Intolerância à incerteza: por que não saber pode causar tanta ansiedade?

É normal sentir uma ansiedade diante das incertezas, mas isso pode ser um problema se prejudicar o funcionamento. Entenda!
Uma mulher sentada em um puff em um lar acolhedor, com o rosto coberto, transmitindo uma sensação de ansiedade e preocupação.

Vivemos em um mundo cheio de incertezas. As coisas mudam rapidamente, situações podem ocorrer de formas imprevistas, e muitas vezes precisamos improvisar e lidar com resultados que não previmos anteriormente.

Sendo assim, é normal que tentemos buscar respostas e garantias para muitas situações. No entanto, para algumas pessoas, essa incerteza gera uma angústia intensa, de forma a prejudicar seu funcionamento.

É o caso das pessoas que não conseguem fazer outras coisas enquanto estão aguardando uma resposta, ou tem muita dificuldade em fazer uma escolha diante de opções sem garantias, ou até mesmo acabam revisando mensagens de forma frequente buscando alguma informação que dê mais sensação de segurança.

Todas essas são situações cotidianas que, em geral, não deveriam causar um prejuízo funcional tão grande. É nestes casos que falamos de intolerância à incerteza.

Neste texto, vamos falar sobre esse conceito, como ele se relaciona com transtornos mentais e de que forma é possível lidar com essa questão.

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O que é intolerância à incerteza?

O termo intolerância à incerteza é definido como um conjunto de reações emocionais, pensamentos e comportamentos negativos diante de situações em que não há previsão dos resultados.

Em outras palavras, a pessoa tem uma reação emocional muito intensa diante da incerteza, mesmo quando se trata de incertezas comuns do dia-a-dia.

Nesses casos, a pessoa pode acabar interpretando a própria incerteza e dúvida como uma ameaça, o que pode levar a sentimentos ansiosos. Assim, seu funcionamento fica prejudicado: ela pode ter dificuldades de concentração, incapacidade de iniciar ou se manter em alguma tarefa não relacionada à situação incerta, entre outros.

É claro que, dependendo do contexto, a incerteza pode ser bastante angustiante. No entanto, nos casos de intolerância à incerteza, não é como se a pessoa só tivesse pressa para em saber o resultado final, mas ela realmente não consegue seguir em frente e fazer outras coisas enquanto está esperando que a situação se resolva.

A intolerância à incerteza aparece em diferentes formas de sofrimento

A intolerância à incerteza não é um transtorno mental em si e nem sempre indica que a pessoa tem um transtorno mental, podendo ser uma condição temporária devido ao contexto em que a pessoa está inserida.

No entanto, diversos estudos indicam que a intolerância à incerteza está associada a diferentes formas de sofrimento, aparecendo com frequência em pessoas que lidam com transtornos mentais.

Uma pesquisa publicada no periódico científico Clinical Psychology Review em 2019 analisou 181 estudos sobre a presença da intolerância à certeza em uma série de diagnósticos diferentes.

Os autores usaram o termo transdiagnóstico, que significa uma condição que pode estar presente em mais de um transtorno, sem ser um sintoma exclusivo ou suficiente para explicar qualquer transtorno. Para eles, a intolerância à incerteza seria um fator transdiagnóstico.

A pesquisa buscou identificar a presença da intolerância à incerteza em transtornos como transtorno de ansiedade generalizada (TAG), transtorno de ansiedade social, síndrome do pânico (com ou sem agorafobia), transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), transtornos depressivos e transtornos alimentares.

O que a pesquisa revelou é que a intolerância à incerteza estava associada de forma moderada a esses transtornos, ainda que de forma heterogênea (ou seja, não se apresenta da mesma forma e intensidade em todos os casos).

Porém, vale lembrar que o que os estudos mostram é apenas uma correlação, não sendo algo que explica o surgimento de transtornos mentais. Em outras palavras, não há evidências de que a intolerância à incerteza causa transtornos mentais, apenas que ela costuma aparecer com frequência em indivíduos que lidam com algum transtorno.

Mulher caucasiana em traje casual deitada em um chão branco, imersa em pensamentos.

