Anosognosia: quando o cérebro esconde a verdade sobre a própria doença

Confundida com negação e teimosia, a anosognosia pode prejudicar o tratamento de diversos transtornos. Entenda!

Imagine esta cena em um consultório médico: o profissional pede a um paciente recém-recuperado de um Acidente Vascular Cerebral (AVC) que levante os dois braços.

O braço direito se ergue normalmente, mas o esquerdo permanece completamente imóvel, paralisado ao lado do corpo devido a uma hemiplegia (paralisia de um lado do corpo).

Quando o médico aponta para o membro estático e pergunta o que há de errado, o homem sorri, genuinamente confuso com a preocupação alheia, e responde: “Está tudo bem, doutor. Eu já levantei os dois, não está vendo? Meus braços estão ótimos”.

Isso é o que ocorre com pacientes com anosognosia, uma condição na qual o paciente não consegue reconhecer o que há de errado em sua saúde.

O entendimento dessa condição veio em 1914, quando o neurologista Joseph Babinski observava pacientes que, exatamente como o caso fictício acima, insistiam que seus lados paralisados funcionavam perfeitamente. O neurologista então percebeu que aquela desconexão com a realidade não era fruto de demência global ou mera negação.

Foi ele quem cunhou o termo “anosognosia”, categorizando formalmente a condição pela primeira vez na literatura médica.

Babinski documentou que esses pacientes mantinham o intelecto e o raciocínio lógico preservados para quase tudo, exceto para perceber a sua própria paralisia. Com isso, ele abriu as portas para o estudo científico de como o nosso cérebro constrói a percepção do próprio corpo e de nossa integridade física.

Neste texto, vamos falar sobre o que é anosognosia, bem como compreender como ela surge, seus sintomas e se há algum tratamento possível para a condição.

O que é anosognosia?

Anosognosia é uma condição neurológica na qual o cérebro da pessoa não consegue reconhecer os problemas de saúde que a pessoa enfrenta. É como se a pessoa perdesse a noção de que seus sintomas são sintomas de fato, entendendo seu funcionamento como normal, ainda que tenha muitas limitações por conta das doenças ou condições que enfrenta.

A condição é bastante comum em transtornos neurodegenerativos, como mal de Alzheimer e demências, mas também pode ocorrer em casos de lesão cerebral e até em transtornos psiquiátricos como a esquizofrenia.

Não se trata de uma condição perigosa por si só, mas ela faz com que a pessoa seja muito mais propensa a evitar buscar tratamento e resistir aos tratamentos que já foram prescritos.

A anosognosia está dentro das agnosias, condições neurológicas nas quais o cérebro não consegue reconhecer ou processar o que os sentidos da pessoa estão captando.

Embora pareça rara, essa condição é mais comum do que se pensa. As estimativas são de que mais de 80% das pessoas com mal de Alzheimer tenham anosognosia, e essa porcentagem varia entre 50% e 98% nos casos de esquizofrenia.

Também estima-se que a anosognosia esteja presente em cerca de 40% das pessoas diagnosticadas com transtorno afetivo bipolar, especialmente nos episódios de mania. Ela também pode estar presente em casos de hemiplegia (paralisia em apenas um lado do corpo) após um derrame, afetando de 10 a 18% dos pacientes.

Como ocorre a anosognosia?

O cérebro entende o que ocorre com o nosso corpo através de uma espécie de “imagem mental” do nosso organismo.

Quando uma pessoa acaba se ferindo, por exemplo, essa imagem mental do organismo é atualizada, de forma que o cérebro entende que há uma ferida aberta no corpo. À medida em que a ferida vai se curando, o cérebro continua atualizando essa imagem mental para refletir o estado atual do corpo e do organismo como um todo.

Em casos de anosognosia, a pessoa apresenta prejuízos no funcionamento das partes do cérebro responsáveis por essa imagem mental, como o lobo parietal direito e o córtex pré-frontal. Dessa forma, o cérebro não registra as atualizações do organismo, podendo não reconhecer mudanças e sintomas.

Anosognosia e negação: qual a diferença?

Trata-se de uma condição diferente da negação, que consiste na negação dos sintomas e do problema porque admitir a verdade seria muito doloroso.

No entanto, na negação, a pessoa reconhece que existem sintomas e que eles causam prejuízos significativos.

No caso da anosognosia, por uma questão neurológica, a pessoa nem entende o fato de que está apresentando sintomas.

A título de comparação, podemos imaginar uma pessoa com uma deficiência auditiva. Embora ela possa perceber a vibração das ondas sonoras no ar, seu cérebro não processa o estímulo sonoro.

Isso é fundamentalmente diferente da negação, que é um mecanismo de defesa para evitar sentimentos angustiantes ao encarar a realidade.

No exemplo da deficiência auditiva, uma pessoa em negação poderia simplesmente não aceitar o que está ouvindo, mas ainda tem sua audição dentro dos padrões esperados.

Sintomas da anosognosia

Num geral, os sintomas da anosognosia se resumem à dificuldade da pessoa em reconhecer seus sintomas.

Isso pode ser visto na maneira que a pessoa se comporta (tentando fazer alguma coisa que não consegue por conta dos sintomas, por exemplo), ou pelo que ela mesma fala (dizendo que não tem problemas para fazer algo, quando claramente tem).

É frequente que a pessoa com anosognosia perceba limitações, mas acaba racionalizando a situação buscando outras explicações para essas limitações. Há também casos em que a pessoa consegue reconhecer alguns sintomas, mas não outros.

