Embora a depressão tenha diversos tratamentos efetivos consolidados, ainda há espaço para o surgimento de novas alternativas. Isso porque o tratamento atual pode não funcionar para todo mundo e, além disso, pode haver contraindicações em alguns casos.
Por isso, novas pesquisas são sempre bem vindas. Uma técnica que vem sendo estudada nas últimas décadas é a fototerapia, uma terapia que consiste em exposição à luz branca.
Anteriormente pesquisada apenas no âmbito da depressão sazonal, hoje em dia a fototerapia reúne uma quantidade considerável de evidências da sua eficácia em diversos quadros.
O que é fototerapia?
A fototerapia é um tratamento não farmacológico que consiste na exposição diária a luzes altas, geralmente na forma de uma caixa de luz fluorescente ou luzes de teto fluorescentes.
Estima-se que o efeito da fototerapia se dê pela luz estimular células ganglionares especializadas sensíveis à luz e que contém melanopsina, uma substância envolvida na regulação do ciclo circadiano (o relógio interno do organismo).
Desta forma, é liberado glutamato (o principal neurotransmissor excitatório do sistema nervoso central) no núcleo supraquiasmático, que é considerado o marcapasso circadiano do cérebro.
Não se sabe exatamente como a fototerapia atua na depressão em si, mas estima-se que sua eficácia se dá por conta desse mecanismo do ciclo circadiano.
A depressão frequentemente traz consigo sintomas de desregulação do ciclo circadiano, como padrão irregular de sono, alterações no ritmo da sociabilidade e alterações nas oscilações de humor circadianas.
É normal que o ciclo circadiano também mexa com o nosso humor, mas em pessoas com depressão essas mudanças parecem alteradas.
Atualmente, a fototerapia é um tratamento um pouco desconhecido, mas que tem um volume de evidências interessante para uma série de transtornos, não apenas a depressão sazonal.
Vale ressaltar que a fototerapia para tratamento de transtornos mentais é diferente da fototerapia para tratamento de condições da pele, que é feita com luz ultravioleta.
Indicações da fototerapia
Atualmente, a fototerapia tem indicação para a depressão sazonal. No entanto, sua eficácia também tem sido estudada para:
- Transtorno depressivo maior;
- Transtorno afetivo bipolar;
- Transtornos depressivos relacionados à gravidez (seja antes ou no pós-parto);
- Episódios de bulimia nervosa sazonais;
- Transtornos do sono relacionados ao ritmo circadiano.
Quais as evidências?
Uma meta-análise publicada em 2020 no periódico científico Psychiatric Research buscava compreender os efeitos da fototerapia em quadros de depressão que não eram sazonais.
Ao avaliar 23 artigos, os pesquisadores concluíram que, em comparação a grupos de controle (placebo), a fototerapia teve uma eficácia de leve a moderada na melhora dos sintomas depressivos.
Os artigos utilizados pelos pesquisadores foram testes clínicos que totalizaram 1120 participantes, em sua maioria mulheres, com uma média de idade entre 31 e 75 anos.
Os estudos também mostraram que a fototerapia tende a ter uma maior eficácia terapêutica quando aplicada como tratamento único pela manhã, durante menos de 60 minutos por dia, com uma luz branca brilhante.
Estima-se que a fototerapia administrada de manhã tem uma maior eficácia por conta do ciclo circadiano, que permite uma maior receptividade da luz durante esse momento.
Foram realizadas também pesquisas comparando o uso da fototerapia com uso da medicação. Um grupo recebeu fototerapia com luzes de 300 lux por 2 horas diárias junto com um comprimido placebo (comprimido sem princípio ativo, ou seja, sem efeito terapêutico), enquanto outro grupo recebeu doses de 20mg de fluoxetina junto com a exposição a uma luz mais branda (100 lux).
Este estudo percebeu que ambos os grupos apresentaram uma melhora equivalente, ou seja, mesmo o grupo que fez apenas fototerapia (com placebo) apresentou uma resposta equivalente ao grupo que usava antidepressivo.
Pesquisas realizadas na fase lútea do ciclo menstrual em pacientes com transtorno disfórico pré-menstrual (TDPM) também mostraram um bom resultado, com diminuição dos sintomas de humor e até mesmo em sintomas físicos.
Houveram também pesquisas relacionadas à gravidez, buscando identificar se a fototerapia seria um tratamento eficaz para a depressão tanto antes quanto após o parto, sendo uma alternativa mais segura aos antidepressivos.
Leia mais: Uso de antidepressivos na gravidez é seguro?
Os estudos são de pequena escala, mas ainda podem trazer esperança. Aparentemente, no caso de gestantes, os efeitos dependem da “dosagem”.
Uma pessoa foi submetida a 5 semanas de exposição à luz (7.000 lux) diariamente durante 60 minutos logo após acordar. Essa pessoa apresentou remissão total dos sintomas depressivos quando o tempo de exposição foi ajustado para 75 minutos.
Já outra pessoa acabou desenvolvendo sintomas de hipomania irritável (um tipo de hipomania com irritabilidade acentuada) quando submetida ao mesmo tratamento que a pessoa anterior.
Ao diminuir o tempo de exposição para 45 minutos, essa pessoa voltou a apresentar sintomas depressivos. Ao aumentar novamente o tempo para 50 minutos, essa pessoa respondeu ao tratamento com a diminuição dos sintomas depressivos, porém sem desenvolver sintomas de hipomania.
Por fim, a fototerapia também pode ser administrada junto com medicamentos antidepressivos, sendo um potencializador do tratamento.

