Vivemos em uma época de constante interação entre as pessoas, seja por meio das trocas de mensagens por mensageiros instantâneos ao longo dia ou pela convivência em diversos espaços como trabalho, escola, faculdade, entre outros.
No entanto, ao mesmo tempo, uma série de instituições internacionais, como a Organização Mundial da Saúde (OMS), tem dado alertas para uma crescente epidemia de solidão, tratando a questão da solidão como um problema de saúde pública.
Essas duas frases tão contraditórias são verdadeiras ao mesmo tempo: mesmo com a quantidade de interações sociais possíveis no dia-a-dia, as pessoas estão se sentindo cada vez mais solitárias, com uma grande sensação de vazio e desconexão.
Neste texto, vamos explicar o que é a solidão, como ela se manifesta (mesmo que estejamos cercados de gente), e de que forma as relações interpessoais contemporâneas alimentam esse sentimento.
O que é solidão?
O termo “solidão” pode ser definido como uma sensação subjetiva de estar só, desconectado das demais pessoas. O detalhe aqui está na subjetividade, o que indica que o estado interno de uma pessoa pode não estar em congruência com o que realmente acontece em sua vida.
Em outras palavras, uma pessoa pode se sentir solitária mesmo que esteja cercada de pessoas. Ela pode ter família, diversos amigos e colegas de trabalho, mas ainda assim se sentir só.
Isso ocorre quando as relações, ainda que presentes, não atendem às necessidades emocionais da pessoa. Mesmo que a pessoa esteja cercada de amigos, se ela não encontra acolhimento e pertencimento, ela pode acabar se sentindo só e desconectada das pessoas ao seu redor.
O contrário disso é o isolamento social, uma condição objetiva de afastamento das pessoas, das relações significativas e da rede de apoio. Quando uma pessoa se isola socialmente, ela passa a ter menos contato com seus familiares, amigos e outros grupos de convivência.
Nem sempre o isolamento social é sentido como solidão. Uma pessoa pode ter momentos de isolamento social em que não se sente só. Contudo, quando esse isolamento é prolongado, ele reduz as oportunidades de vínculo e conexão com as pessoas, diminuindo sentimentos de apoio, pertencimento e acolhimento. A partir daí, a pessoa pode passar a sentir solidão, estando de fato isolada.
Solidão ou solitude? Como diferenciar?
Enquanto a solidão fala sobre um sentimento de desconexão com outras pessoas, a solitude indica um sentimento de conexão mesmo quando se está sozinho em uma situação de fato.
Em outras palavras, mesmo que a pessoa não tenha uma companhia para determinados momentos, ela ainda sente que a conexão em suas relações está preservada.
Sendo assim, a solitude remete a momentos de curtir sua própria companhia, sabendo que sua família, suas amizades e sua rede de apoio estarão lá em momentos de necessidade.
Neste sentido, a solitude acaba sendo um hábito saudável e de autocuidado, permitindo que a pessoa tenha um tempo a sós para descansar, organizar os pensamentos e se dedicar a interesses pessoais.
Entenda melhor: Os benefícios de ficar sozinho
Evidências dos prejuízos da epidemia de solidão
A solidão tem ganhado um status de epidemia não por acaso: diversas instituições pesquisam o impacto da solidão na saúde física e mental e os resultados acabam trazendo algumas preocupações.
O relatório sobre conexão social publicado pela OMS em 2025 mostra alguns dados interessantes acerca dos impactos da solidão e da conexão social. Dentre estes dados estão:
- A solidão está associada a cerca de 100 mortes a cada hora;
- Entre as pessoas de 13 a 29 anos de idade, entre 17% e21% relatam sentimentos de solidão;
- As taxas mais altas de solidão aparecem nos adolescentes;
- Em países de alta renda, as taxas de solidão são de 11%, enquanto o número sobe para 24% em países de baixa renda;
- A solidão e o isolamento social ocorrem por diversas causas, como problemas de saúde, baixa renda e escolaridade, viver só, inadequações nas políticas públicas e infraestruturas comunitárias, além das tecnologias digitais.