Em geral, pessoas com anosognosia não conseguem:

  • Reconhecer que têm uma doença ou um problema médico;
  • Reconhecer os sinais e sintomas de alguma condição de saúde;
  • Conectar os sinais e sintomas que sentem a condições médicas;
  • Entender e concordar que sofre de uma condição séria e que precisa de tratamento.

O que causa anosognosia?

Hoje em dia, entende-se que a anosognosia pode ocorrer por muitas razões diferentes, mas todas elas se encaixam em duas categorias: lesão cerebral ou doenças degenerativas.

Lesões cerebrais

Assim como qualquer outra parte do corpo, o cérebro também pode sofrer lesões. Essas lesões podem ocorrer por diversos motivos, desde acidentes que machucam o cérebro de fato, até lesões que surgem em decorrência de outros problemas de saúde.

Alguns problemas de saúde que podem causar lesões cerebrais são:

  • Aneurismas;
  • Tumores cerebrais;
  • Concussões;
  • Hipóxia cerebral (falta de oxigênio no cérebro);
  • Infecções no cérebro (encefalites);
  • Convulsões e epilepsia;
  • Apneia do sono;
  • Acidente vascular cerebral (AVC), também chamado de derrame;
  • Exposição a toxinas, como o monóxido de carbono.

Doenças degenerativas

As doenças degenerativas são aquelas que podem prejudicar as conexões no cérebro, o que pode eventualmente levar à anosognosia.

Algumas condições que podem levar a isso são:

  • Mal de Alzheimer;
  • Demência;
  • Doença de Huntington;
  • Transtorno afetivo bipolar;
  • Esquizofrenia.

Como é feito o diagnóstico da anosognosia?

O diagnóstico da anosognosia pode ser desafiador, uma vez que o médico precisa ter o conhecimento de que a pessoa tem alguma outra doença.

Isso porque, se a pessoa com anosognosia vai ao médico, ela tende a dizer que está tudo bem, que não está com sintomas estranhos e nem reconhece nenhuma mudança em seu dia-a-dia, ainda que os efeitos da doença sejam evidentes.

Para diagnosticar a anosognosia, o médico deve ver sinais de que o paciente não reconhece sua condição. Se a pessoa não tem um diagnóstico prévio ou sua condição não é claramente visível, pode ser difícil realizar esse diagnóstico.

Não é raro que pacientes com anosognosia acabem racionalizando e encontrem outros motivos para explicar as dificuldades que encontram no dia-a-dia por conta dos sintomas.

Por conta disso, geralmente o diagnóstico de anosognosia só é fechado depois de uma combinação de exames, como:

  • Exames físicos e neurológicos;
  • Exames de imagem, como tomografia computadorizada, eletroencefalograma e ressonância magnética;
  • Compreensão do histórico de vida e de saúde da pessoa.

Tratamento da anosognosia

Não existe cura para a anosognosia, e seu tratamento é bastante desafiador, pois depende da causa da condição.

Se a anosognosia foi causada por uma lesão cerebral, é possível tratar com a reabilitação neuropsicológica. Os exercícios de reabilitação podem ajudar a restaurar as conexões que levaram à anosognosia, mas não é uma garantia.

No entanto, quando ocorre por conta de doenças degenerativas, o tratamento da anosognosia não é possível. Contudo, existem programas de tratamento e terapia que buscam melhorar a qualidade de vida de uma pessoa com essa condição, ainda que a condição em si não seja tratada.

Não existem medicamentos para o tratamento da anosognosia. Contudo, a pessoa pode fazer o uso de medicamentos para tratar as condições adjacentes à anosognosia, como medicamentos antipsicóticos e estabilizadores de humor.

Consequências da anosognosia

A anosognosia é uma condição desafiadora, pois pode prejudicar a adesão ao tratamento de transtornos adjacentes. Dessa forma, os problemas de saúde adjacentes podem piorar com o tempo.

Amigos e familiares de uma pessoa com anosognosia podem sofrer grandes desgastes emocionais, pois a preocupação com a saúde da pessoa e as tentativas de ajudar a pessoa a manter o tratamento em dia podem causar grande frustração com frequência.

Embora a anosognosia possa ser confundida com negação e teimosia, é importante lembrar que se trata de uma condição real que pode causar diversos prejuízos ao paciente e às pessoas que com ele convivem.

Se você convive com uma pessoa com anosognosia, é importante compreender a condição e auxiliar a pessoa nas adaptações necessárias no estilo de vida para manter os tratamentos em dia.

Já se você já foi diagnosticado com transtornos mentais anteriormente, mas não consegue reconhecer os sintomas, não hesite em buscar ajuda com um profissional da saúde mental!

Referências

Satler, C., & Tomaz, C.. (2013). Cognitive anosognosia and behavioral changes in probable Alzheimer’s disease patients. Dementia & Neuropsychologia, 7(2), 197–205. https://doi.org/10.1590/S1980-57642013DN70200010

Acharya AB, Sánchez-Manso JC. Anosognosia. [Updated 2023 Apr 24]. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2026 Jan-. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK513361/

K. M. Heilman, A. M. Barrett, J. C. Adair; Possible mechanisms of anosognosia: a defect in self–awareness. Philos Trans R Soc Lond B Biol Sci 29 November 1998; 353 (1377): 1903–1909. https://doi.org/10.1098/rstb.1998.0342

https://g1.globo.com/bemestar/blog/longevidade-modo-de-usar/post/2018/04/03/anosognosia-a-falta-de-consciencia-sobre-a-propria-doenca.ghtml

https://my.clevelandclinic.org/health/diseases/22832-anosognosia

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