Com a advento da internet e das tecnologias da informação, a acessibilidade à informação tornou-se uma das grandes vitórias dos nossos tempos. Contudo, o acesso à desinformação é igualmente alarmante.
Em um mundo em que qualquer pessoa pode postar o que quiser nas redes sociais, não é raro que vejamos as pessoas falando de suas vivências com algum transtorno mental ou outras condições crônicas, gerando grande identificação em milhares de pessoas.
Neste sentido, muitas pessoas passaram a se identificar com as vivências de pessoas com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), chegando a suspeitar desse diagnóstico em si mesmas.
A identificação com vivências de outras pessoas já diagnosticadas não é um problema, mas é importante levar em consideração que, para que haja o diagnóstico, existe uma investigação bastante criteriosa.
Em outras palavras, não basta se identificar com os sintomas, mas também é necessário explorá-los cuidadosamente, considerando seu contexto de vida, padrões na manifestação de sintomas, início dos sintomas, entre outros.
Neste texto, vamos abordar como o autodiagnóstico a partir das redes sociais pode ser enganoso, levando a prejuízos maiores, bem como o que fazer em caso de suspeita de TDAH.
O boom do “eu me vi num vídeo”: o que há de útil e o que é enganoso
Hoje em dia, qualquer pessoa pode postar um vídeo na internet e falar sobre suas vivências com um determinado transtorno. É neste contexto que muitas pessoas acabam se identificando com sintomas do TDAH, ao se depararem com vídeos de pessoas diagnosticadas falando dos desafios que enfrentam no dia-a-dia por conta do transtorno.
Contudo, existem também vídeos que tentam simular testes de TDAH, citando algumas características do transtorno que nem sempre condizem com os critérios diagnósticos de fato, levando muitas pessoas a suspeitarem de TDAH quando seus sintomas podem estar relacionados a alguma outra questão subjacente.
Um estudo publicado em 2022 no periódico científico Canadian Journal of Psychiatry revela que, muitas vezes, as informações que circulam nesses vídeos curtos feitos por pessoas que não são profissionais da saúde mental são imprecisas ou até mesmo enganosas.
Os pesquisadores separaram os 100 vídeos mais populares sobre TDAH na plataforma TikTok no momento da pesquisa e analisaram o conteúdo destes vídeos, comparando com as informações oficiais a respeito do diagnóstico de TDAH. Cerca de 52% dos vídeos analisados foram classificados como enganosos ou contendo informações imprecisas, enquanto apenas 21% dos vídeos foram classificados como contendo informações precisas ou úteis.
Vale ressaltar que esses 100 vídeos selecionados acumulavam, juntos, centenas de milhões de visualizações, sendo um assunto bastante popular nas redes. Esse tipo de conteúdo pode ser benéfico no sentido de ajudar a reduzir estigmas acerca do transtorno, considerando que as informações repassadas sejam de qualidade, ou seja, estejam em conformidade com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) e com os achados científicos mais recentes.
Contudo, os vídeos mais populares, em sua maioria, acabavam por listar sintomas bastante genéricos e que podem ser resultado de uma série de outras questões, fazendo com que muitas pessoas se identificassem e suspeitassem ter TDAH sem que necessariamente essa suspeita fosse baseada em informações confiáveis.
Neste sentido, os vídeos mais servem para desinformar e acabam resultando em muitos “autodiagnósticos” errôneos.
Saiba mais: Diagnóstico do TDAH em adultos: por que é tão difícil?
Por que se autodiagnosticar é arriscado?
O autodiagnóstico em saúde mental pode parecer inofensivo, considerando que medicamentos psiquiátricos não podem ser comprados sem receita. No entanto, isso não é necessariamente verdade.
Quando se trata de saúde mental, existem muitos sintomas que são compartilhados entre diversos transtornos, sendo necessária uma investigação mais detalhada para conseguir fechar o diagnóstico correto. Não é raro que uma pessoa passe meses ou até anos em acompanhamento psiquiátrico antes de fechar um diagnóstico concreto.
Contudo, quando um paciente já chega no consultório com uma suspeita específica, ele tende a informar ao psiquiatra apenas aquilo que é compatível com a suspeita, muitas vezes deixando de lado outras informações importantes para realizar um diagnóstico detalhado e adequado.
O resultado disso é um atraso em diagnósticos diferenciais, ou seja, um atraso em identificar possíveis outros transtornos que podem explicar melhor os sintomas mencionados pelo paciente.
Isso é importante porque transtornos diferentes geralmente têm tratamentos diferentes, o que pode até mesmo ser perigoso em alguns casos. É o caso do transtorno afetivo bipolar que pode ser confundido com TDAH durante os episódios de mania, mas as medicações usadas para tratar o TDAH podem acentuar os episódios de mania e prejudicar ainda mais o paciente.