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Segundo o relatório, a solidão e o isolamento social estão relacionados aos seguintes riscos:
- Doenças cardíacas;
- Acidente vascular cerebral (AVC);
- Diabetes;
- Declínio cognitivo;
- Morte prematura;
- Depressão;
- Ansiedade;
- Automutilação e ideação suicida.
Um outro documento publicado em 2023 pelo Surgeon General, parte do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos, também traz diversos alertas sobre a solidão e seus impactos na saúde física e mental. Dentre essas preocupações estão um aumento nos riscos de mortalidade, obesidade e sedentarismo, bem como doenças cardíacas, demências, depressão e suicídio.
Baseado em diversos estudos e meta-análises (um tipo de pesquisa que analisa diversos estudos sobre um mesmo assunto), o documento traz que as chances de sobrevivência de uma pessoa depois de um evento que traz risco (como acidentes, cirurgias complexas, doenças graves etc.) aumenta em 50% quando a pessoa tem uma boa conexão social.
Enquanto isso, pessoas que apresentam relacionamentos interpessoais ruins tem um risco de doenças cardiovasculares aumentado em 29%, bem como o risco de derrame aumenta em 32%.
Já no que tange a saúde mental e cognitiva, o documento traz que o risco de quadros demenciais aumentam em até 50% para pessoas que convivem com solidão e isolamento social crônicos. Pessoas com tendência a desenvolver quadros depressivos tem o risco duplicado devido à solidão, e o isolamento social é um dos maiores preditores de comportamento suicida.
O que todos esses estudos mostram é que a solidão, em especial quando crônica, acaba por ter diversos impactos na saúde geral, mostrando o vínculo social não é um luxo supérfluo, mas sim um fator de proteção necessário para nossa qualidade de vida e longevidade.
Saiba mais sobre este assunto: A relação entre interações sociais e o bem-estar

Como combater a solidão
Não existe uma solução única para o combate à solidão, considerando que se trata de um fenômeno multifatorial e que nem sempre esses fatores podem ser controlados individualmente.
Em outras palavras, não se trata de uma situação que basta ir ao médico e fazer um tratamento para conseguir resolver. Contudo, isso não significa que não é possível fazer a sua parte no combate à solidão.
Medidas sociais de combate à solidão
Em um nível macro, diversos dos documentos citados anteriormente entendem que a responsabilidade do combate à solidão é social e diversas instituições devem fazer a sua parte.
Uma das formas sociais citadas é a construção de uma melhor infraestrutura social, como por exemplo mais espaços públicos de convivência para além da escola e trabalho, como parques, bibliotecas, museus, entre outros.
Além disso, é interessante buscar melhorias nos espaços digitais, como requerer uma maior transparência em relação aos algoritmos e dados que as empresas de tecnologia manipulam para manter as pessoas gastando cada vez mais tempo em redes sociais e demais plataformas digitais.
Medidas individuais de combate à solidão
Já em um nível mais individual, também é possível combater a solidão de diversas formas. Sempre que uma pessoa se abre sobre sua solidão, é comum ouvir a sugestão de “sair mais” e “botar a cara no mundo”, como se isso fosse resolver o problema.
No entanto, conforme vimos neste texto, a solidão não está relacionada à quantidade de interações sociais, mas sim na qualidade das relações que a pessoa cultiva.
Sendo assim, “sair mais pro mundo” seria apenas um primeiro passo quando uma pessoa já se encontra em uma situação de isolamento social, o que nem sempre é o caso quando uma pessoa fala sobre sentir-se só.
Para além de aumentar a exposição a situações sociais, é também necessário compreender e trabalhar no porquê das relações não conseguirem satisfazer as necessidades emocionais da pessoa que se sente só. Isso pode ocorrer por diversos motivos, e para entender melhor isso é interessante buscar a ajuda de um profissional da saúde mental.
