Pseudoalucinações: o que são e por que importam para a saúde mental

Fenômenos perceptivos não se encaixam nas definições clássicas de alucinação, mas podem ser prejudiciais para a saúde mental. Entenda!

Em diferentes momentos da vida, muitas pessoas relatam experiências perceptivas incomuns que desafiam a compreensão. Algumas afirmam ter ouvido o próprio nome ser chamado quando estavam sozinhas; outras descrevem uma sensação veloz de ver alguém passar pelo canto dos olhos ou de perceber uma presença em um ambiente vazio.

Em determinadas circunstâncias, como durante períodos de intenso estresse, privação de sono, luto ou isolamento prolongado, essas vivências podem ocorrer sem que representem, necessariamente, um transtorno mental ou uma perda do contato com a realidade.

Embora frequentemente despertem receios e interpretações de natureza sobrenatural, essas experiências são objeto de investigação científica há décadas, em especial nos campos da psiquiatria e das neurociências.

Nestas áreas, há uma busca por compreender como o cérebro constrói a experiência perceptiva e por que, em algumas situações, determinadas sensações podem surgir mesmo na ausência de um estímulo externo.

Essas pesquisas demonstram que a percepção humana é um processo complexo, influenciado não apenas pelos sentidos, mas também pela memória, pelas emoções, pelas expectativas e pelo contexto em que o indivíduo está inserido.

É nesse contexto que se insere o estudo das pseudoalucinações, um fenômeno perceptivo complexo que sofreu diversas reformulações em sua definição e que até hoje pode trazer confusão tanto para leigos quanto para profissionais da área.

O que é pseudoalucinação?

Ao longo do tempo, o termo “pseudoalucinação” chegou a significar muitas coisas, como a percepção errônea de um estímulo real, o efeito colateral de algumas substâncias, alucinações causadas por alterações orgânicas ou até mesmo episódios de alucinações que não se encaixam nos critérios diagnósticos dos transtornos conhecidos.

Hoje em dia, ainda não existe um consenso acerca deste termo, mas entende-se que as pseudoalucinações são experiências perceptivas que não estão atreladas a um estímulo real e que não se encaixam perfeitamente na definição de alucinação.

Uma das possibilidades de entendimento do termo é a de que pseudoalucinação seria uma percepção sem conexão a um estímulo real, mas que não é vivenciada como uma percepção externa a si. Em outras palavras, a pessoa “vê com os olhos da mente” ou “ouve com o ouvido interno”. Porém, nestes casos, assim como nas alucinações verdadeiras, a pessoa interpreta essas percepções como reais.

Outra maneira de entender as pseudoalucinações seria a presença de percepções não atreladas a um estímulo externo, mas que a pessoa consegue entender que não se trata de uma percepção real.

As alucinações verdadeiras são caracterizadas pela convicção de que o que está sendo percebido é objetivamente real e está acontecendo fora do indivíduo, como uma voz que vem do outro lado da rua ou uma imagem que está na visão periférica. Essa definição surgiu no século XIX e, logo em seguida, iniciou-se um debate acerca de experiências parecidas com alucinações, mas que não se encaixavam totalmente nessa definição.

O debate era bastante complexo nos meados do século XIX justamente porque haviam muitos autores que acreditavam que a presença de alucinações era incompatível com a preservação do juízo crítico, que permitiria a possibilidade de reconhecer que a experiência perceptiva não era condizente com a realidade.

Já no século XX, o debate começou a pensar nas pseudoalucinações como fenômenos completamente internos como imagens mentais vívidas. No entanto, essa ideia produz equívocos a respeito do controle que as pessoas têm acerca dessas percepções, visto que, tradicionalmente, a definição das pseudoalucinações entende que elas são involuntárias, assim como as alucinações verdadeiras.

O que causa pseudoalucinações

As pseudoalucinações podem ocorrer em diversos contexto diferentes e nem sempre elas estão atreladas a um quadro de transtorno mental. Alguns exemplos de situações nas quais ocorrem pseudoalucinações são:

Estresse e ansiedade

Situações que geram grande estresse e ansiedade podem gerar o fenômeno conhecido como pseudoalucinação. Um exemplo de uma situação assim é um luto patológico no qual, após a perda de um ente querido, a pessoa passa a escutar a voz de quem se foi em momentos aleatórios do dia.