Vale ressaltar que sintomas semelhantes aos sintomas do TDAH podem ser causados por ansiedade, insônia, estresse, entre outros. Inclusive, pessoas que lidam com um estresse crônico frequentemente apresentam sintomas como esquecimento, inquietação, distração e dificuldade de planejamento, mas estes sintomas tendem a desaparecer quando o evento estressor é resolvido.
Um estudo publicado em 2018 no periódico científico American Journal of Psychiatry acompanhou adolescentes e jovens adultos que não foram diagnosticados com TDAH durante a infância e que acreditavam que poderiam ter esse diagnóstico. Participaram do estudo 236 pessoas entre 10 e 25 anos sem diagnóstico prévio de TDAH.
Os resultados expõem os riscos do autodiagnóstico: aproximadamente 95% dos indivíduos que inicialmente “passaram” em checklists de sintomas de TDAH não tiveram o diagnóstico confirmado após uma avaliação clínica mais detalhada.
Na realidade, os sintomas que essas pessoas apresentavam eram explicados por outras questões, como por exemplo variações normais de comportamento, uso de substâncias ou até mesmo outros transtornos mentais.
Saiba mais: Função executiva e os prejuízos nos transtornos mentais

O que é necessário para um diagnóstico adequado?
Os achados de pesquisas recentes ressaltam que somente uma avaliação profissional criteriosa consegue distinguir TDAH verdadeiro de outros problemas, especialmente em populações mais velhas (adolescentes e adultos).
Para além de constatar os sintomas vivenciados, é necessário investigar o contexto dos sintomas (se aparecem em contexto doméstico, interpessoal, profissional, acadêmico, entre outros), bem como o histórico psiquiátrico e histórico de vida do paciente.
Em relação ao histórico de vida, é importante investigar o início do aparecimento dos sintomas, o histórico de experiências traumáticas, bem como a relação entre o paciente e as pessoas com quem conviveu durante seu desenvolvimento.
O histórico psiquiátrico de outros familiares também pode ser de grande ajuda neste momento, considerando que o TDAH (e diversos outros transtornos mentais) possui um grande fator genético envolvido.
Saiba mais: Complexidade genética do TDAH
Idealmente, a investigação não conta apenas com o autorrelato do paciente. Em diversos casos, podem-se buscar informações também com familiares, instituições de ensino e outros profissionais da saúde.
O uso de ferramentas estruturadas, como entrevistas padronizadas de alta sensibilidade e especificidade aplicadas por um profissional capacitado, ajuda muito a aumentar a precisão do diagnóstico.
Para além de tudo isso, é necessário avaliar o prejuízo funcional dos sintomas. Em outras palavras, se a pessoa possui sintomas semelhantes ao TDAH mas não possui prejuízos significativos em seu dia-a-dia, conseguindo funcionar normalmente nos contextos familiar, social, profissional e acadêmico, então não faria sentido diagnosticá-la com um transtorno.
Caminho seguro: quando procurar ajuda e por onde começar?
Como dito anteriormente, só faz sentido o diagnóstico de um transtorno quando existe um prejuízo funcional. Isso quer dizer que a pessoa pode ter problemas nos seus relacionamentos, no seu cuidado consigo mesma, no trabalho ou escola, entre outros.
Portanto, se você percebe que sua vida está “caindo aos pedaços” por conta da desatenção, buscar ajuda é essencial. No entanto, se essa desatenção é só algo que ocorre ocasionalmente e causa umas boas risadas, talvez não haja necessidade de procurar ajuda.
A melhor maneira de começar a busca por um diagnóstico em caso de prejuízos reais é buscar um profissional da saúde mental como um médico psiquiatra ou psicólogo capacitado.
Esses profissionais saberão não apenas identificar a possibilidade de TDAH como também de outros transtornos mentais e outros problemas que podem estar causando prejuízos na sua vida, bem como ajudar a tratar essas questões para que você consiga recuperar a qualidade de vida, independente de ser um caso de TDAH ou não.

O TDAH pode trazer diversos transtornos na vida de quem não é diagnosticado e não está em tratamento. Contudo, antes de assumir que pode ser o seu caso por conta de informações que viu na internet, é imprescindível buscar uma avaliação adequada com um profissional da saúde mental!
Referências
Yeung, A. et al. (2022). TikTok and Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder: A Cross-Sectional Study of Social Media Content Quality. Canadian Journal of Psychiatry, 67(12): 899–906. DOI: 10.1177/07067437221082854.
Caye, A. et al. (2018). Late-Onset ADHD Reconsidered with Comprehensive Repeated Assessments Between Ages 10 and 25. American Journal of Psychiatry, 175(2): 140–149. DOI: 10.1176/appi.ajp.2017.17030298.