Como é feita a fototerapia?
A fototerapia requer a exposição diária a uma determinada quantidade de luz. Para isso, é comum que o tratamento seja feito em casa, porém com equipamentos adequados, pois não é qualquer lâmpada que serve para esse tratamento.
Em geral, a fototerapia é feita com caixas de luz (também chamada pelo termo em inglês, lightbox) com um nível de cerca de 10.000 lux e que tenha a menor produção de raios ultravioleta possível.
Se você vai iniciar o tratamento com fototerapia, a caixa de luz deve seguir as recomendações prescritas pelo seu psiquiatra. O tempo de exposição também será indicado por ele, bem como o horário em que a exposição deve ser feita.
Geralmente, a recomendação é de que a exposição seja de cerca de 30 minutos, pela manhã, logo após acordar. Porém, essas orientações podem mudar conforme o quadro apresentado e a resposta do paciente ao longo do tempo, motivo pelo qual o acompanhamento profissional é necessário.
Vale ressaltar que a caixa de luz não pode ficar muito perto do rosto. Recomenda-se uma distância de entre 41cm e 61cm, mas esse número pode variar de acordo com as instruções do fabricante.
A fototerapia também deve ser realizada de olhos abertos, porém sem olhar diretamente para a luz.
Posso fazer fototerapia sem prescrição?
O fato da fototerapia ser feita com algo de fácil acesso (luzes), algumas pessoas podem se questionar se é possível conseguir os mesmos benefícios da fototerapia mesmo sem prescrição.
Contudo, vale ressaltar que os resultados aqui discutidos se referem a estudos feitos em ambientes controlados, usando equipamentos adequados que nem sempre são tão fáceis de achar.
Em outras palavras, não é qualquer lâmpada que vai ter esse efeito terapêutico, e usar lâmpadas normais para simular a fototerapia pode ser perigoso tanto por motivos da inadequação do equipamento quanto pelos efeitos colaterais e possíveis riscos.
Se você tem interesse em fazer fototerapia, é importante fazer nas condições certas. Por isso, converse com seu psiquiatra sobre a possibilidade antes de tentar qualquer coisa em casa.
Ainda que você não possa fazer a fototerapia em casa sem prescrição, é importante ressaltar que a exposição à luz natural é bastante pesquisada também, e há diversas evidências de que ela tem um bom efeito em sintomas depressivos.
Portanto, ajustar a rotina para tentar ter uma exposição maior à luz natural, especialmente durante a manhã, pode ser interessante, desde que haja o acompanhamento de um profissional e o tratamento farmacológico não seja interrompido repentinamente sem orientações médicas.
Comorbidades podem dificultar o tratamento
Geralmente, a presença de comorbidades pode dificultar o tratamento de transtornos, independente do tratamento prescrito. Com a fototerapia não é diferente.
Pesquisas mostram que pessoas que apresentam comorbidades como transtornos ansiosos e transtornos de personalidade não respondem tão bem à fototerapia.
Estima-se que essas comorbidades ajudem na manutenção dos sintomas depressivos, então um tratamento que é baseado na eliminação desses sintomas pode acabar não sendo tão eficaz.
Efeitos colaterais e riscos
Apesar da fototerapia ser um tratamento bastante seguro, ela ainda traz consigo alguns riscos.
A exposição exagerada dos olhos à luz pode influenciar no surgimento de doenças oculares, como a fotoconjuntivite e a fotoceratite.
Além disso, a exposição à luz azul suprime a produção de melatonina, um hormônio importante para o ciclo circadiano e para o sono. Por isso, é importante prestar atenção ao horário de exposição à luz, pois a exposição à luz azul durante a noite pode prejudicar o sono.
Vale ressaltar que as lâmpadas usadas na fototerapia atualmente costumam filtrar a luz ultravioleta, de forma a evitar os efeitos da exposição a esse tipo de luz. No entanto, se a pessoa faz o uso de medicamentos que podem aumentar a sensibilidade à luz, ainda é necessário tomar precauções, bem como se a pessoa já tiver problemas oculares.
Em pessoas com transtorno afetivo bipolar, o tratamento com luzes pode induzir episódios de mania ou hipomania, bem como causar ansiedade. É importante, nestes casos, estar em dia com o tratamento farmacológico incluindo estabilizadores de humor.
Outros efeitos colaterais um pouco mais toleráveis são dores de cabeça, irritação ocular e náusea.

Embora a fototerapia não seja a primeira opção de tratamento em muitos casos, ela pode ser uma opção interessante dependendo do quadro apresentado. Se você tem interesse em tentar a fototerapia, lembre-se de conversar com seu psiquiatra sobre!
Referências
Tao, L., Jiang, R., Zhang, K., Qian, Z., Chen, P., Lü, Y. & Yao, Y. (2020). Light therapy in non-seasonal depression: An update meta-analysis. Psychiatry Research, 291: 113247-10. DOI: 10.1016/j.psychres.2020.113247
Terman, M. & Terman, Jiuan, S. (2014). Light Therapy for Seasonal and Nonseasonal Depression: Efficacy, Protocol, Safety, and Side Effects. CNS Spectrums, 8(10): 647-663. DOI: 10.1017/S1092852900019611
https://www.mayoclinic.org/diseases-conditions/seasonal-affective-disorder/in-depth/seasonal-affective-disorder-treatment/art-20048298
https://www.health.harvard.edu/blog/light-therapy-not-just-for-seasonal-depression-202210282840