Uso de substâncias

O uso de substâncias psicoativas como álcool também pode gerar pseudoalucinações. O fenômeno é mais comum com substâncias descritas como alucinógenas, mas pode ocorrer com diversas outras substâncias.

Transtornos mentais

Transtornos mentais como ansiedade, depressão, transtorno bipolar, transtornos de personalidade e transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) são conhecidos por estarem associados a presença de pseudoalucinações vez ou outra.

As pseudoalucinações são bastante comuns em transtornos dissociativos e transtornos de personalidade, porém também ocorre com frequência em transtornos psicóticos (nos quais ocorrem também alucinações verdadeiras).

Um transtorno em que as pseudoalucinações ganham um certo destaque é o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), no qual é possível a presença de pseudoalucinações obsessivas em casos mais severos.

Pseudoalucinação ou alucinação: o que é mais grave?

O termo “pseudoalucinação” dá a entender que se trata de uma alucinação falsa e, portanto, menos grave do que uma alucinação real.

No entanto, o que define a severidade de um episódio desses não é se é uma alucinação real ou não, mas sim o conteúdo dessa percepção e o impacto emocional e funcional que a pessoa sofre devido a essa experiência sensorial.

Mesmo uma pessoa que vivencia apenas pseudoalucinações pode acabar ficando bastante debilitada, como num caso de uma pessoa que ouve, com seu “ouvido interno”, vozes que a xingam e dizem coisas horríveis o tempo todo.

O nível de sofrimento causado pelas alucinações e pseudoalucinações é completamente subjetivo e não é possível determinar a gravidade de um quadro apenas pela ausência de alucinações verdadeiras.

Alucinose: um outro tipo de pseudoalucinação?

Outro termo importante no que tange essas experiências perceptivas é o termo alucinose, que pode ser entendido como uma percepção desprovida de estímulo externo, mas na qual há um juízo crítico, ou seja, a pessoa sabe que essa percepção não é real.

Essa definição é muito parecida com uma das possíveis definições do termo pseudoalucinação ao longo tempo, embora existam autores e profissionais que prefiram separar os termos.

Toda pseudoalucinação é patológica?

Um outro fator chave na compreensão das pseudoalucinações é que nem todo caso é indicativo de uma patologia. Como dito anteriormente, as pseudoalucinações podem surgir em contextos como momentos de grande ansiedade e estresse, sendo apenas um fenômeno autolimitado àquele momento.

No entanto, se a pessoa percebe que está lidando com pseudoalucinações com frequência ou que elas persistem mesmo quando as situações estressantes ou ansiosas passam, pode ser interessante buscar ajuda com um profissional da saúde mental.

Tratamento das pseudoalucinações

O tratamento de quadros com pseudoalucinações vai depender de diversos fatores, mas o principal é a presença de algum transtorno mental diagnosticado.

Se a pessoa já tem um diagnóstico prévio de algum transtorno de humor, de ansiedade, de personalidade ou transtorno dissociativo, o tratamento para as pseudoalucinações pode seguir sendo o mesmo tratamento usado para estes transtornos. Eventualmente, o médico pode receitar também o uso de antipsicóticos, caso o tratamento em curso não tenha efeito nas pseudoalucinações.

Já se a pessoa sofre de um transtorno psicótico, é provável que o tratamento seja feito com o uso de antipsicóticos que já devem diminuir consideravelmente a frequência e intensidade tanto de alucinações verdadeiras quanto de pseudoalucinações. No entanto, se necessário, o psiquiatra pode receitar outras medicações para tentar aliviar as pseudoalucinações, especialmente se houverem comorbidades como transtornos de humor, ansiedade ou traumas.

Apesar das diversas ressignificações do termo ao longo do tempo, a verdade é que as pseudoalucinações são um fenômeno real e que requerem atenção, principalmente quando a pessoa percebe estar sofrendo algum prejuízo em seu dia-a-dia.

Se você se identificou com o que foi descrito neste texto, não hesite em buscar ajuda com um profissional da saúde mental!

Referências

https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/10401237251380501

https://www.thelancet.com/journals/lanpsy/article/PIIS2215-0366(19)30517-6/fulltext

https://www.jpsychopathol.it/article/view/570

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