos ultraprocessados e saúde mental: o que a ciência já sabe

Quando a alimentação não é saudável, o corpo inteiro sente, incluindo a mente. Entenda melhor aqui!

Desde a década de 80, o consumo de alimentos ultraprocessados (AUP) no dia-a-dia aumentou drasticamente. No Brasil, estima-se que os alimentos processados são cerca de um quarto (¼) da alimentação da população.

O problema é que estes alimentos, baixos em valores nutricionais, são bastante prejudiciais para a saúde física, estando relacionados ao aumento de problemas como obesidade, diabetes, problemas cardiovasculares, entre outros.

Porém, o que investigações mais recentes mostram é que o impacto do consumo excessivo de alimentos ultraprocessados também chega na saúde mental.

Neste texto, vamos abordar questões como o que são alimentos ultraprocessados, o que os estudos atuais mostram sobre a relação entre alimentação e saúde mental, bem como o que isso significa para pacientes e familiares.

O que são alimentos ultraprocessados?

Os alimentos ultraprocessados, também chamados de AUP, são alimentos geralmente industrializados que contém diversos ingredientes artificiais e de baixo valor nutricional.

Alguns exemplos de aditivos comuns em alimentos ultraprocessados são emulsificantes, corantes, aromatizantes, açúcar em excesso, gordura hidrogenada, entre outros.

Esses alimentos costumam ser bastante saborosos e de baixo custo, mas o valor nutricional é extremamente baixo, de modo que uma alimentação baseada em alimentos ultraprocessados é uma alimentação bastante pobre e prejudicial.

Estudos mostram que os alimentos ultraprocessados estão relacionados a aumentos significativos nas taxas de obesidade, diabetes tipo 2, hipertensão, doenças cardiovasculares, desequilíbrio na flora intestinal e inflamações crônicas.

O que pesquisas mais recentes mostram também é que os efeitos prejudiciais dos alimentos ultraprocessados não estão restritos apenas à saúde do corpo, tendo impacto também na saúde da mente. Vamos explorar estes impactos mais a fundo mais adiante.

Exemplos de alimentos ultraprocessados

Alguns exemplos de alimentos ultraprocessados bastante comuns no nosso dia-a-dia são:

  • Cereais matinais;
  • Temperos prontos;
  • Molhos prontos e condimentos como ketchup, mostarda, molho barbecue, entre outros;
  • Misturas para bolos, tortas, pudins, entre outros;
  • Fast food, como hambúrguer, cachorro-quente, pizzas;
  • Biscoitos doces e salgados, especialmente os recheados;
  • Salgadinhos de pacote;
  • Barras de cereais;
  • Refrigerantes e bebidas açucaradas como sucos industrializados e energéticos;
  • Embutidos como salsicha, linguiça, mortadela e presunto;
  • Pães com aditivos como gordura vegetal hidrogenada, açúcares, amido e emulsificantes.

Como são classificados os alimentos?

Nem todo alimento processado pode ser considerado ultraprocessado. Diversos alimentos que consumimos no dia-a-dia podem ser considerados alimentos processados e nem sempre eles têm impactos tão significativos na saúde.

Atualmente, os alimentos são classificados em quatro grupos de acordo com o grau de processamento:

  • In natura ou minimamente processados: São alimentos mais naturais, como frutas, legumes, verduras, grãos, ovos, carnes;
  • Processados culinários: São alimentos que servem como ingredientes do dia-a-dia, como óleos, manteiga, farinhas, açúcar, sal;
  • Processados: Alimentos que passam por processos de conservação simples, como pães, queijos, conservas, compotas;
  • Ultraprocessados: Alimentos industrializados prontos para consumo (ou de cozimento “instantâneo”), repletos de aditivos artificiais.

O que os estudos mostram sobre AUP e saúde mental?

Estudos conduzidos nos últimos anos têm mostrado evidências de que existe uma associação entre uma exposição maior a alimentos ultraprocessados e sintomas depressivos e ansiosos.

Isso não quer dizer necessariamente que os alimentos ultraprocessados estão causando estes sintomas, ou seja, não é uma relação causal. No entanto, compreender que existe essa correlação é interessante para buscarmos alternativas nos tratamentos desses sintomas.

Neste sentido, percebe-se que o consumo de ultraprocessados pode estar associado a quadros psiquiátricos como depressão e ansiedade, podendo de alguma forma influenciar no tratamento.

Atualmente, recomenda-se que pessoas em tratamento desses transtornos mantenham uma dieta equilibrada e saudável, o que realmente ajuda a combater os sintomas junto com o tratamento psiquiátrico adequado.

Da mesma forma, diversos estudos mostram uma correlação positiva entre dietas equilibradas e uma melhor saúde mental. Dietas baseadas em frutas, vegetais, grãos integrais, peixes, óleo de oliva e laticínios baixos em gordura tem se mostrado aliadas poderosas no combate a sintomas de transtornos mentais.

Como não é possível estabelecer uma relação causal entre o consumo de alimentos ultraprocessados e sintomas psiquiátricos, podemos entender que esse consumo exagerado é um fator de risco para o desenvolvimento de transtornos.