Na psicoterapia, a pessoa pode trabalhar crenças a respeito das relações interpessoais que podem estar bloqueando o caminho para a criação de conexões íntimas e genuínas, bem como ampliar as oportunidades reais de conexão e melhorar a qualidade das relações já existentes quando isso for possível.
Saiba mais: Teoria do apego: o que é e os 4 tipos
Estudos mostram que intervenções psicoterapêuticas tem um efeito positivo nos sentimentos de solidão. Uma meta-análise publicada em 2021 no periódico científico Clinical Psychology Review analisou 31 estudos sobre intervenções psicoterápicas e mostrou que existe uma redução nos sentimentos de solidão quando comparado a um grupo de controle (que não recebe psicoterapia). O impacto da psicoterapia variou de pequeno a médio em alguns estudos, mas a meta-análise como um todo considera que a psicoterapia é uma forma eficaz de combate à solidão.
Já uma outra meta-análise, publicada em 2021 no periódico Social Psychiatry and Psychiatric Epidemiology, analisou 58 estudos sobe a eficácia das intervenções psicoterapêuticas na conexão social. O que o estudo encontrou foi que as intervenções trouxeram uma melhora significativa no contato social e na percepção da qualidade das conexões sociais dos participantes.
Dentre as estratégias usadas, as mais eficazes foram capacitar adultos com habilidades para lidar com vieses de atribuição desadaptativos (ou seja, ajudar as pessoas a questionar ao quê atribuem a culpa da má qualidade das relações), bem como habilidades para lidar com tendências de evitação de situações sociais e as barreiras existentes no contato social.
Algumas ideias para trabalhar nas relações interpessoais:
- Assertividade: o que é? Como resolver conflitos com ela?
- Comunicação não-violenta (CNV): o que é, princípios e desafios
Dicas para o dia-a-dia
Sentimentos de solidão não surgem do vazio e alguns hábitos do dia-a-dia podem acabar aumentando esse sentimento, mas aqui vão algumas dicas para tentar diminuir isso:
- Estabelecer uma frequência de contato com amigos e familiares;
- Buscar estar presente quando amigos e familiares precisam de alguma ajuda, pois o apoio de uma rede de apoio é uma via de mão dupla;
- Durante situações sociais, evitar o celular e as redes sociais, buscando estar plenamente presente nas conversas e interações;
- Participar de um grupo local de atividades, como um clube do livro, uma prática esportiva, entre outros;
- Ser voluntário em organizações sem fins lucrativos.
Se você percebe que mesmo seguindo estas dicas, o sentimento de solidão ainda se faz muito presente, não esqueça de entrar em contato com um profissional da saúde mental.
Muitas vezes, existem algumas questões internas que pejudicam nossa percepção da qualidade das relações em que estamos, e nestes casos uma intervenção terapêutica pode ajudar.

Referências
Office of the Surgeon General (HHS). Our Epidemic of Loneliness and Isolation: The U.S. Surgeon General’s Advisory on the Healing Effects of Social Connection and Community. 2023.
Disponível em: https://www.hhs.gov/sites/default/files/surgeon-general-social-connection-advisory.pdf
OPAS/OMS. Conexão social é associada à melhoria da saúde e redução do risco de morte prematura. 2025.
Disponível em: https://www.paho.org/pt/noticias/30-6-2025-conexao-social-e-associada-melhoria-da-saude-e-reducao-do-risco-morte-prematura
Hickin N, Käll A, Shafran R, et al. The effectiveness of psychological interventions for loneliness: A systematic review and meta-analysis. Clinical Psychology Review. 2021;88:102066.
DOI: 10.1016/j.cpr.2021.102066
Lim MH, Eres R, Vasan S. Interventions to improve social connections: a systematic review and meta-analysis. Social Psychiatry and Psychiatric Epidemiology. 2022.
DOI: 10.1007/s00127-021-02191-w