A busca por certezas e a regulação emocional

Já uma outra pesquisa, também publicada no Clinical Psychology Review, em 2023, analisou 91 estudos, com um total de 30.239 participantes, buscando entender a relação entre a intolerância à incerteza e a regulação emocional.

O termo regulação emocional se refere à capacidade que temos de reconhecer, compreender e lidar com nossas próprias emoções no dia-a-dia. Em outras palavras, é como conseguimos amenizar emoções mais intensas, permitindo que elas sejam expressas de forma adequada e equilibrada, evitando agir por impulso no calor da emoção.

O que a pesquisa demonstrou é que existe uma associação entre a intolerância à incerteza e estratégias desadaptativas de regulação emocional. Estratégias desadaptativas são estratégias que têm o potencial de causar prejuízos ao invés de resolver a situação de fato.

Em termos simples, quanto mais a pessoa não tolera incertezas, mais ela tende a empregar estratégias desadaptativas para se regular emocionalmente, e vice-versa.

Já pessoas com estratégias adaptativas de regulação emocional (ou seja, estratégias que funcionam a longo prazo e não causam prejuízos) tendem a apresentar níveis menores de intolerância à incerteza.

No que tange as estratégias em si, a pesquisa percebeu que a principal estratégia desadaptativa utilizada por aqueles com maiores níveis de intolerância à incerteza é a evitação cognitiva. Essa estratégia consiste em buscar o afastamento ou repressão de pensamentos e sentimentos negativos, em especial em relação às situações de incerteza.

Um exemplo de evitação cognitiva seria, diante de um sentimento ruim, buscar se distrair dele ao invés de tentar expressá-lo e processá-lo adequadamente.

Quando uma pessoa com alta intolerância à incerteza usa dessa estratégia, ela pode acabar tentando “fugir” de situações que causam incerteza, ou de encarar a sua responsabilidade nessas situações. Por exemplo, se uma pessoa com alta intolerância à incerteza está buscando um emprego, a incerteza acerca da resposta dos recrutadores pode gerar muita angústia e, para lidar com esse sentimento, a pessoa pára de procurar emprego.

Neste sentido, pode-se pensar também na busca pela certeza como uma estratégia desadaptativa de regulação emocional. Em outras palavras, a pessoa busca certezas como uma forma de lidar com os sentimentos negativos diante de uma situação incerta, o que por sua vez acaba causando ainda mais angústia, uma vez que nem sempre é possível ter garantias e certezas nas situações.

Resolver problemas concretos vs. intolerância à incerteza

Quando falamos sobre intolerância à incerteza, pode surgir a ideia de que tentar sanar qualquer dúvida seria uma manifestação dessa intolerância. Felizmente, não é bem assim.

Eliminar incertezas tem uma função prática em nossas vidas, e por isso tendemos a dar bastante atenção a isso. Afinal de contas, dependendo do contexto, a incerteza pode sim indicar uma situação ameaçadora, como por exemplo a incerteza sobre ter o que comer mais tarde, situação que era cotidiana para nossos ancestrais.

Então, em alguns contextos, a busca por eliminar incertezas é importante e adaptativa, como por exemplo ao fazer uma revisão de um trabalho depois de pronto para ter certeza que não se esqueceu nada.

Neste sentido, estamos trabalhando para resolver um problema concreto, ou seja, uma situação real em que a certeza é uma necessidade.

No entanto, quando se trata de intolerância à incerteza, a ânsia para eliminar incertezas é muito mais generalizada e desadaptativa, fazendo com que a pessoa tenha prejuízos funcionais.

No mesmo contexto de revisão de um trabalho, uma pessoa com alta intolerância à incerteza pode revisar o trabalho indefinidamente, sempre sentindo que precisa revisar de novo para ter total segurança de que o trabalho está pronto de fato.

Contudo, nem sempre a certeza é possível, e essa busca incessante só aumenta a sensação de angústia. Voltando ao exemplo do trabalho a ser entregue: por melhor que seja nossa revisão, não temos como ter certeza que o trabalho vai ser aprovado, e a única forma de resolver esse problema é realmente entregando o trabalho para que ele seja aprovado, reprovado ou devolvido com alterações.

Leia também: O lado oculto do perfeccionismo: quando a busca pelo ideal causa sofrimento

A psicoterapia pode ajudar com a intolerância à incerteza?