No entanto, os transtornos mentais são sempre multifatoriais, de forma que apenas o consumo de ultraprocessados não é o suficiente para explicar os sintomas. Sendo assim, a dica de manter uma alimentação saudável ainda é válida, mas não é uma garantia de que não surgirão sintomas.

Outros fatores importantes a serem levados em conta, para além da alimentação, são estresse, histórico familiar, estilo de vida, entre outros.

Possíveis mecanismos: por que a alimentação pode influenciar o humor?

Ainda não temos estudos conclusivos sobre de que forma a alimentação influencia o humor das pessoas, mas pesquisas mostram algumas possibilidades.

Há pesquisas que mostram que um maior consumo de adoçantes artificiais, como aspartame e sacarina, bem como glutamato monossódico (MSG), frequentemente usado como realçador de sabor, pode estar envolvido numa desregulação da síntese e liberação de alguns neurotransmissores importantes para a regulação do humor, como a dopamina, a norepinefrina e a serotonina.

Outras pesquisas mostram que alguns emulsificantes usados frequentemente, como a carboximetilcelulose e o polisorbato-80, estão associados a uma alteração na microbiota intestinal, reduzindo sua diversidade, e até mesmo na sua função, o que pode resultar em respostas inflamatórias.

Entenda melhor: O papel da microbiota nos transtornos mentais

No que tange a inflamação, pesquisas mostram que padrões crônicos de inflamação no organismo estão relacionados à prevalência, incidência e resposta ao tratamento de transtornos mentais. Em outras palavras, processos inflamatórios no organismo estão diretamente associados a sintomas de transtornos mentais, de forma que o aumento no consumo de ultraprocessados pode estar relacionado ao problema.

Além disso, o consumo de ultraprocessados também mexe com questões como o “comer emocional” e a “comida confortável”, hábitos que as pessoas criam para lidar com seu emocional através da comida. Isso acaba causando uma desregulação no eixo HPA (hipotálamo-hipófise-adrenal), que regula diversos hormônios relacionados ao estresse e ao apetite, como a noradrenalina e o cortisol.

Uma hiperatividade nesse eixo pode alterar o comportamento alimentício de forma que a pessoa acabe comendo mais, com mais frequência, e tendo preferência por alimentos hiper palatáveis e bastante energéticos, como é o caso dos alimentos ultraprocessados.

Por fim, os alimentos ultraprocessados também estão relacionados a alterações no ritmo circadiano, que por sua vez alteram outros fatores importantes para a manutenção da saúde mental, como os padrões de sono.

O que isso significa na prática para pacientes e famílias?

As consequências do consumo exagerado de alimentos ultraprocessados são claras: uma piora global na saúde física e mental. Sendo assim, pacientes e familiares devem estar atentos à alimentação como um todo, buscando manter um equilíbrio saudável no dia-a-dia.

É importante ressaltar que não se trata de uma relação causal. Neste sentido, ninguém desenvolve depressão só porque come biscoitos ou salgadinhos vez ou outra. Os transtornos mentais são multifatoriais e dependem de diversos outros fatores de risco para serem desenvolvidos.

A chave aqui é o equilíbrio na alimentação, de forma que os ultraprocessados não precisam ser completamente eliminados, mas não podem compor uma grande porcentagem da alimentação de uma pessoa.

Se uma pessoa já possui uma alimentação muito baseada em alimentos ultraprocessados, é importante ter em mente que mudanças alimentares devem ser feitas de forma gradual e com acompanhamento de um profissional da nutrição.

Isso porque mudanças abruptas na dieta podem causar efeitos colaterais indesejados, mas também porque mudanças bruscas em hábitos não tendem a ser duradouras. Cortar todos os alimentos ultraprocessados de uma vez pode causar muita frustração e fazer com que a pessoa desista de uma dieta mais saudável, por exemplo.

Então, de forma realista, é importante buscar um equilíbrio e ir adaptando a alimentação gradualmente.

Vale lembrar que, para pessoas que sofrem de transtornos mentais, mudar a dieta não é o suficiente para a remissão dos sintomas. É necessário continuar o tratamento com profissionais capacitados, pois a alimentação é apenas uma das estratégias de um plano de tratamento completo.

Embora o consumo de ultraprocessados esteja ligado a uma piora na saúde mental em muitos casos, é importante ressaltar que apenas uma alimentação saudável não substitui o tratamento com profissionais da saúde mental.

A alimentação é um pilar do tratamento junto com outros hábitos saudáveis, como a prática de exercícios físicos e a higiene do sono. No entanto, para tratar quadros de saúde mental, é importante buscar a ajuda de um profissional capacitado.

Referências

Lane, M. M. et al. (2024). Ultra-processed food consumption and multiple health outcomes: umbrella review of systematic reviews. BMJ, 384, e077310. doi:10.1136/bmj-2023-077310

Lane, M. M. et al. (2022). Ultra-Processed Food Consumption and Mental Health: A Systematic Review and Meta-Analysis of Observational Studies. Nutrients, 14(13), 2568. doi:10.3390/nu14132568

https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-brasil/eu-quero-me-alimentar-melhor/noticias/2021/in-natura-processados-ultraprocessados-conheca-os-tipos-de-alimento

https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2025-11/ultraprocessados-ja-sao-quase-um-quarto-da-alimentacao-dos-brasileiros

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