Como a intolerância à incerteza não é um diagnóstico próprio, não existe um tratamento específico para o problema. No entanto, ao que tudo indica, a psicoterapia pode ajudar.

Um estudo publicado no Journal of Anxiety Disorders em 2023 mostra que abordar a intolerância à incerteza como um objetivo do tratamento traz resultados positivos, como a diminuição da intolerância e sintomas associados (sentimentos ansiosos, sintomas depressivos e sentimentos exagerados de preocupação). A pesquisa contou com 26 estudos, totalizando 1.199 participantes, e trabalhou com pessoas diagnosticadas com transtorno de ansiedade generalizada (TAG).

Já uma outra pesquisa publicada em 2024 no Clinical Psychology & Psychotherapy traz algumas ressalvas. Apesar de resultados positivos em diversos dos estudos avaliados, em geral, a revisão encontrou pouca diferença entre pessoas que recebiam uma terapia focada na intolerância à incerteza e pessoas que recebiam algum outro tipo de psicoterapia.

Sendo assim, os estudos que avaliam a eficácia de intervenções psicoterapêuticas focadas na intolerância à incerteza são inconclusivos. Porém, de modo geral, outras psicoterapias já bem estabelecidas tendem a trazer resultados promissores.

Saiba mais: Terapia Cognitivo-Comportamental para ansiedade

Como lidar com a incerteza?

Lidar com incertezas pode ser desafiador até mesmo para pessoas que não sofrem de intolerância à incerteza. Como discutido previamente, há momentos em que a busca por certezas pode ser necessária e adaptativa.

No entanto, quando este não é o caso e mesmo assim a incerteza causa uma angústia muito intensa, há de se pensar em formas para lidar com a incerteza.

Um breve exercício para tentar lidar melhor com incertezas é o seguinte:

  • Você vai questionar 3 coisas acerca da situação:
    • O que você já sabe sobre a situação;
    • Qual informação ainda pode ser obtida nesse momento (e a sua responsabilidade nisso);
    • Qual parcela de incerteza ainda vai permanecer?

Por exemplo, se você está esperando pelo resultado de uma entrevista de emprego, você pode pensar sobre o que você sabe sobre esse resultado: quando os recrutadores disseram que vão entrar em contato, por qual meio de comunicação etc.

Já em relação à informação que pode ser obtida nesse momento, no caso de um processo de recrutamento, geralmente não há novas informações durante vários dias enquanto outros candidatos estão sendo entrevistados. Sendo assim, você pode tentar focar sua energia em outras atividades.

Por fim, você entende que a incerteza ainda vai permanecer até você receber de fato uma devolutiva dos recrutadores.

Um outro exemplo pode ser quando outra pessoa está encarregada de fazer alguma tarefa da qual você depende. A informação que você já tem sobre a situação é qual a tarefa a ser feita e quem vai fazer.

Sobre informações que você ainda pode obter neste momento, é possível saber o andamento da tarefa. A sua responsabilidade nessa situação é perguntar à pessoa responsável como a tarefa está indo.

Por fim, a parcela de incerteza que fica é o resultado final da tarefa, que você só vai ver quando de fato a tarefa estiver terminada.

Perceba que esse exercício não busca eliminar a incerteza por completo, mas sim ajuda a encarar a incerteza de uma forma mais racional, percebendo quanto tempo e energia estão sendo “desperdiçados” se preocupando com a situação incerta, bem como evidenciando o que está de fato no seu controle diante dessas situações.

Vale ressaltar que esse exercício não é um protocolo terapêutico e não substitui o acompanhamento de um profissional da saúde mental. Se você sente que a incerteza te causa angústia de forma a prejudicar seu funcionamento no dia-a-dia, não hesite em procurar ajuda com um profissional capacitado!

Além disso, diante da incerteza, não abandone procedimentos e verificações de segurança ou tratamentos e cuidados médicos enquanto você ainda não consegue ver seus resultados. Muitos desses processos só dão resultados com o tempo e manter a paciência é fundamental.

Close-up de mãos segurando cheques ao lado de um laptop em ambiente interno para tarefas financeiras.

Referências

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